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Postada em 05-24-2006. Acessado 729 vezes.
Título da Postagem:O dilema nipônico
Titular:Manuel Cambeses Júnior
Nome de usuário:Cambeses
Última alteração em 05-24-2006 @ 02:27 pm
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Autor: * Cel Av RR Manuel Cambeses Júnior

Se algo caracterizou o Japão, ao longo de sua história, foi a incrível capacidade para alterar, radicalmente, seu projeto nacional toda vez que as circunstâncias assim o exigiram. No início do Século XVII, ante uma penetração ocidental que ameaçava alterar as bases de sua sociedade, o país decidiu cerrar-se a qualquer contato com o exterior. Assim, por mais de duzentos anos, o Japão manteve-se dentro de uma absoluta autarquia, dentro de uma estrutura feudal estratificada. Foi o denominado período Tokugawa.

Durante a segunda metade do Século XIX, as pressões por transformações dentro da estrutura social do país apresentavam-se demasiadamente poderosas. Os burocratas da baixa aristocracia e os mercadores, cada qual em função de suas próprias razões, uniram-se na idéia de modernizar aceleradamente o país. Esta era a única forma de evitar que o Japão passasse pelos mesmos problemas que a China enfrentava. Somente faltava o elemento detonador que permitisse materializar as pretendidas mudanças. A presença de uma esquadra norte-americana, sob o comando do Comodoro Perry, em 1858, exigindo a abertura dos portos japoneses ao comércio com o Ocidente, foi a chispa que desencadeou a revolução. Cinco anos mais tarde iniciava-se a era Meiji.

No transcorrer do período Meiji, o país adentrou na mais rápida e notável transformação de suas instituições e valores culturais que a História tenha presenciado. Sob o aforismo “Abandonar a Ásia e adentrar no Ocidente”, o Japão embrenhou-se com determinação na tarefa de construir, partindo do nada, uma economia moderna: bancos, fábricas,estaleiros, siderúrgicas, indústrias têxteis, ferrovias, telégrafos, estradas, escolas, etc. A obsessão pelo progresso, sob os parâmetros ocidentais, permitiu que, no início do Século XX, o Japão ingressasse no seleto clube das grandes potências mundiais. Isto, inevitavelmente, teria que conduzir a uma confrontação com o Ocidente pelo controle das esferas de influência no este asiático. Em 1939, iniciou-se a cruenta medição de forças.

Após a traumática derrota de 1945, o Japão reformulou novamente seu projeto nacional, de maneira dramática, mantendo sua orientação pró-Ocidente, porém assumindo um papel subsidiário frente aos Estados Unidos. Ali definiu-se o paradigma de emprego de uma economia de caráter civil. Ao ver-se isento da necessidade de assumir encargos militares, o Japão pôde acumular importantes excedentes que, ao final de algumas décadas, lhe permitiriam acessar, novamente, ao clube dos grandes países. Desta vez, entretanto, sua ação limitava-se ao seleto grupo das potências econômicas mundiais.

A partir da metade da década de 1990, o Japão ingressou em outra dessas grandes e decisivas etapas de reformulação de seu projeto nacional. A orientação desta nova transformação parecia ver-se simbolizada pelo aforismo: “Abandonar o Ocidente e voltar à Ásia”. O que se pretendia era o abandono de seu papel subsidiário frente aos Estados Unidos e de potência com vocação ocidental. A ênfase em sua condição asiática e a assunção de uma clara hegemonia econômica dentro da região buscavam frear a penetração dos Estados Unidos e da Europa, nos mercados emergentes do este asiático. Os benefícios que a Terra do Sol Nascente pôde extrair do Ocidente, durante várias décadas, já tinham sido obtidos de modo espetacular. Os Estados Unidos e a Europa não estavam, nesse momento, com capacidade de oferecer ao Japão aquilo de que ele mais necessitava: o prospecto de um crescimento econômico a longo prazo. A nova mina de ouro encontrava-se representada pelas economias da região, os denominados “tigres asiáticos”.

A queda livre das economias asiáticas, em 1997, e a impossibilidade de o Japão reverter a sua própria recessão econômica abortaram, ainda na fase inicial, o surgimento do projeto nacional ambicionado pelos nipônicos. Em março de 1999, o primeiro-ministro Obuchi convocou um grupo de reflexão, integrado pelos principais intelectuais e líderes políticos do país, com o objetivo de estruturar um conjunto de grandes metas nacionais para o Século XXI. Este grupo de trabalho apresentou, recentemente, suas conclusões: abandonar os parâmetros de conformidade social, de sujeição do indivíduo ao coletivo e ao sistema de tomada de decisões por consenso, promovendo, ativamente, o surgimento de um espírito individualista, questionador e aberto à diversidade. Em síntese, absorver a idiossincrasia estadunidense mesclada com a essência da nova mentalidade reinante.

Em qualquer outro lugar do mundo metas tão ambiciosas como estas poderiam ser interpretadas como uma simples expressão retórica. No Japão, pelo contrário, isso pode traduzir-se em fatos concretos. Ao implantar o seu próprio modelo econômico, como alternativa ao capitalismo norte-americano e de haver ambicionado a hegemonia econômica regional, a Terra do Sol Nascente claudica ante uma globalização de claros matizes estadunidenses.

Diante desta nova realidade, cabe-nos as seguintes indagações: poderá o Japão sair-se bem em seu objetivo de retomar o crescimento e trilhar o caminho do progresso? Saberá dar outro desses inesperados saltos para o sucesso que caracterizaram o seu brioso passado?

De uma coisa, porém, temos absoluta certeza: de maneira alguma é possível subestimar o Japão.




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