As opiniões expressas neste artigo e seus comentários não representam a opinião do Portal Militar, das Forças Armadas e Auxiliares, ou de qualquer
outro órgão governamental, mas tão somente a opinião do usuário. Os comentários são moderados pelo usuário.
 
Denuncie | Colaboradores: Todos | Mais novos ] - [ Textos: Novas | Últimas ]

O autor decide se visitantes podem comentar.
 
Postada em 11-09-2012. Acessado 632 vezes.
Título da Postagem:As estórias dos veteranos são as estórias do controle da qualidade da empresa
Titular:Lewton Burity Verri
Nome de usuário:Lewton
Última alteração em 11-09-2012 @ 05:19 pm
[ Avise alguém sobre este texto ]

As estórias dos veteranos são as estórias do controle da qualidade da empresa?

Tags: Transmissão, conhecimento, difusão, gerações, passado, presente, futuro, administração, JUSE, AOTS, QC Story, estória do controle da qualidade, dimensões da qualidade, TQC, Japão, japonesa, engenharia, evolução científica, educação e treinamento, habilidades, resolução de problemas, melhoria contínua, Ishikawa, Deming, General McArthur, 2ª Grande Guerra Mundial, disfunções, Zero Defeito, 3 MU, 5S
 
A necessidade de transmissão do conhecimento e das experiências humanas é tão antiga quanto à humanidade. Civilizações inteiras desapareceram quando, de certo modo, terminaram perdendo os seus portadores de saber e vivências, além de terem sido destruídos ou pilhados os objetos e recursos dos seus registros históricos.
 
Sempre que uma civilização perde seus elementos da sabedoria e de conhecimentos, ela entra em degradação civilizatória, e não consegue enfrentar as diversidades e vicissitudes que as condições sociais, tecnológicas, ambientais, econômicas, culturais e humanas lhes impõem – inimigos, pragas, calamidades, guerras, fome, miséria e doenças.
 
Afinal, tudo compete na natureza, e a evolução se revela um fenômeno incontestável na realidade, tanto material, quanto espiritual. Haja vista que com base na arqueologia, e na antropologia, tudo revelado, em sítios de civilizações extintas, nos mostra que em todas as sociedades foram encontrados instrumentos e concepções relevantes revolucionárias e evolucionárias.
 
Comparemos o mundo do século 18, com o do século 19 e agora com o do século 21, e constataremos a evolução das coisas e das organizações ...
 
As descobertas entre sítios arqueológicos, distantes em localidades e em idades, revelam status civilizatórios diferentes, em organização social, aparente sociologia, tecnologia, habitabilidade, ordem jurídica, condições militares e engenhosidades. Porem, o grande destaque está na forma em que o conhecimento é valorizado, registrado e difundido.   
 
Boa parte das relações entre conhecimentos e riquezas vem da antropologia e da arqueologia. Portanto, os sítios arqueológicos nos mostram que conhecimentos perdidos, ou superados, em parte foram responsáveis pelo fim de muitas civilizações – perderam a capacidade cognitiva para enfrentarem as mudanças, vicissitudes e ameaças.
 
Assim, as nações se duelam, com a aparente evolução moral, num processo sub-reptício, de intenções não explicitas, em busca de vantagens em todos os pontos de vista científicos – vantagens nas condições sociais, tecnológicas, ambientais, econômicas, culturais e humanas. E o mundo se alterna pela ascensão e queda das nações.  
 
Os sítios da arqueologia nos contam as estórias dos “veteranos habitantes do planeta”, as quais nos relatam com DADOS e FATOS o histórico de sucessão das transitoriedades que exigiram poder cognoscível das comunidades no enfrentamento das ameaças, dos viventes do curso histórico naquele local e naquele tempo ...
 
Do mesmo modo que a degeneração civilizatória, pela perda dos elementos do conhecimento, ocorre com aldeias, vilas, lugarejos, países e sociedades, ela ocorre com as instituições, empresas públicas e privadas.
 
Cuidado com quem se aposenta na sua empresa, ou pede demissão, ou é contratado pelo seu concorrente – você pode perder as estórias dos “veteranos funcionários da empresa”.
 
