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Postada em 05-13-2008. Acessado 974 vezes.
Título da Postagem:O Gentio do Brasil
Titular:GTMelo
Nome de usuário:GrupoGuararapes
Última alteração em 05-13-2008 @ 10:55 am
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O Gaúcho - Nr55

ÓRGÃO DE DIVULGAÇÃO DAS ATIVIDADES DO INSTITUTO DE HISTÓRIA E TRADIÇÕES DO RIO GRANDE DO SUL

Origem e designação

Na época do descobrimento, o Brasil era habitado por numerosas nações ou tribos de silvícolas. Não é possível calcular com bastante aproximação quantos selvagens podia haver; foram estimados em vários milhões; os primeiros descobridores e exploradores, por toda à parte, encontraram tribos diversas e o gentio muito espalhado; não tardou a diminuir a população indígena em conseqüência das guerras, do cativeiro, das migrações e dos extermínios que se deram nos princípios dos tempos coloniais.

De onde vinham esses habitantes? Só conjecturas podemos fazer a este respeito. A revelação e a ciência ensinam que todos os homens descendem de um primeiro par único, Adão e Eva. Logo, os selvagens do Brasil derivam desse casal primitivo. Sabe-se também, com bastante certeza, que esse primeiro par humano viveu em um antigo continente, a África; logo, nossos índios emigraram outrora do antigo continente para a América; quando e como se deu essa mudança, não sabemos. Se as terras tiveram antigamente a mesma disposição que hoje, três caminhos parecem mais naturais para a vinda dos primemos homens à América: 1º) atravessar o estreito de Behring  e passar da Ásia ao Alaska, como ainda hoje fazem muitos naturais de lá, que vão da Sibéria ao Alaska e, reciprocamente, durante o inverno, sobre o mar gelado; 2º) Alguns moradores das ilhas Canárias, ou mais lugares no ocidente da Europa ou da África, como os antigos fenícios, podem ter abordado, em conseqüência de tempestades ou correntes marítimas, à costa oriental da América, onde ficaram depois por gosto ou falta de meios para voltar. 3º) Os Dinamarqueses ocuparam a Islândia, a Groelândia e chegaram até o paralelo de Nova York antes do ano 1.000 de nossa era. Não é impossível que tenham povoado as Américas.

Se assim fosse, três seriam as correntes primitivas de povos que teriam vindo às Américas e talvez também ao Brasil; é possível que esses povos se tenham cruzado ao encontrar-se; mas até hoje, os documentos conhecidos: línguas, túmulos, monumentos, inscrições, são insuficientes para elucidar a questão da origem dos indígenas na América e no Brasil.

Mas é certo que as numerosas tribos de índios no Brasil, na época do descobrimento, quase todas pertenciam a dois grupos: Tupi-Guaranis e Tapuias, ou Jês. Os Tupis-Guaranis ocupavam o norte, o litoral e as bacias do Paraná e do Paraguai. Os Tapuias habitavam o interior do Brasil. Parece também que os Tupi-guaranis eram invasores e tinham derrotado e repelido para o interior a outra raça que, por desprezo, chamavam de Tapuia, ou bárbara.

O vocábulo tupi significa o pai supremo, o grande pai, o primitivo, o progenitor.

Os Tupis dividiam-se em muitas tribos diferenciadas por apelidos de honra e acatamento, de desprezo e ódio, ou significando alguma qualidade ou modo de viver. Tais eram:

- os Potiguares ou Petiguares (isto é, os papa-camarões), estabelecidos na costa do Rio Grande do Norte;

 - os Caetés  ou  Cahetés (isto é, os matutos, ou gente do mato), encontrados mais ao sul, até o rio São Francisco;

- os Tupinambás (ou Tupis varões, descendentes dos Tupis),  na Bahia;

- os Tupiniquins (ou os aparentados com os Tupis; os amigos, os conhecidos dos Tupis), em Porto Seguro;

- os Goitacazes (isto é, os corredores, os velozes, os andarilhos), em campos;

- os Tamoios (isto é, os anciãos, os veneráveis), desde Cabo Frio até Angra dos Reis;

- os Guaianazes (os irmãos, os que confraternizam, os da mesma raça), em São Vicente;

- os Guaranis (isto é, os guerreiros, os que lutam), desde Itanhaém até Cananéia;

- os Carijós (ou os descendentes de brancos, os meio-brancos) de Cananéia até a Lagoa dos Patos.

