As opiniões expressas neste artigo e seus comentários não representam a opinião do Portal Militar, das Forças Armadas e Auxiliares, ou de qualquer
outro órgão governamental, mas tão somente a opinião do usuário. Os comentários são moderados pelo usuário.
 
Denuncie | Colaboradores: Todos | Mais novos ] - [ Textos: Novas | Últimas ]

O autor decide se visitantes podem comentar.
 
Postada em 05-23-2006. Acessado 527 vezes.
Título da Postagem:Uma guerra imprevisível
Titular:Manuel Cambeses Júnior
Nome de usuário:Cambeses
Última alteração em 05-23-2006 @ 08:58 pm
[ Avise alguém sobre este texto ]
Curriculum 
Vitae

 

 

 

Autor: * Cel Av RR Manuel Cambeses Júnior

Segundo o governo norte-americano, esta última edição da Guerra do Golfo teve como objetivo principal pôr fim ao terrorismo islâmico, em razão dos atentados ocorridos, em 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos.

A Administração de George W. Bush fez o possível para estabelecer uma relação entre o regime de Saddam Hussein e a organização islâmica Al-Qaeda, porque, desta maneira, acrescentaria uma justificativa a mais para atacar militarmente o Iraque, pela suposta posse de armas de destruição em massa. Agora, abre-se o debate se os recentes atos terroristas ocorridos em Riad (Arábia Saudita)  e Casablanca (Marrocos) são o início de uma resposta do terrorismo islâmico à Guerra do Golfo ou, o mais provável, dois atos a mais na longa série de atentados islâmicos ocorridos na Arábia Saudita e em diversas partes do mundo.

Os aliados europeus da OTAN que estiveram contra a intervenção norte-americana no Iraque, rechaçaram a hipótese de que existisse um nexo entre a Guerra do Golfo e a luta contra o terrorismo, rompendo assim a unidade da aliança Atlântica que o terrível atentado às Torres Gêmeas e ao Pentágono tinham colocado em marcha. Também o presidente russo, Vladimir Putin, declarou a sua solidariedade aos EUA ante a terrivel e mortífera agressão e aproveitou a oportunidade para justificar a guerra na Chechenia, vindo a dizer que se tratava de combate contra um mesmo inimigo. Desta forma, colocava em um mesmo balaio duas questões de naturezas distintas.

A guerra no Iraque rompeu esta convergência de interesses. Surgiu o debate que dividiu, inclusive, os membros europeus da aliança Atlântica entre si e, também, a respeito dos EUA. Washington adjudicava a si o direito de uma iniciativa militar que nada tinha a ver com a ameaça do terrorismo islâmico.

Empreender uma luta contra o terrorismo é uma empreitada difícil e difusa. Especialmente, porque nada ocorre às claras, ainda mais quando se produz  a espetacularidade dramática dos atentados com suas numerosas vítimas. Combate-se contra a irracionalidade e contra uma ideologia extremamente impenetrável. No caso da al-Qaeda, o fanatismo religioso não admite formas de diálogo nem a busca de entendimentos.

Desta forma, não é fácil ater-se escrupulosamente no que diz respeito aos princípos da legalidade, baseados nos direitos humanos. A guerra contra o terrorismo pode facilmente converter-se em uma guerra suja. Um exemplo evidente desta afirmativa, está nas centenas de prisioneiros talibãs encarcerados em Guantánamo, e as medidas adotadas nos EUA para a detenção e ajuizamento de indivíduos extranacionais, sem as garantias jurídicas elementares.

No ruidoso e atuante movimento de massas contra a Guerra do Golfo, ocorrido na Europa, evidenciou-se o desacordo com as ações bélicas das forças da coalizão anglo-americana no Iraque, sem o devido respaldo do Conselho de Segurança da ONU, e, também, pela intransigência do governo estadunidense, em rechaçar a aplicabilidade das leis internacionais aos cidadãos norte-americanos, pelo Tribunal Penal Internacional.