No final da 2ª Grande Guerra Mundial, no Japão, o técnico Nagano foi contratado para trabalhar numa fábrica de motores elétricos, no início dos anos 1950. Tal fábrica havia sido fornecedora de motores elétricos para navios, aviões, veículos e outros armamentos dos equipamentos bélicos japoneses.
 
Após a guerra, em seus rescaldos, o PIB japonês foi praticamente a ZERO. E entre 1950 e 2010 o PIB japonês, em 60 anos, chegou a atingir o valor de US$ 5,5 trilhões, com renda per capita de US$ 42.150,00 por habitante. É a terceira economia do Planeta Terra, atrás apenas dos EUA (1ª econ.) e da China (2ª econ.).
 
A produtividade econômica da mão de obra japonesa, hoje 2010 / 2011, que significa o potencial de geração de riquezas por trabalhador, chega a US$ 83.600 / trabalhador (3ª econ.). A dos EUA é de US$ 91.800 / trabalhador (1ª econ.). E a da China é de US$ 7.500 / trabalhador (2ª econ.).
 
Se tomarmos o nosso conceito de emissividade de CO2, dados de 2010, por US$ de riqueza gerada, vamos nos espantar. O Japão produz US$ 4.230 de riqueza emitindo 1 tonelada-ano de CO2. Os EUA produz US$ 2.517 de riqueza emitindo 1 tonelada-ano de CO2. Ao passo que o denominado milagre chinês produz US$ 907 de riqueza emitindo 1 tonelada-ano de CO2.  
 
Por ora, no Planeta Terra, a engenharia, e sua administração, mais bem sucedida é a japonesa ...
 
Quando Nagano ingressou para serviço a fábrica já havia perdido quase todo seu corpo técnico, de domínio do conhecimento fabril e tecnológico, pelas convocações para as frentes de batalhas, contra os EUA e seus aliados.
 
Antes do fim da guerra ela já havia parado a produção. Agora com a intervenção dos EUA, nas ilhas japonesas, a fábrica iria “recomeçar” sua produção de motores elétricos para máquinas de lavar, geladeiras, liquidificadores e outras utilidades domésticas.
 
Entretanto, o conhecimento havia se dispersado e desaparecido. Numa procura por ex-trabalhadores apenas alguns poucos foram encontrados e muitos não tinham condições físicas e mentais para retorno aos serviços. Alguns viraram consultores, ou “banco de memórias” das atividades industriais passadas.
 
De parte do contingente militar desmobilizado, com o fim da guerra, foram recrutados trabalhadores com experiência em motores elétricos, manutenção elétrica e outras atividades correlatas à tecnologia e a engenharia elétrica.
 
Em verdade a fábrica parecia um sítio arqueológico. E iniciaram as buscas dos manuais, dos esquemas, dos desenhos técnicos, dos organogramas, dos procedimentos e padrões, dos métodos de função e operação, dos meios de comunicação, dos velhos artigos e relatórios, dos livros fundamentais e etc.
 
Iniciaram um levantamento sobre os problemas e o histórico deles. Iniciaram uma “remontagem” do corpo estrutural do conhecimento que capacitava a fábrica “reiniciar” sua produção. E tiveram que contar com as “estórias dos veteranos sobreviventes”, para “reconstruírem”, organizada e racionalmente, o corpo principal e secundário do conhecimento mínimo para a retomada daquela produção.
 
Em decorrência destes procedimentos, de reconstrução do conhecimento local e temporal, daquela fábrica, e em quase todas as fábricas que foram “reativadas” pelos americanos e japoneses, alguns princípios foram sedimentando conceitos e metodologias.
 
Após 1951, com a criação da JUSE – Japanese Union of Scientists and Engineers (União Japonesa de Engenheiros e Cientistas) começou a haver uma centralização intelectual na criação de métodos, técnicas e sistemas de administração da produtividade, da qualidade e da economia, os quais, após validação científica, eram difundidos uniformemente, entre todas as fábricas que estavam sendo “reativadas” e entre todas aquelas que não chegaram a parar suas produções.
 