Aparecem mais tarde outras tribos, como: - os Cariris (ou os tristonhos), nas brenhas do norte;

- os Paiaguás, em Mato Grosso;

- os Caiapós (os que fazem queimadas, os salteadores do mato), em Goiás;

- os Muras, Maués, mundurucús, no Amazonas;

- os Guaicurus, no Alto Paraguai; após a chegada dos Europeus criaram cavalos e tornaram-se hábeis cavaleiros; guaicuru significa sarnento, perebento, e era alcunha dada pelos contrários da tribo; o verdadeiro nome da tribo era Ioage, entre os Índios, e Cavaleiros, entre os Portugueses.

Eis outros nomes ainda empregados para designar certas pessoas ou povoações:

- Bugre significa qualquer índio escravizado, carregador de água;

- Tremembé, ou vagabundo, aplica-se a uma tribo nômade, errante;

- Tabajara, ou morador de aldeia, caseiro, representa alguém que aceitou o aldeamento;

-Ubijara, o caceteiro, o que maneja paus e cacetes;

- Tupitinga, o branco, o homem brando, o tupi branco;

- Purú, o antropófago;

- Aimoré (a lagartixa), a ralé, a escória;

- Tapuia, o bárbaro, o moleque, o mal-criado;

- Tapuitinga, o bárbaro branco; julgando-se civilizadíssimos, os Tupis usavam esta palavra para designar os Europeus;

- Caboco ou caboclo, a vergôntea, o ramo, o que vem do mato;

- Emboaba, acomodado, acostumado, habituado, angariado, ligado por amizade; o de fora, o de longe, o forasteiro; assim os índios designavam o europeu que primeiro se fixava entre eles, se aliava com eles, como João Ramalho, Diogo Alvares.

 

Descrição física e moral

No Brasil, o indígena era de estatura média, com o corpo reforçado, bem proporcionado; de aspecto tristonho, olhos pequenos, freqüentemente negros, encovados e erguidos no angulo exterior, como na raça mongólica; tinha sobrolhos estreitos e muito arqueados, orelhas grandes, cabelo liso, seguro e muito preto; dentes alvos e pés pequenos. A tez era mais ou menos baça, variando entre a cor de canela e a cor de cobre.

Costume geral era tingir o corpo com tinta negra de jenipapo e as faces e os pés com tinta vermelha de urucu. Alguns sarjavam o corpo com dente de cotia e tornavam essas sarjaduras duradouras por meio de uma tinta qualquer.

Várias tribos furavam os beiços, principalmente o inferior, onde introduziam um botoque ou metára; por isso foram chamados de Botocudos pelos Europeus. Outros furavam o septo nasal e as orelhas, onde encaixavam semelhantes botoques e brincos de osso.

Certos índios iam até perfurar as faces e nos buracos metiam dentes de animais.

Traziam o cabelo cortado por cima das orelhas; alguns o deixavam crescer mesmo extraordinariamente, como a tribo dos Encabelados; outros usavam do cercilho, como os Coroados, em Minas. Conheciam o meio de lustrá-lo, untando-o com óleos e banhas.

Andavam em completa nudez; nos lugares frios, alguns protegiam o corpo com peles de animais. Ornavam a cabeça com cocar de penas amarelas ou vermelhas, chamada acanguape e kanitar. No pescoço, os homens traziam um colar de ossinhos ou dentes de inimigos, o ayucaré; as mulheres levavam colares e pulseiras de contas multicolores; na cintura, vestiam uma faixa de penas, denominada enduape para os homens, e araçoyá para as mulheres; sobre os ombros, metiam um manto de penas, o açoyaba; as donzelas traziam ligas vermelhas, com o nome de tapacorá.

