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Postada em 07-01-2010. Acessado 6810 vezes.
Título da Postagem:ESPÍRITO DE CORPO, CORAGEM E HONRA MILITAR
Titular:Edson de Souza Moraes
Nome de usuário:apache
Última alteração em 07-01-2010 @ 04:38 pm
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Semper fidelis – Divisa do Corpo dos Marines

14. O TRIBUNAL DE GUERRA – Abril de 1956, em Parris Island – Julgamento do instrutor e comandante de pelotão, 3. Sgt Matt McKeon, pelo acidente (afogamento) que ocasionou a morte de seis recrutas em uma instrução noturna.

“Estive em Bataan. Se não fosse marine, estava morto.”

Na madrugada de 9 de abril de 1942, catorze anos antes, muito longe da costa leste dos Estados Unidos, na península de Bataan, longas colunas em estado lastimoso, desesperadas, estendiam-se por várias dezenas de quilômetros. Caminhavam ao longo das estradas da selva em direção a nordeste e à baía de Manila.

Vestidos de pano desbotado e de fardas usadas, de cabeça descoberta, 80.000 homens avançavam cabisbaixos, entre duas filas de soldados armados, vigorosos e bem calçados, com a pele tom de acaju. O exército americano de MacArthur acabara de cair em poder dos japoneses. O maior exército americano a ser capturado em toda a história dos Estados Unidos. Previamente, tinha retirado para Bataan, após o desembarque dos japoneses nas Filipinas, em Dezembro de 1941. Em fevereiro de 1942, MacArthur, isolado, estava apertado numa verdadeira tenaz. Uma vedeta torpedeira veio buscá-lo. A 3 de abril, os japoneses tinham atacado com artilharia e aviação. 2.000 homens conseguiram escapar de Bataan e juntar-se ao 4. Regimento de Marines, que ocupava ao largo da península a fortaleza de Corregedor. A oito de abril, o 1. E o 11. Corpos de Exército americanos tinham se rendido. Para mais, nenhum homem poderia resistir sem reabastecimentos.

A marcha da morte começou.

Uma testemunha fala sobre o que se passou. É Sydney Stewart, 1,90m, louro, vinte anos, um físico de viking. Viu os americanos com ar famélico, alinhados ao longo da estrada, sujos de pó, os fardamentos em tiras, o medo e o ódio nos olhos vermelhos de cansaço.

Os soldados japoneses arrancam-lhes os relógios e as canetas. E espancam-nos, também, furiosos.

- Mesmo junto de mim – relata, Stewart – um rapaz deixou escapar um grito de dor quando recebeu na cara um murro de um guarda japonês. Este começou a rir e deu com a coronha da espingarda na cabeça do desgraçado. O pobre caiu, gemendo, de joelhos. Com toda força, o guarda tornou a dar-lhe de novo com a coronha e a cabeça do rapaz abriu-se, à minha vista, com um barulho surdo. O corpo fez várias convulsões, estremeceu, os dedos crispados na terra e depois imobilizou-se. Um outro soldado japonês riu e deu um pontapé no morto. De dia, o sol queimava dolorosamente a pele. Os homens caíam. Os soldados arrebentavam-lhes a cabeça à coronhada ou furavam-lhes o ventre com a baioneta. Aqueles que caíam não se levantavam mais. A escuridão caiu lentamente e a fria realidade penetrou no meu cérebro, ao mesmo tempo que a frescura da noite... Marchamos toda a noite. A madrugada trouxe de novo o sol e, com ele a temperatura que subia lentamente... O calor queimava-nos, mas nós continuávamos a marchar com medo de cair nos lados da estrada. Os prisioneiros marchavam em quatro filas e, hora após hora, as duas do interior mudavam com as do exterior, que os guardas japoneses enchiam de pancada, para os impedir de diminuir o andamento da marcha ou de beber água fétida dos pântanos. Encontraram, entretanto, um ribeiro. Os japoneses fizeram-nos parar. Um homem saiu da fila, correu para a água e mergulhou a cabeça. Um oficial japonês correu, desembainhou a espada e brandiu-a... Ví a cabeça separar-se do corpo e a água tingir-se de vermelho-vivo. O corpo ficou um momento imóvel. De repente, o sangue saltou em cascata do pescoço decepado. O homem sem cabeça caiu para a frente e vimo-lo boiar, por momentos na água do ribeiro... Nesse momento, os guardas deram-nos ordem de recomeçar a marcha. Não nos deixaram beber. Os nervos começaram a falhar. Os homens ficaram loucos. Gesticulavam de um modo assustador e atiravam-se brutalmente para o chão, preferindo morrer. Só sobreviviam e marchavam os que tinham nervos de aço e uma pele de couro. A marcha da morte durou doze noites e doze dias. A estrada ficou inundada de sangue e de cadáveres. Um batalhão de japoneses seguiam-nos para limpar à metralhadora os que agonizavam. 14.000 homens perderam a vida.