Desta forma, todas as disfunções de projeto e concepção, as operacionais, de fabricação, inspeção, testes e ensaios, nas fábricas, foram sendo enfrentadas, e eliminadas, paulatinamente. E as “estórias dos veteranos sobreviventes” começaram a assumir alta importância na eliminação de disfunções, pelo fato de que eles – os veteranos - possuíam o conhecimento do passado sobre os fatores de produção que ajudavam a bloquear o que chamamos de: defeitos, falhas, acidentes, erros, omissões, bobeiras, descuidos, enganos técnicos, explosões, incêndios, desordens, desorganizações, descoordenações, toxidade, contaminações, envenenamentos, poluição e etc.
 
Então, já se suspeitava que as estórias dos veteranos eram as estórias do controle da qualidade da empresa ... Qualquer ação de controle para bloquearmos e eliminarmos defeitos, falhas, acidentes, erros, omissões, bobeiras, descuidos, enganos técnicos, explosões, incêndios, desordens, desorganizações, descoordenações e etc, visa atingir a melhoria da QUALIDADE, da produtividade e da economia.
 
A JUSE, segundo o Profº Kaoru Ishikawa, começou a visualizar que a QUALIDADE, em geral, possuía 5 dimensões:
 
1ª. A da Qualidade, em si do produto, de seu material, de sua concepção, de sua conformidade, de sua finalidade útil, de sua manutenção, de sua durabilidade e de sua segurança técnica;
 
2ª. A do Custo, em si do produto, de seu preço, de sua relação custo benefício, de todas as subdimensões dos custos da qualidade: a de avaliação, a de prevenção, a de falhas externas e a de falhas internas, das facilidades de aquisição e de pagamentos;
 
3ª. A da Programação de Entrega, do produto em si, desde o seu planejamento a até a sua apresentação no local certo, na hora certa, na quantidade certa, numa logística impecável, desde embalagem e identificação, até a rastreabilidade de suas características e dados de produção, fabricação e fornecedores de origem;
 
4ª. A da Segurança, do produto em si, de sua aptidão no uso, no aprendizado do uso, nas condições operacionais e de sua manutenção, na sua sujeição ambiental, de sua ergonomia para o usuário, de sua inocuidade para a saúde das pessoas;
 
5ª. A do Moral, do corpo profissional de sua concepção, fabricação, inspeção, testes, ensaios, manuseio, embalagem, vendas, transporte e entregas, na sustentação da satisfação dos empregados colaboradores, na segurança total, física, mental, espiritual e socioeconômica, na formulação de planos de carreira e de benefícios, na saúde plena de todos.
 
O Controle da Qualidade, destas 5 dimensões, nas empresas japonesas abarcava o ciclo de vida completo dos produtos, e todos os departamentos delas, conceituando-se como Controle da Qualidade por Toda a Empresa, ou mais tarde TQC – Total Quality Control. Não só dentro de cada departamento, como o controle da qualidade nas interfaces, entre departamentos, e entre a empresa e seus fornecedores a montante e seus clientes a jusante. E todos os departamentos passaram a ser responsáveis pela QUALIDADE, ou seja, pelas 5 dimensões dela.
 
Quando um veterano estava evidenciando os procedimentos administrativos e operacionais, sobre uma ação de controle da qualidade, ele estava relatando uma estória do passado. Para que sua lógica pudesse ser aproveitada, para novas ações de controle agora, no presente. Afinal a fábrica já tinha agora uma nova geração para sua administração.
 
Porém, nenhum de nós ficará para semente, e, portanto, todos vamos nos aposentar um dia, e para não DESERDAR, a nova geração do futuro, foram criados relatos para o futuro, com respeito ao controle da qualidade das atividades da fábrica e de seus departamentos.
 
Percebemos que os relatos dos veteranos são da geração passada, de trabalhadores, que retroalimentam os relatos da geração presente, e estes deixam relatos para as gerações futuras.
 