Em todas as tribos era geral banharem-se uma e mais vezes cada dia.

Vivendo vida de combates, os gentios era vingativos e ferozes; quase sempre levavam a vingança até a antropofagia e ufanavam-se de devorar os inimigos e prisioneiros.

Apurando os sentidos pelos cuidados do ataque e da defesa, reconheciam pelo faro a aproximação do inimigo; nunca se perdiam no mais intricado das florestas; às vezes, para mais segurança, quebravam ramos de árvores na ida, e por eles se guiavam na volta.

Em caso de retirada, caminhavam um atrás do outro e, em alguns casos, de costas, e cada qual assentava os pés nas pisadas do que ia na frente, a fim de iludir o inimigo e esconder-lhe o número e a direção dos que assim andavam.

No primeiro momento, o gentio desconfiava de um desconhecido, mas logo depois tornava-se fácil e franco; se uma vez era iludido, não respeitava mais nem laços, nem ajustes, nem consideração alguma.

Hospitaleiro, como os Árabes, até para com o próprio inimigo que o procurava, agreste, simples, inculto e bárbaro, zeloso mais que tudo na vingança, astucioso e sagaz, indolente na paz, impávido e herói em face da morte, nosso gentio tinha todos os defeitos e vícios do selvagem, mas era capaz também de sentimentos nobres e generosos; amou os Jesuítas até a mais completa abnegação, mas foi impiedoso para com os colonos que o perseguiram.

 

Língua

Apesar de terem diversos dialetos, as tribos tupis possuíam uma língua geral, pela qual todas se entendiam, enquanto não se dava o mesmo com os Tapuias: essa língua geral era o tupi-guarani, que também se usava no Peru, no Paraguai e talvez até na costa oriental da América do Norte. O tupi e o guarani são dialetos parecidos que pouco diferem um do outro.

O tupi-guarani é uma língua aglutinante, isto é, uma língua cujas raízes primitivas, de uma só silaba, perderam quase todas o sentido quando isoladas, mas adquirem-no e exprimem alguma idéia logo que entram em composição com outra raiz.

Não possui as articulações fê, vê, lê, rê, zê, fortes, mas tem 42 sons vogais, que foram designados pelas nossas 6 vogais com 7 acentos cada uma.

Tem apenas 4 números: iépé = 1; mokin = 2; muçapira = 3; erundi = 4. Para exprimir 5, os índio diziam apô = a mão; para 10, cepo = minhas mãos; para 20, cepo, cepi = minhas mãos, meus pés. Muitos contavam apenas até 5, outros até 10, poucos até 20. Acima de 20, todos diziam tuba = muito, muitos, equivalente ao nosso inumerável, infinito, incalculável.

No convívio com os colonos, aprenderam a numeração decimal e disseram: peyé = 10; mokoin-peyé = 20; muçapira-peyé = 30; muçapira-peyé-iepé = 31; etc.

Os ordinais formam-se com o sufixo uara: erundiuára = 4º.

O plural dos nomes forma-se pelo sufixo etá; exemplos: oca =  casa, ocaetá = casas; paca =  paca, paquetá = pacas.

Exceto os possessivos, os adjetivos vêm sempre depois do substantivo, assim como as preposições.

O comparativo obtém-se pelo sufixo pire = mais; o superlativo, pelo sufixo ité = muito; o aumentativo, pelo sufixo assú, uassú ou uçu = grande; o diminutivo, pelo sufixo mirim; exemplos: catú = bem; catupiri = melhor; caturité = ótimo. Turuçú = grande; turuçupire = maior; turuçurité = máximo. Pára = rio, mar; paraguassú = rio grande, mar grande; paramirim = rio pequeno, mar pequeno. Mogy = rio das cobras; mogyguassú = grande rio das cobras; mogymirim = pequeno rio das cobras.

