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Postada em 04-09-2007. Acessado 564 vezes.
Título da Postagem:Perigoso precedente
Titular:GTMelo
Nome de usuário:GrupoGuararapes
Última alteração em 04-09-2007 @ 02:27 pm
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Luiz Gonzaga Lessa

 

O que tanto se temia acontecer a indisciplina e a quebra da hierarquia pelos controladores militares da Aeronáutica que, amotinados, se rebelaram contra os seus comandos. Após 44 anos, sargentos da Força Aérea encenam, sob nova roupagem, a rebelião que em 1963 tomou conta de Brasília e que, junto a outros fatos que aqui não cabe avaliar, levaram à ruptura da normalidade político-institucional do País e à Revolução de 1964.

 

Esses sargentos controladores violaram não apenas o Estatuto dos Militares, mas, principalmente, o Código Penal Militar, nele incidindo em vários dos seus artigos e, inexplicavelmente, por pressões do próprio Presidente da República, deixaram de ser enquadrados em crime militar, o que abriu um perigoso precedente de quebra de hierarquia e da disciplina, com conseqüências imprevisíveis não apenas para a Força Aérea mas, qual doença altamente contagiosa, ameaça se espalhar e contaminar a Marinha e o Exército.

 

É sempre bom lembrar que os revoltosos adentraram a caserna por vontade própria, por sua livre iniciativa, sabedoria dos rigores dos regulamentos militares e da parcela de sacrifícios e abnegação a que seriam submetidos. Nada, pois, pode explicar o seu desatino.

 

O governo ficou de joelhos, dobrou-se vergonhosamente, dando uma demonstração de fraqueza, hesitação e tibieza à chantagem que esses criminosos lhe impuseram. Toda a nação e não apenas os sofredores passageiros, entre eles muitas crianças e idosos, ficaram reféns dessa malta de inconseqüentes, que ignorando os mais rudimentares princípios de convivência e respeito humanos impuseram os seus caprichos e desejos pessoais, indiferentes às dores, fome, sofrimentos e desconfortos de milhares de pessoas que, por horas a fio, lotaram os aeroportos.

 

Despojaram-se dos seus uniformes e dos mais rudimentares princípios de ética e honra que dignificam a profissão militar para fazer prevalecer o egoísmo e o egocentrismo na defesa dos seus interesses, não levando em conta que exercem atividades essenciais que devem sujeitar-se, fundamentalmente, ao interesse público.

 

Esses sargentos amotinados que querem fazer crer que são uns perseguidos, ultra-atarefados e estressados fazem parte de um grupo privilegiado entre os seus pares, com jornadas de trabalho e folgas que os demais não desfrutam, tanto que, na sua maioria, cursam universidades e exercem segundos empregos ou atividades.

 

A contragosto, há que reconhecer a culpa da Força Aérea. Entre os muitos erros cometidos na gestão dessa grave crise, está patente que falhou em não inocular na alma desses amotinados o verdadeiro espírito militar, caracterizado pelo desprendimento, sacrifício, abnegação e devotamento à causa pública e aos interesses maiores do País e da gente brasileira.

 

A Nação e o Governo não podem ficar reféns das atitudes de servidores públicos capituladas como crime nos regulamentos militares. Terá que agir a reagir com energia e oportunidade buscando superar a grave crise desencadeada.

 

Se a desmilitarização foi a decisão tomada que o seja na sua plenitude, obrigando os sargentos controladores a pedirem baixa do serviço militar e, como civis, serem incluídos no novo quadro a ser criado. Essa é a única alternativa para a verdadeira desmilitarização. Fingir que ela acontece é transferi-los para o Ministério da Defesa, onde sob direção civil, passaram a trabalhar em trajes civis, como se o traje definisse a sua condição de não militar. Se assim acontecer, permanecerão militares e, portanto, sujeitos a todos os regulamentos e instruções da Força Aérea.

 

Nos planos do Governo e do Ministério da Defesa deverão prioritariamente ser adotadas medidas que ampliem o quadro dos controladores empenhados na defesa aérea habilitando-os, pela prática freqüente de exercícios, às tarefas de controle do tráfego civil. De igual forma, aos controladores da Marinha e do Exército deverá ser propiciada instrução e treinamentos adequados para reforçar as atividades da Força Aérea em situações de emergência.

 

O Ministério da Defesa deverá, também, firmar acordos de mútua cooperação com terceiros países, tudo com o objetivo de quebrar a espinha dorsal e autoritária dos amotinados de hoje, passando a dispor de uma reserva qualificada de profissionais capaz de se opor a esses predadores da ordem pública que, ao contrário do que pensa o governo, não terão suas demandas e ambições satisfeitas com as medidas em curso e voltarão sempre a ameaçar a Nação quando os seus interesses forem contrariados.

 

Pouco adianta o Presidente da República referir-se ao Comandante da Força Aérea, brigadeiro Saito, "como um homem de qualidade, um brigadeiro extraordinário, um militar exemplar", se o desautorizou, publicamente, frente à todos os seus comandados, desfazendo a decisão que corretamente tomara de punir os revoltosos. Doravante, será muito mais difícil para ele exercer a sua função de comandante.

 

Por mais que o Governo queira botar panos quentes a crise de autoridade se estabeleceu. Está bem nítida. Perdeu muito o comandante Saito que terá dificuldade em restaurar a sua credibilidade na Força.

 

Mas, também, perdeu o presidente Lula. Sua imagem, ao ultrapassar a cadeia de comando, saiu bastante arranhada. Em todos os postos. Não apenas na Força Aérea, mas, também, na Marinha e no Exército. As desconfianças e preconceitos contra as Forças Armadas ganharam terreno e nova dimensão. Só não enxerga quem quer ser cego.

 

A crise está longe do fim. O sistema de controle de tráfego aéreo não é só o controlador que, na realidade, é a porta da linha. Por baixo, de forma quase invisível, estão sistemas complexos de comunicações e de manutenção de radares, estações meteorológicas e equipamentos diversos, operados por pessoal altamente qualificado e com larga experiência e que parece não estar sendo contemplado com as benesses demagógicas em curso, estimuladoras da indisciplina e da quebra da hierarquia. Pressionado, com prazo certo para alterar estrutura tão complexa, o Governo capitulou. Muito iremos nos arrepender dessa solução.

 

Resta a esperança de que os amotinados não fiquem impunes e não se coloquem acima da lei. O Ministério Público Militar poderá reduzir o maléfico causado à estrutura das Forças Armadas se apurar e condenar os revoltosos.

 

A decisão do presidente Lula abriu um perigoso precedente para as Forças Armadas. Futuros atos de indisciplina, que sempre acontecem quando com ela se solidariza e se transige, deverão ser creditados ao comandante supremo, que avaliou superficialmente as danosas conseqüências que o seu ato poderá trazer para a tranqüilidade pública, comprometendo a disciplina e a hierarquia, pilares básicos que regem e sustentam as Forças Armadas. Só a ele e a fraqueza do seu governo, que se deixou levar por um bando de amotinados, caberá tal responsabilidade.

 

O Comandante da Força Aérea também perdeu a oportunidade de enriquecer a sua destacada folha de serviço com o seu pedido, irrevogável, de demissão, não pactuando com a indisciplina da Força que tem a honra de comandar.

 

Luiz Gonzaga Lessa, é general de Exército, foi presidente do Clube Militar




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