As opiniões expressas neste artigo e seus comentários não representam a opinião do Portal Militar, das Forças Armadas e Auxiliares, ou de qualquer
outro órgão governamental, mas tão somente a opinião do usuário. Os comentários são moderados pelo usuário.
 
Denuncie | Colaboradores: Todos | Mais novos ] - [ Textos: Novas | Últimas ]

O autor decide se visitantes podem comentar.
 
Postada em 08-19-2006. Acessado 480 vezes.
Título da Postagem:Considerações sobre o Islamismo
Titular:Manuel Cambeses Júnior
Nome de usuário:Cambeses
Última alteração em 08-19-2006 @ 11:40 am
[ Avise alguém sobre este texto ]
Curriculum 
Vitae

 

 

 

Autor: * Cel Av RR Manuel Cambeses Júnior

O termo Islamismo corresponde ao Islã radical, militante e ideologizado que concede à religião fins políticos. Os islamitas se consideram uma força avançada frente à massa muçulmana, chamada a tomar o poder a qualquer custo, com o objetivo de criar uma ordem social inteiramente regida pelo Corão. O Islamismo se aproxima do Corão a partir de uma leitura textual, porém politizada, de suas normas. Para entender o impacto do Islamismo em nossos dias é necessário entender, em profundidade, o contexto em que está imerso.

Durante séculos a difusão do Corão se projetou em duas vertentes. De um lado, através dos sufis, clérigos populares e pura expressão de um Islã popular. De outro, através dos ulamas, clérigos acadêmicos e tácita manifestação de um Islã culto. Enquanto os primeiros assumiram uma função eminentemente missionária que conduziu o Corão aos lugares mais remotos, os segundos se identificaram com as elites e as grandes cidades. É importante destacar que os ulamas preservaram o Corão em sua versão original, ao passo que os sufis permitiram que este se amalgamasse com diversas crenças locais, como fórmula de propiciar sua expansão. Enquanto o Islã dos uslamas era essencialmente secular, o dos sufis se ocupava mais do destino da alma após a morte.

A partir do século XVIII, o mundo muçulmano começou a evidenciar um preocupante declínio. Isto foi claramente evidenciado pelos ulamas como expressão de um Islã em fase de degeneração, cuja recuperação passava pela depuração de suas manifestações populares. Este poderoso movimento de renovação religiosa abarcou desde as "guerras santas" no mundo árabe, no Oeste da África e na Ásia Central, até aos processos educativos na África do Norte, na Índia e na Indonésia. O resultado, conseqüentemente, foi o reencontro com as raízes originárias do Islã, forjado de uma identidade muçulmana comum, ou seja, foi o retorno ao Islã secular e essencialmente apegado à terra.

A notável expansão do poderio e valores ocidentais, expressados inicialmente através do colonialismo europeu e, a seguir, por outras vias, estabeleceram novos objetivos existenciais ao mundo muçulmano. Os mesmos foram enfrentados através de três grandes movimentos: os reformistas, os modernistas e os islamitas. Os primeiros preconizavam uma maior ênfase no modelo de depuração religiosa que vinha se manifestando desde o século XVIII. Os segundos propunham a conquista da ciência e da tecnologia ocidentais, bem como muitos de seus valores, como fórmula para compensar o próprio atraso em que estavam imersos. Os islamitas, por seu turno, alarmados pelo fracasso dos reformistas e pela capitulação dos modernistas, construíram uma ideologia político-religiosa que buscava a derrota do capitalismo e do socialismo ocidentais, assim como toda e qualquer manifestação destes no mundo muçulmano.

No final do século XX e início do século XXI, a fúria dos islamitas dirigiu-se fundamentalmente contra os Estados Unidos. O fato deste encarnar a máxima expressão do materialismo e hedonismo ocidentais e seu incondicional e contumaz apoio a Israel foram fatores determinantes nesse sentido. As inúmeras torpezas perpetradas pelos norte-americanos, como represália aos atentados de 11 de setembro, fizeram proliferar as fontes que alimentam o Islamismo. Um dos maiores paradoxos a que assistimos, na atualidade, é que o Governo estadunidense transformou-se no melhor respaldo dos islamitas em sua estratégia de conquistar almas e corações no mundo muçulmano. A guerra no Líbano, certamente, constitui o último episódio deste curioso e instigante processo.

* O autor é Coronel-Aviador da Reserva da Força Aérea; membro-correspondente do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra; membro-titular do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil e pesquisador do INCAER.




Bookmark and Share
Outas colaborações de Cambeses
Veja Mais
Perfil de Cambeses
Perfil do Usuário
Junte-se a nós!
Junte-se a nós!