O sufixo era exprime o passado, a velhice, a ruína; ex.: taba = aldeia, tapera = ruínas de uma aldeia; acongá =  cabeça, aconguera = caveira.

Os verbos conjugam-se antepondo a parte variável, ao contrário do português; exemplo: a-póra  = salto; re-póra = saltas; o-póra = salta; ja-póra = saltamos; pê-póra = saltais; ou-póra = saltam.

Há muitos modos, mas um tempo só, o presente; os outros tempos formam-se pelo acréscimo de partículas ou advérbios de tempo, como: oyei = agora, hoje, cuéhé = ontem, cury = depois, ana = antes.

Não existe o verbo substantivo ser; para dizer: eu sou bom, o tupi diz apenas: eu bom = che catú. Existe o auxiliar ikó equivalente ao verbo estar: che a-ikó catú = estou bom.

Na formação das palavras compostas, o tupi-guarani segue a ordem do inglês, contrária a do português; exemplos de Tupan  = Deus e oca = casa, vem Tupan-oca  = casa de Deus; de carapaná = mosquitos e tuba = abundância, vem carapanátuba = abundância de mosquitos; ubátuba = abundância de ubás ou canoas; indaiátuba = abundância de indaiás ou coqueiros; de itá = pedra e maracá = chocalho, vem itamaracá = chocalho de pedra; de pira = peixe, vem itapira = peixe de pedra.

Os melhores e quase únicos trabalhos sobre as linguagens selvagens foram feitos pelos padres jesuítas; quem principiou foi o padre Anchieta.

 

Tabas

      As aldeias dos índios chamavam-se tabas; constavam de meia-dúzia de ranchos, ocas cobertas de capim, palha ou folhas de palmeira, dispostas circularmente ao redor de uma praça, ocára; cada rancho tinha uns 50 metros de comprimento, 5 de largura e 4 de altura, sem divisão interna; comunicava-se com a praça por meio de 3 aberturas ou portais, pequenos e sem portas; no entorno dos ranchos, para fortificar a taba, havia geralmente uma cerca de pau-a-pique, cahiçara, em que figuravam espetadas as caveiras dos inimigos mortos na guerra ou devorados posteriormente. Nessa cerca havia sempre uma única entrada e apenas algumas tribos do Paraguai cavaram fossos ao redor dos paus-a-pique, para maior resguardo.

O rancho ou casarão era habitado por várias famílias, parentes ou não parentes; certos ranchos abrigaram 30 e mesmo 40 casais.

Se usavam de redes, os moradores as armavam entre os esteios; no caso contrário, dormiam sobre estrados ou giráus, em que estendiam folhas ou peles de animais.

No meio do rancho, havia fogo constantemente aceso, sem chaminé; apagando-se, acendiam-no de novo; para isso colocavam no chão um pau firme onde havia uma pequena cavidade, com algodão, folhas secas, casca em pó para servir de isca; nessa cavidade, introduziam uma vara dura e roliça, que faziam girar entre as palmas das mãos, com força e rapidez até o atrito produzir lume.

Em geral, as tabas duravam apenas 4 anos, porque então as madeiras apodreciam e a caça e a pesca escasseavam ou mesmo desapareciam. A mudança devia resolver-se no conselho da tribo ou nhemongaba. O aldeamento abandonado chamava-se tapera  ou tabaoera = aldeia que foi, e dela fica alguma coisa.

Algumas hordas tinham uma única palhoça; outras viviam nos bosques, dormindo em redes suspensas aos ramos das árvores; outras, em cavernas e grutas.

Os principais utensílios domésticos eram o patiguá ou panicú, canastra de palha que servia de arca; a rede, a cuia, a cabaça para farinha, a iguaçaba, pote ou talha para guardar bebidas; a mussurana ou corda de algodão, ou embira.