Chesty Puller, tinha servido no 4. Regimento de Marines, em Xangai, em 1939. Quando depõe perante o Tribunal de Guerra, em favor do Sargento McKeon, não esqueceu a vergonha sangrenta de Bataan e Corregidor.

- O que venho aqui afirmar, diz-se em poucas palavras. Se querem Marines, façam homens duros! E se não me fiz compreender, agradecia que me dissessem!

A voz do general Lewis Puller soa como um trovão entre os quatro muros do anfiteatro. Com 58 anos, e reformado há 1, continua a ter o arcaboiço de um super-marine de 30 anos. Veio fardado como o herói que vem defender a sua legião. Três estrelas nos ombros, oito fieiras de medalhas no peito. Cinco vezes foi condecorado com a Navy Cross.

Há  já trinta anos que suscitava a admiração do Corpo. A reputação de que goza é de que o coração dele só bate pela guerra. Chesty Puller, o mais brutal entre os Marines.

Sulista, nascido na Virgínia, educado nas tradições da velha Confederação, entra para West-Point, donde sai alferes. A Primeira Guerra Mundial está no auge. Parte. Regressa. Os Marines batem-se em Haiti. Chesty que estar presente. Desiste do seu posto de alferes e oferece-se como voluntário. No Haiti é promovido a Cabo, lutando contra a guerrilha durante cinco anos. Mais tarde embarca para o Havaí e para a Nicarágua, onde é feito Tenente. Marine a cavalo em Pequim, sentinela em Xangai, Comandante de Batalhão em Guadalcanal, onde recebe a terceira Navy-Cross. Segue-se a campanha do Pacíficio. Em Julho de 1944, está em Guam. Mandam-lhe sacos de dormir acolchoados para os seus homens que dormem nas praias.

- Levem-me já isso! – Grita – Atirem-nos para dentro de água! Que é que querem fazer dos meus homens? Chulos ou flores de estufa?

A 25 de setembro de 1950, já Coronel, conduz o 1. Regimento de Marines ao assalto de Seul.

- Há soldados profissionais que esperam vinte e cinco anos antes de poderem praticar verdadeiramente a sua profissão.

- Diz ele aos seus oficiais. – Somos meus senhores os homens mais felizes que há. Cinco anos após a última guerra, eis outra. Escolhemos viver pela espada e, se necessário morrer pela espada! Chegou o momento. Vamos a isto!

A 27 de setembro, os edifícios da capital sul-coreana enchem-se de bandeiras com as estrelas.

- Desde que foi publicada a fotografia de Iwo-Jima – diz em tom de mofa um oficial do estado-maior – tenho a certeza de que todos os vossos homens preferem transportar na mochila uma bandeira em vez de uma espingarda.

- Não é tão estúpido como isso – responde-lhe Chesty. – Um tipo com uma bandeira na mochila e com a vontade de a colocar numa posição inimiga não é fácil de ser desalojado.

A quando do seu regresso da Coréia, comanda a instrução do Corpo de Marines e depois a 2ª Divisão. Como foi o caso do general Smedley Dutler em 1930, Puller tem uma voz demasiado forte para se tornar num comandante bastante dócil perante os três ramos das Forças Armadas.

Puller é o oposto do  general Randolph Pate. Não quer provar outra coisa aos oficiais que julgam McKeon.

- É evidente que essa marcha noturna foi um incidente deplorável – diz ele com a sua voz forte – mas tenho a acrescentar que esse treino é indispensável. Uma das  razões porque as tropas americanas tiveram problemas na Coréia deve-se à falta de treino noturno. Os americanos estão de tal modo habituados à luz elétrica que não vêem nada de noite.

E com a idéia de impressionar o seu auditório, relembra a lei que rege os Marines:

- A coisa principal que me ensinaram quando era um jovem recruta em Parris Island, e de que recordarei toda a minha vida, é a definição do chamado espírito de corpo, ou seja, o amor pela sua própria legião. Para mim, essa legião são os Marines. Esse amor é mais forte que o amor pela pátria, o instinto da conservação ou a fé na religião pessoal. Aprendi também que essa lealdade, essa fidelidade para com os seus, se exprime nos dois sentidos, do subordinado para o chefe e vice-versa.

Por outras palavras: o general Pate faltou ao espírito de corpo ao abandonar o seu sargento aos inimigos dos Marines.

À pergunta que atormentava o espírito de Matt MacKeon: “será que desonrei os Marines?”, Chesty, o mais brutal e o mais digno entre os Marines, responde: “Não!” (extraído do livro Os Marines, de François D’Orcival, Paris,1972, 354 páginas).     




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