A JUSE denominou este procedimento de QC STORY, a Estória do Controle da Qualidade, a qual, em função da posição temporal, representa estórias administrativas das ações de controle da qualidade por toda a empresa e em todas as épocas. O QC Story, também é conhecido no Japão como o Relatório das 3 Gerações.  
 
Nos anos 1950 a engenharia japonesa já possuía diretrizes para a fixação e a aculturação do conhecimento técnico-científico-administrativo, de maneira formal, com base em métodos de relatos, exposição de dados e informações, maneiras de cálculos e gráficos, meios de investigações, estatística aplicada, maneiras de testes e exames de bloqueios aos problemas comprometedores da qualidade, da produtividade e da economia.
 
A estória de Nagano é um conto verossímil, já que me foi contado pelo Engº Profº Masao Umeda, que foi meu monitor no convênio da CSN, com a AOTS / JUSE, há cerca de 20 anos atrás. E, portanto, salvo engano, posso ter omitido ou incluído pontos que estivessem nas brumas do passado de minha memória.
 
E “quem conta um conto, termina aumentando um ponto”, como no dito popular. E isto é um dos riscos, quando as empresas não possuem um modo formal, científico e disciplinado, de repassar para as gerações futuras, as suas informações básicas: institucionais, operacionais, funcionais e administrativas.
 
E nem um modo técnico e seguro de documentar o procedimento contínuo de melhoria da qualidade, e da solução dos seus problemas, para evitar repetições e retorno de problemas, incidentes e acidentes que já haviam sido bloqueados pelas administrações anteriores.
 
Não deixe sua empresa virar um sítio arqueológico ... Garanta a sustentabilidade do conhecimento em sua empresa, para que as gerações futuras, de operários, técnicos, engenheiros, cientistas e administradores, não fiquem deserdadas do poder da melhoria contínua da qualidade.
 
 Abraços,
 
Lewton



Bookmark and Share

Comentários

EJoseA em 27-10-2012 às 01:03 am

E quantas informações técnicas foram perdidas com o fechamento da FNM (Fabrica Nacional de Motores), da Engesa (Engenheiros Associados), e de outras indústrias mais que foram fechadas de forma abrupta? Terrível essa perda de sabedoria. Uma ocasião visitei a Willys Overland (hoje da Ford) em São Bernardo do Campo, e lá no laboratório de criação de novos projetos, encontrei um engenheiro alemão (da IIº Guerra Mundial) que construiu o primeiro hopicopter (helicóptero individual); mostrou uma série de motores a explosão de pequenas dimensões, que trouxera dos laboratórios alemães. Fiquei fascinado pelos motores, que mostravam tal perfeição técnica, avanços tecnológicos impressionantes. Penso que lamentavelmente foram perdidos tais conhecimentos. Terrível quando se perde conhecimentos. Gilles Lapouge, jornalista francês, contou que em França altos fornos siderúrgicos começaram a perder tijolos das paredes internas, e foi um 'DEUS nos acuda', pois parar um alto forno é um problema seríssimo, e ainda mais quem forneceria os tijolos refratários? Quem teria os conhecimentos de 'pedreiro' para tal obra? Pois o assentamento em altos fornos não é para qualquer um. E pior, não encontravam solução. Assim o governo francês lançou uma campanha publica para encontrar tais especialistas em meio aos aposentados, pagando uma fortuna pelo retorno deles ao trabalho; e deu muito certo pois encontraram pessoas que sabiam a fórmula para fabrico dos tijolos de altos fornos, e outros que sabiam como assenta-los. E nos dias de hoje, quem sabe como construir uma chaminé de tijolos de 50, 60 metros de altura? Ou saiba construir uma escada de madeira em espiral (sem pregos) de uns 20 metros de altura? São poucos que sabem como fabricar esferas de rolamentos e também cones de rolamentos. E a sabedoria acumulada dos antigos sargentos, cabos? No processo atual de destruição das FFAA, será perdida, o que virá a se mostrar um desastre.


Outas colaborações de Lewton
Veja Mais
Perfil de Lewton
Perfil do Usuário
Junte-se a nós!
Junte-se a nós!