Para as suas festas e guerras, e para as danças a que chamavam poracés, os índios usavam os outros seguintes instrumentos: o maracá, cabaça ou chocalho cheio de pedras e ossos; quando agitado pelo pajé, exercia poderosa influência na imaginação dos selvagens; - o uapy, espécie de tambor; - o memby, gaita de osso, e o toré, gaita de taquara; - a inúbia ou erubia, terrível buzina, que soava nos combates.

 

Religião

A religião dos índios não passava de grosseiro fetichismo; não havia templos, nem ritos definidos.

Reconheciam a existência de um ser supremo, Tupã, isto é, o altíssimo. A outras divindades secundária, ou gênios, atribuíam uma influência, ora boa, ora má. Eram gênios, favoráveis: o anhangá, o perseguidor dos velhacos e dos embusteiros, e os macaxéras, que vigiavam os caminhos.

Temidos eram os caapóras, que habitavam em tocas de árvores e apareciam montados numa anta: quem se encontrasse com eles, tornava-se caipora ou mal sucedido em tudo. Os curupiras armavam ciladas e davam pesadelos; os maraghiganas anunciavam a morte.

      Muitas superstições relativas ao sacy e ao jarupary atirando malefícios, à caveira no milharal, ao urutau, à coruja, etc. Ainda perduram entre os caipiras estas superstições.

      Falavam todos os indígenas sul-americanos de um homem extraordinário, o Sumé, que tinha ensinado várias coisas úteis. O cultivo da mandioca, do algodão, etc.

      A respeito do Sumé, vários autores pensam que foi o próprio São Thomé, enviado providencialmente para evangelização dos Sul-Americanos: "ensinai todas as nações", mandou o divino Mestre.

      Uma crônica muito antiga (1508) reza o seguinte: "Eles (os índios) tem também memória de São Thomé, e quiseram mostrar aos portugueses as pegadas, impressas na pedra, assim como uma cruz posta por ele dentro do país."

      Os índios possuíam algumas idéias vagas acerca da origem das coisas, como também a fé na vida futura. Guardavam a tradição do dilúvio universal, do qual fora salvo um único casal humano refugiando-se, dizem, na coma de uma palmeira ou de um pinheiro, segundo os Guaranis.

      Os pajés, também chamados magés ou piagas, eram a um tempo sacerdotes, feiticeiros ou adivinhadores, e curandeiros. Davam-se por medianeiros entre a divindade e os mortais; passavam por donos do raio e das estações, por conhecedores do futuro, da origem das moléstias, etc.

      Tinham os aspirantes de passar por dura iniciação antes de receber a dignidade de pajé.

      Esses embusteiros viviam isolados em taperas ou em grutas, onde levavam vida na aparência mortificada e sempre misteriosa. Com seus oráculos, pronunciados ao som do maracá, chocalho feito de cabaça contendo seixos, exerciam grande influência no ânimo do gentio supersticioso.

 

Governo

      Assim como os índios não tinham uma religião igual para todas as tribos, assim também as várias hordas não possuíam a mesma forma de governo. Em geral, o chefe ou morubixaba, mandava com autoridade absoluta durante a guerra, e gozava igualmente de grande influência durante a paz; para as deliberações magnas, como declarar guerra, mudar o lugar da taba, consultava a assembléia da tribo, nhemongaba, reunida na ocara ou praça.

      A dignidade de chefe ou cacique era eletiva, escolhendo-se de preferência o guerreiro mais valente e mais idôneo para dirigir os combates; em igualdade de valentia e capacidade militar, vencia na eleição o filho ou o sobrinho do chefe que tivesse falecido.

      Não havia legislação positiva para silvícolas tão atrasados na civilização; entre os da mesma tribo só era castigado o crime de homicídio: o assassino era entregue aos parentes do morto, os quais empregavam a pena do talião. Nas outras circunstâncias, dominavam o direito natural e o do mais forte, com todas as conseqüências.

