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Postada em 05-24-2006. Acessado 579 vezes.
Título da Postagem:Índia e Paquistão: Destruição recíproca assegurada
Titular:Manuel Cambeses Júnior
Nome de usuário:Cambeses
Última alteração em 05-24-2006 @ 02:48 pm
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Autor: * Cel Av RR Manuel Cambeses Júnior

Em meados do ano de 1998, a India detonou, em caráter experimental, cinco bombas atômicas. Algum tempo depois, o Paquistão promoveu a detonação de outros seis petardos nucleares. A partir deste momento, estava instalada uma corrida armamentista nuclear no sul da Ásia.

A bem da verdade, a condição de ambos os Estados no domínio da tecnologia nuclear, para fins bélicos, já era bem conhecida no cenário internacional, sendo fonte permanente de desconfiança e de preocupação por parte da Organização das Nações Unidas. Em 1974, a India havia explodido, simbolicamente, sua primeira bomba atômica e qualificou esta ação de “explosão nuclear pacífica”. Muito embora esta demonstração de poderio militar se voltasse, primacialmente, para a China, o Paquistão, buscando equiparação, resolveu deslanchar estudos voltados para o desenvolvimento de tecnologia nuclear com objetivos especificamente militares.

            Entretanto, ainda que fosse do conhecimento geral que ambos os países possuíssem a tecnologia necessária para armarem-se com bombas atômicas, quando assim o desejassem, o comedimento, felizmente, prevaleceu em ambas as partes. A decisão de dar um salto adiante, transformando-se em potências nucleares, implicou em passar de mera possibilidade para a ação concreta. Assim, constatamos que poucas decisões na História mostraram-se tão absurdas quanto esta.

            No que concerne ao diferendo territorial e as conseqüentes fricções geopolíticas entre os dois países, a posse de bombas atômicas é algo que torna-se altamente questionável. Ao gerar uma corrida armamentista nuclear, India e Paquistão passaram a ser reféns do princípio da “destruição recíproca assegurada”, abdicando, desta maneira,  das tradicionais estratégias  militares com o emprego de armamento convencional. Ao absolutizar a capacidade de destruição recíproca, traçaram uma tênue linha de separação entre a racionalidade e a extinção.

            Tampouco em termos de status internacional a decisão de desenvolver a tecnologia nuclear, para fins bélicos, produziu o  efeito desejado. A visão segundo a qual a obtenção de poder nuclear equivale a adquirir a condição necessária para a inserção no clube das potências mundiais, já encontra-se profundamente anacrônica. A queda do Muro de Berlim significou o fim das supremacias medidas em termos político-militares e assinalou a ascensão de novos parâmetros do poder. Estes, hodiernamente, expressam-se em níveis econômicos, financeiros e comunicacionais. A Rússia, por exemplo, apesar de seu portentoso arsenal nuclear e dos setecentos testes atômicos realizados, nos tempos da União Soviética, dificilmente poderá ser catalogada, na atualidade, como potência de primeiro nível. Suas limitações econômicas e suas imensas vulnerabilidades domésticas condicionam, inevitavelmente, o seu status internacional.

            Algo similar poderíamos dizer da India, em matéria de segurança. Com uma população de aproximadamente um bilhão de habitantes e que cresce, a cada ano, em torno de dezessete milhões de pessoas e duplica sua população a cada trinta e oito anos, os problemas de segurança encontram-se, basicamente, no interior de suas fronteiras. Em meio a imensos problemas de degradação ambiental, hipercrescimento urbano, insuficiência de água e energia, infra-estruturas colapsadas ou insuficientes, conflitos étnicos e de castas, de pouco serve a Nova Délhi a bomba atômica, salvo para dissipar energias criativas e recursos econômicos indispensáveis.

            Em que pese as diferenças populacionais, algo similar poder-se-ia dizer do Paquistão, com a diferença que ali intervém, adicionalmente, o islamismo, fator de permanente combustão social naquele país.

            Em nossos dias, a segurança de uma nação se mede, essencialmente, em termos de resguardo, considerando o risco de implosão de suas estruturas estatais. Frente a esta realidade, a bomba atômica aparece como um brinquedo demasiadamente suntuoso para ser manejado por nações tão carentes e de imensos contrastes sócio-econômicos.

            India e Paquistão parecem ter olvidado que a sadia convivência entre vizinhos e a inter-relação econômica é um fator sinérgico e impulsionador do crescimento e demonstração de maturidade política. Lamentavelmente, estão agindo na contramão da História e, como corolário, devem aprender a conviver com a idéia da própria extinção como parte de uma dura realidade cotidiana.




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