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Postada em 05-23-2006. Acessado 384 vezes.
Título da Postagem:A continuação da guerra do golfo
Titular:Manuel Cambeses Júnior
Nome de usuário:Cambeses
Última alteração em 05-23-2006 @ 09:00 pm
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Autor: * Cel Av RR Manuel Cambeses Júnior

Analisando a essência do poder dos Estados Unidos, uma visão superficial levaria qualquer analista a concluir que a brecha de poder existente, nos dias atuais,  entre os Estados Unidos e o resto do mundo, resulta pura e simplesmente avassaladora. Militarmente, é a única nação de alcance global em nível de armamento nuclear e forças convencionais, e seus gastos, nessa matéria, são maiores que os dos próximos oito grandes países do planeta somados. Economicamente, exibe o maior PIB mundial, ao mesmo tempo em que sua presença cultural faz-se sentir em todos os quadrantes da Terra.

Por detrás desta primeira aproximação, entretanto, a realidade é muito mais complexa. O poder nesta era da informação global, se assemelha a um jogo de xadrez tridimensional. Na parte superior do tabuleiro, encontra-se o poder militar. Ali, a superioridade estadunidense é indisputável e o poder unipolar. No tabuleiro médio aparece o poder econômico, que apresenta-se claramente multipolar pois os Estados Unidos competem com outros atores significativos no cenário mundial.

Finalmente, no tabuleiro inferior, encontramos uma complexa rede transnacional não governamental. Esta última, incluiria os mais diversos atores: desde banqueiros que mobilizam vultosas quantias - maiores do que a soma dos orçamentos destinados a diversos países -, até terroristas e traficantes de armamentos, passando pelos “hackers” que dedicam-se a difundir o caos nos computadores de todo o mundo.

Nesse nível, obviamente, não se pode falar de unipolaridade, multipolaridade ou hegemonia, pois o poder se encontra atomizado. Dentro de um jogo tridimensional é impossível centrar unicamente a atenção no tabuleiro superior, pois isto levaria a perder de vista os jogos que se desenvolvem nos outros dois patamares, bem como as conexões verticais e a capilaridade que se estabelecem nos três níveis.

Embasados nesta linha de raciocínio atingimos, então, o cerne da dinâmica gerada a partir dos atentados perpetrados, por terroristas do grupo Al-Qaeda, às cidades de Nova York e Washington, em 11 de setembro de 2001. Num primeiro momento, o governo norte-americano esteve convencido de que a resposta frente ao terrorismo islâmico deveria passar pela construção de um entretecido de alianças internacionais com o objetivo de vingar os atos insanos praticados em seu território. Isto açulou a ira dos “falcões” e, a partir daí, a superpotência passou a adotar a “Doutrina da Ação Preventiva”, com o intuito de obliterar possíveis atos terroristas, em seu território e em todos os rincões do planeta.

O magnífico e avassalador triunfo militar no Iraque, certamente reforçará o pensamento que tem norteado os governantes estadunidenses, ou seja, de que eles não necessitam de coalizões, bastando utilizar o seu portentoso poder militar para atingir os objetivos colimados. Ao final de contas, a sua pujante e imbativel superioridade bélica parecem tornar supérfluas as regras consensuadas e ditadas pela Organização das Nações Unidas e as normas de conduta que ela obviamente entranha para a resolução de conflitos, em nivel mundial. Em poucas palavras, diríamos que a atenção dos norte-americanos, neste  momento, estará concentrada no tabuleiro superior.

Entretanto, a permanente ameaça aos Estados Unidos, por parte de fundamentalistas islâmicos espraiados pelo mundo islâmico, com o objetivo de perpetrar uma retaliação à sua investida contra o Iraque, poderá ocorrer por diversas vias, tais como: uma bomba nuclear colocada, no coração de Washington ou Nova York ou de patogênicos químicos ou biológicos dispersados no metrô de uma grande cidade ou em algum reservatório de água urbano. Frente a esse tipo de ameaça, de pouco ou nada serve a condição unipolar da superpotência. A única maneira de enfrentar tais perigos é através da cooperação intergovernamental, das alianças e da diplomacia.

Controlar, efetivamente, a subtração e o movimento de material nuclear, biológico ou químico dos arsenais russos, mediante acordos e adequada cooperação; enfatizar e promover a cooperação entre os serviços de Inteligência do mundo e, efetivamente, propiciar a resolução dos problemas que alimentam o ódio dentro do mundo islâmico. São iniciativas como essas as únicas susceptíveis de dar uma resposta positiva a este imbróglio geopolítico, que está se formando no Oriente Médio, e que tantos prejuízos têm causado à humanidade. Entretanto, dificilmente se conseguirá êxito nessa empreitada, enquanto perdurar um ambiente marcado, primacialmente, pelo unilateralismo, pela prepotência e pela sensação de auto-suficiência da nação hegemônica.

A Guerra do Golfo está definitivamente encerrada ou apenas começando?  O tempo dirá!


Autor:   * Manuel Cambeses Júnior Coronel-Aviador R/R 

Conferencista Especial da Escola Superior de Guerra  para  Assuntos Internacionais

cambeses01@globo.com 


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