      Os índios praticavam poucas relações sociais: em sinal de amizade, ofereciam fumo e corriam a mão pela cabeça de quem saudavam.

      Como não usavam moeda de nenhuma sorte, suas transações comerciais se efetuavam em gêneros permutados: fumo, flechas. louça, etc.

 

Família e usos

      O gentio do Brasil tinha laços de família de modo muito especial: a descendência se regulava pela condição do pai e em nada se contava a mãe; a mãe só era considerada como uma ama encarregada de alimentar o filho e dever algum contraia com ela o filho que amamentava. A autoridade do pai era reconhecida pelos filhos e pelos pretendentes às filhas; o pai de numerosos filhos gozava de grande influência na horda.

      Os índios observavam três graus de consangüinidade para os casamentos: mãe, irmã e filha; o tio podia casar com a sobrinha. Não havia cerimônia para o casamento; o pretendente pedia a mulher desejada ao pai e este ou a concedia logo, ou exigia certo pagamento ou fazia trabalhar, em suas roças, o futuro genro por tempo indeterminado. Um homem podia tomar uma menina para futura mulher: então, durante os anos infantis, criava-a em casa, como se fora sua filha.

      A mulher que sobrevivia ao marido, casava como o irmão deste; sua condição era mais de escrava do que de companheira; mesmo que tivesse filhos, não era mais honrada, porque o filho era estranho à condição da mãe e apenas herdava a condição do pai.

      O filho era amamentado durante 2, 3, 4 ou mais anos; mais tarde seguia o pai que o adestrava no manejo do arco e do tacape e outros exercícios da vida silvícola. A filha aprendia com a mãe os misteres próprios do seu sexo. Durante as longas viagens, um e outro eram carregados aos ombros da mãe.

      Ao menino ou a menina, o pai dava o nome de uma árvore, ave, fera, e por conta do filho ficava adquirir outro nome mais tarde, o nome de guerra, merecido e conquistado nos combates.

      Nos trabalhos da vida, a partilha da mulher era a mais onerosa: o homem apenas roçava os matos para as plantações e passava o resto do tempo na caça e na pesca; à mulher competia fazer as plantações e colheitas, principalmente de mandioca, milho, feijão, cará e aipim; preparar a farinha de mandioca assim como as bebidas fermentadas, por meio de certos frutos e raízes; moquear a caça e o peixe e reduzi-los a pó para melhor conservação; fabricar os utensílios domésticos, como canastras de junco, patiguá, talhas, iguaçaba, vasos de barro, cuias que devia ornar e bordar com esmero; trançar balaios e cestinhos de palha, tecer redes e cordas, de algodão ou de embiras variadas; nas longas caminhadas pelo mato, carregar as provisões e outros objetos a transportar.

      Para a caça, o índios usavam flechas, esgaravatana, fojo, mundéus e bolas.

      A esgaravatana ainda se emprega hoje no Alto Amazonas; é um tubo oco de mais de dois metros de comprimento; o sopro serve para disparar setas finas ou puas, cujas cabeças levam um pouco de algodão. Com esta arma caçam-se animais miúdos: lagartos, pássaros, ratos, etc.

      O fojo era uma cova estreita e funda, com puas e estrepes no chão e coberta com rama e caniçada; servia para apanhar animais bravos que, passando por cima, caiam dentro onde era fácil matá-los ou prendê-los.

      Na pesca, os índios empregavam flechas, redes, anzóis e plantas capazes de embriagar o peixe na água.

      Em certos meses do ano, forneciam-se de mariscos em grande escala, separando-os das cascas, que amontoavam no próprio lugar da pesca. É a origem das célebres casqueiras e ostreiras, chamadas sambaquis ou sernambitibas, que ainda hoje fornecem tão grande copia de cal. Em certos sambaquis do litoral, cobertos de árvores seculares, encontraram-se ossadas humanas: logo, falecendo alguém durante a pescaria, era enterrado na casqueira.