Os protestos de rua no cenário europeu  inundaram de um ambiente de anti-americanismo o debate diplomático que abriu-se no Conselho de Segurança da ONU sobre a atitude a adotar com relação ao Iraque. Houve momentos em que o debate tornou-se especialmente duro e ríspido, sobretudo entre os EUA e França.

No período pós-bélico as águas parecem ter retornado ao nível normal. Alemanha e França abrandaram consideravelmente suas posições e os EUA dão indícios de que não desejam tampouco extremar as diferenças.

A magnitude dos atentados ocorridos em Riad e Casablanca, em 13 e 17 de maio, respectivamente, obriga a recordar tanto aos Estados Unidos quanto aos seus aliados europeus, que existe um inimigo comum e que faz tempo adquiriu novas forças e capacidades, reorganizaram suas hostes e se acham em condições de voltar a empreender atos criminosos em profundidade.

O presidente George Bush, acenando com a sua intransigente postura de manter, permanentemente, uma dura campanha contra o terror, referiu-se ao atentado em Riad afirmando que, definitivamente, trata-se da continuação da uma longa guerra que já havia sido  anunciada. Por sua parte, o vice-presidente estadunidense Dick Cheney advertiu, recentemente, na capital saudita, que esta ação “deveria reafirmar a vontade de outros governos em cooperar com os Estados Unidos”. Esta vontade, evidentemente, é necessária, porém, teria que comportar, além do aporte de recursos por parte dos europeus, uma correta, ampla e sincera  comunicação dos EUA com seus aliados transatlânticos.

Neste sentido, são de destacar dois fatos recentes: as declarações de Javier Solana, em que mostra-se preocupado com a possibilidade de que alguém deduza que uma Europa desunida interessa aos EUA e, de maneira especial, a declaração conjunta de várias personalidades norte-americanas que desempanharam, no passado, altas responsabilidades políticas e diplomáticas, tanto nas administrações democratas ou republicanas. Estas vozes declaram, por exemplo, que “num período determinante da história das relações entre os EUA e a Europa, precisamente quando surge a ameaça de longos e perigosos anos de uma guerra imprevisível contra o terrorismo, os laços de amizade entre os tradicionais aliados parecem cruciais e incertos”.

Ultimamente, ouve-se, em uníssono, uma voz vinda dos EUA, liberal e aberta, completamente distinta da que estamos habituados a ouvir da Casa Branca, explicitada por seus “falcões” republicanos. Personalidades categorizadas como Madeleine Albright, Zbigniev Brzezinski, Warren Christopher, James Schlesinger, Robert Dole ou Alexander Haig, têm feito sucessivos pronunciamentos, emitindo mensagens que constituem uma verdadeira chamada à sensatez. Coincidem em que a existência de uma Europa unida e livre é um objetivo primacial para os EUA, e recomendam que ambas as partes estejam conscientes de que “nem os EUA e nem a Europa são onipotentes e, conseqüentemente, terão a necessidade de ajudarem-se mutuamente para manter a própria segurança”.

Diante deste cenário concluimos que convém aos dois lados do Atlântico que meditem no conteúdo dessa mensagem contra a crispação e o desentendimento e que consigam, através do diálogo, traçar as linhas mestras para o combate ao terrorismo, de uma forma sincrônica, firme, inteligente e, acima de tudo, participativa.


Autor:   * Manuel Cambeses Júnior Coronel-Aviador R/R 

Conferencista Especial da Escola Superior de Guerra  para Assuntos Internacionais

cambeses01@globo.com 


As opiniões expressas ou insinuadas nesta revista pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, as da home page ou de quaisquer outros órgãos ou departamentos do governo brasileiro. 




Bookmark and Share
Outas colaborações de Cambeses
Veja Mais
Perfil de Cambeses
Perfil do Usuário
Junte-se a nós!
Junte-se a nós!