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Postada em 05-23-2006. Acessado 646 vezes.
Título da Postagem:O obstinado vôo dos Falcões Republicanos
Titular:Manuel Cambeses Júnior
Nome de usuário:Cambeses
Última alteração em 05-23-2006 @ 06:53 pm
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Autor: * Cel Av RR Manuel Cambeses Júnior

O discurso de posse do segundo mandato do presidente estadunidense George W. Bush, na realidade constitui, em sua essência, um manifesto tipicamente neoconservador. Ele expressa claramente as idéias centrais que alicerçam esse movimento: a universalidade dos valores norte-americanos e a responsabilidade de difundi-los pelo mundo, em uma autêntica e obsessiva cruzada existencial que propicie mudanças de regime em governos de distinta natureza. Confirma-se, assim, uma vez mais, que enquanto seus velhos aliados, os fundamentalistas cristãos, encarnam a musculatura que dá sustentação ao Partido Republicano, os obstinados “falcões” republicanos representam o cérebro do mesmo.

Tal como se deduz do prefixo “neo”, trata-se de conservadores de novo cunho e portadores de novas idéias, sendo, portanto, expressão do fanatismo que caracteriza o obsessivo e determinado grupo que exerce, atualmente, a liderança do país. Trata-se de um grupo de antigos liberais, decepcionados pelos excessos de permissividade que se produziram nos anos sessenta e setenta do século passado, e que deram uma tremenda guinada para a direita, pretendendo, desta maneira, ser revolucionária. O mentor espiritual desse ativo e determinado grupo foi o pensador Leo Strauss, que lhes ensinou que o valor do compromisso em política consiste na busca de absolutos, rechaçando toda manifestação de relativismo e pragmatismo. Ademais, inculcou-lhes a idéia de que, para superar a decadência moral que vinha se evidenciando nos Estados Unidos, era imperioso aferrar-se a mitos nacionais que tivessem capacidade unificadora. Para isso, nada melhor do que criar inimigos externos, no sentido de propiciar a coesão e o espírito combativo do corpo nacional.

Desde o começo, os neoconservadores fizeram apologia a um maquiavelismo sem par, baseados na falsa premissa de que os fins justificavam os meios. Daí a origem da desonestidade intelectual evidenciada na atualidade. Esta tem se manifestado sistematicamente através da manipulação de dados e na difusão de mentiras. Adversários declarados de Henri Kissinger, nos anos sessenta, viam em seu pragmatismo e em sua política de distensão a expressão de tudo o que havia de mal na expressão política. O combate ao inimigo externo, naquela época encarnado pelos soviéticos, deveria ser medido, segundo eles, em termos absolutos.

Nos tempos do Presidente Gerard Ford, esse combativo e determinado grupo conseguiu disseminar a mentira de que os soviéticos estavam se armando até os dentes, o que consistia em franca violação dos acordos existentes. Isso ocorria de forma incisiva e sistemática, em que pese a evidência diemetralmente oposta apresentada por um célebre informe da CIA.

Mais tarde, com Ronald Reagan no poder, e tendo conseguido cooptar o novo diretor da CIA, dedicaram-se a difundir a tese de que os diferentes movimentos terroristas internacionais estavam sendo financiados e coordenados pelos soviéticos. Colocando em um mesmo balaio, palestinos, irlandeses, bascos, colombianos e fundamentalistas islâmicos, os neoconservadores conseguiram convencer o Presidente Reagan de que os EUA confrontavam uma grande investida soviética.

Com Bill Clinton na Casa Branca repentinamente tiveram que enfrentar o que mais temiam: uma presença moderada, secular, pragmática, aberta ao compromisso e ao diálogo, e altamente popular. Não foi à toa que utilizaram contra ele o mais torpe e infame arsenal de difamações e mentiras. Isto até, lamentavelmente, o próprio Clinton proporcionar-lhes um escandaloso caso real envolvendo a estagiária da Casa Branca, Mônica Lewinsky.

Com George W. Bush no poder, e após o fatídico 11 de setembro de 2001, que lhes caiu repentinamente e graciosamente como rico anel no dedo, na busca de um inimigo externo, os neoconservadores tornaram-se todo-poderosos. Novamente, a manipulação e o engano saíram em campo a esgrimir o tema das armas de destruição em massa no Iraque, desculpa perfeita para lançar uma cruzada existencial bem ao gosto dos belicosos “falcões” republicanos.

Diante deste cenário, podemos inferir que enquanto os Estados Unidos permanecerem atolados no Iraque, os neoconservadores estarão neutralizados. Depois, certamente, o mundo voltará a tremer.


Autor:   Cel Av RR Manuel Cambeses Júnior

·         Coronel-Aviador da Reserva da Força Aérea

·       Conferencista Especial e membro-correspondente do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra.


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