      De modo especial, competia às velhas preparar as farinhas, bebidas fermentadas e venenos. As bebidas fermentadas eram: aipim,  aypy-y = licor de aipim; de milho, auaiy-y = licor de milho; de cajú, = caju-y = licor de cajú; de genipapo,  janipa-y = licor de genipapo; de banana ou pacova, pacova-y = licor de pacova ou banana. O nome geral dessas bebidas era caju-y, posteriormente alterado em cauim pelos Europeus.

      A fim de facilitar a fermentação, mastigavam primeiro essas frutas, como certos índios praticam hoje ainda.

      Comiam em silêncio, bebendo água só no fim; reservavam o cauim para as grandes festas, em que bebiam muito e comiam pouco.

      Nas doenças tratavam-se por meio de plantas e pela dieta; usavam de sangria feita por meio de dente de cotia ou outro meio. Nas mordeduras de cobra ou animal venenoso, sarjavam a ferida, extraiam o sangue e cauterizavam a fogo vivo. Nas feridas antigas, empregavam o calor brando do fogo e depois untavam o lugar doente com óleo de copahyba ou qualquer outro ingrediente indígena, como o sumo do talo da bananeira.

      Em algumas tribos, nos casos desesperados, abandonavam o doente ou o matavam mesmo para abreviar-lhe os sofrimentos. Em certas hordas tapuias, era costume que os extremamente velhos e os desenganados pedissem aos parentes e amigos que os matassem e comessem.

      Ao selvagem que morria, choravam os parentes e amigos; junto ao cadáver, recordavam-lhe as proezas; ao irmão ou parente mais próximo, competia abrir a cova e enterrá-lo.

      A cova, chamada tibi, era feita dentro do racho ou no cemitério, denominado tibicoara; além do finado, recebia também as suas armas e a sua rede, alimentos e bebidas; afinal, sobre ela acendia-se fogo durante alguns dias.

      Algumas tribos encerravam os seus mortos acocorados e mumificados em potes ou talhas de barro, iguaçabas, que eram depois enterradas.

      O costume seguido por quase todas as tribos de, junto aos mortos, colocarem armas, redes, comidas e bebidas, é prova que acreditavam em outra vida, onde esses objetos podiam ser necessários. Entre os Tupis, era mesmo crença que os guerreiros valentes iam, depois da morte, habitar as montanhas azuis, onde teriam os melhores banquetes, em companhia de sues avós.

 

Armas e guerra

      Como armas, os índios usavam pesada clava ou maça, de quatro faces, com ornatos, e mais delgada e arredondada no cabo; chamava-se tangapema, tacape, tamarana, cuidarú, conforme o feitio e as tribos; tinham mais um grande arco, uirapará, feito de uma espécie de pau duro, elástico e forte, que ainda hoje, em virtude de tal uso, leva o nome de pau de arco; flechas, huy, com pontas de ossos, de dentes afiados, às vezes hervadas em veneno mortífero; a lança encontrava-se apenas nos campos do sul; algumas tribos serviam-se de escudos de couro de anta ou da pele do peixe-boi, entretecidos de taquaras.

      Para a paz como para a guerra, construíam canoas, chamadas igaras, geralmente feitas de uma só tora de árvore; outras eram de cortiça e denominadas ubás; o leme tinha o nome de yacumá e o remo de apecuitá.

      Uma vez decidida em conselho da tribo, a guerra se empreendia sempre de surpresa, sem prévia declaração; os atacantes tratavam primeiro de incendiar os ranchos de palha da taba inimiga por meio de setas disparadas com algodão inflamado; depois, assaltavam tumultuariamente, sem ordem de combate, com gritaria infernal; saindo-se mal da peleja, retiravam-se precipitadamente. Tendo bom resultado, incendiavam a taba inimiga e os despojos que não podiam carregar, reservando sempre os prisioneiros para sua festival antropofagia.

