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Postada em 05-23-2006. Acessado 526 vezes.
Título da Postagem:Vitória de Pirro
Titular:Manuel Cambeses Júnior
Nome de usuário:Cambeses
Última alteração em 05-23-2006 @ 08:54 pm
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Autor: * Cel Av RR Manuel Cambeses Júnior

Causou estupefação, e tremenda repercussão em todos os quadrantes do mundo, o lamentável ato terrorista levado a efeito contra o hotel onde se instalou a sede da ONU em Bagdá, acarretando a morte do prestigioso diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello – que exercia a função de alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos -, e de 17 funcionários da Organização.

Existe consenso entre analistas e estrategistas internacionais, no sentido de diferenciar vitória militar de triunfo político. A primeira, é de natureza quantitativa e tecnológica e, no caso do conflito com o Iraque, foi indiscutivelmente alcançada com a magnífica vitória da coalizão anglo-estadunidense. No caso da política é totalmente diferente, pois, neste campo incidem fatores filosóficos, culturais e ideológicos, que se não forem administrados com prudência, podem originar efeitos não esperados e gerar sucessivos conflitos.

As autoridades norte-americanas têm advertido que serão necessários pelo menos seis meses para transferir o controle do Iraque a um governo formado por nacionais iraquianos. Isto, sem contar o tempo necessário para a instalação de uma administração que possa exercer suas atividades, sem a proteção estrangeira.

É importante enfatizar que a intervenção militar dos EUA não estará concluida com o desarmamento do Iraque. Fica evidenciado que este procedimento se estenderá a outros países da região, na qual os norte-americanos exigirão uma maior colaboração na luta contra grupos terroristas, bem como radicais modificações no curso do conflito entre israelenses e palestinos. Em suma, a região será profundamente transformada em poucos anos. Pode-se vaticinar que, a partir do território iraquiano ocupado, os norte-americanos protagonizarão o papel de ator principal no Oriente Médio, através da ativa participação de suas expressões política e militar.

Porém, uma empreitada desta magnitude será longa e custosa para a superpotência. Em termos militares, conseguir o controle absoluto de um país das proporções do Iraque em que, certamente, aparecerão os bolsões de resistência, será uma tarefa complexa. A possibilidade de que a cifra de civis mortos aumente, incrementará a onda de oposição e a falta de apoio da opinião pública mundial. Em termos diplomáticos, o assunto não é menos complicado. As relações entre os EUA e a Europa encontram-se gravemente afetadas, e os estadunidenses parecem não dispor da intenção de abrir à ONU o exercício de qualquer papel político na reconstrução do Iraque. Justamente, esse parece ser o tema discordante entre Bush e Blair, após a reunião de Belfast. Caso prevaleça a posição norte-americana, a ONU lamentavelmente terminará como uma ONG encarregada de ações humanitárias, porém perderá o importante papel de ator político que, desde sua fundação, tem sido chamada a cumprir.

Como corolário desse preocupante cenário, certamente haverá uma profunda reorganização do sistema internacional causada pela guerra global ao terrorismo declarada pelos EUA. Isto afetará a todos os povos em todos os rincões do planeta, pois não se trata de um fato exclusivo a contemplar o Oriente Médio.

Este momento da História, em que o mapa geopolítico do Oriente Médio está sendo redesenhado, exige que a superpotência tenha a maturidade suficiente para administrar, parcimoniosamente, os efeitos de uma vitória militar e, também, do grande vazio político provocado pela derrocada do ditador Saddam Hussein.

Oxalá, esta guerra que, de forma retumbante, dividiu a opinião pública mundial e tantos dissabores trouxe ao relacionamento internacional, além de imensos prejuízos materiais ao Iraque e perdas de vidas humanas entre iraquianos e soldados da coalizão, não se transforme em uma Vitória de Pirro.


Autor:   Cel Av RR Manuel Cambeses Júnior

·         Coronel-Aviador da Reserva da Força Aérea

·       Conferencista Especial e membro-correspondente do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra.


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