      A matança dos prisioneiros tinha lugar de preferência na festa do cauim, bebida fermentada, feita de milho e de mandioca. Amarrado no pescoço e na cintura por cordas de algodão ou de embira, chamadas mussuranas, o prisioneiro era levado ao lugar do sacrifício, quase sempre a ocara, ou praça da taba; ai insultado pelos seus verdugos, retorquia-lhes com a mais estóica bravura, comemorando quantos inimigos tinha também devorado e ostentando que nada o intimidava.

      Assistia impávido e acompanhava mesmo as danças bacanais daquela solenidade, depois das quais era levado em procissão por toda a aldeia; conduzido novamente para a praça, soltavam-no e diziam-lhe que fugisse; na carreira, porém, era logo preso pelos mais ágeis da tribo, que de novo o amarravam com a fatal mussurana.

      Principiava então o prisioneiro o seu canto de morte, exaltando as suas proezas na guerra e ameaçando com análoga retribuição pelos de sua tribo; assistia ao acendimento da fogueira que tinha de o moquear e afrontava a vinda do executor que brandia a terrível tangapema ou ivarapema (maça ou clava), enfeitada de amarelo escuro e adornada de variegadas penas.

      Entretinha extenso diálogo com o executor que afinal descarregava a fatal pancada na cabeça da vítima e a estendia no chão.

      As velhas apossavam-se do cadáver, que limpavam, abriam, esquartejavam e retalhavam para o horrível banquete. Os aliados, convidados para a festa, e os vários membros da tribo partilhavam daquele manjar. Se as carnes não chegavam para todos os circunstantes, com elas e com os ossos preparavam caldos de maneira que ninguém deixasse de ter a sua ração. Se alguém da tribo estivesse ausente, guardavam-lhe o seu quinhão ou lho mandavam levar.

      Acontecia algumas vezes que depois de feitos os prisioneiros, não se podia imediatamente proceder a essa solenidade antropófaga; eram então guardados e muito bem tratados.

      As mulheres presas na guerra eram conservadas como escravas, mas não devoradas. Quando os portugueses começaram a traficar com a escravidão dos índios, essas prisioneiras ficaram sendo um ramo de lucro para os vencedores, que as vendiam por qualquer insignificância.

 

Monumentos pré-históricos no Brasil

      Os mais notáveis monumentos pré-históricos do Brasil são os ceramios do Pará, os sambaquis do litoral Sul e as grutas da Lagoa Santa, em Minas.

      1º) O mais importante ceramio do Pará é o da célebre colina artificial, lha do Pacoval, na ilha Marajó. O ceramio do Pacoval contém urnas funerárias, utensílios domésticos, tais como potes, urnas de farinha, bacias, ídolos representando figuras humanas. Quase todos esses objetos são ornamentados com gosto admirável, com figuras pintadas ou gravadas, sendo os desenhos pela maior parte decorativos, raras vezes representando objetos naturais. Figuras em relevo, reproduzindo vários animais, e até o homem, são comuns nos bordos e asas das vasilhas. Pela análise da disposição e perfeitabilidade das três seções ou camadas do ceramio do Pacoval, chegou-se à conclusão que representam outras tantas fases de uma civilização decrescente do povo que antigamente habitava a ilha de Marajó.

      No Pará conhecem-se meia-dúzia de outros ceramios, mas de importância inferior ao do Pacoval.

      2º) Os sambaquis são amontoamentos de conchas de ostras na beira do litoral, que se encontram particularmente no sul do Brasil; encerram ossadas humanas e vários objetos que pertenceram aos que fizeram esses amontoamentos.

      3º) O sábio dinamarquês Pedro Lund explorou as grutas de Maquiné e Lagoa Santa, em Minas, e encontrou, debaixo de uma crosta de estalagmites, copiosos restos de animais e de homens, que parecem muito antigos.

 

Porque os índios desconfiam dos brancos?

      A sorte mísera dos silvícolas, já quanto ao corpo, já relativamente à alma, piorou com a chegada dos colonos.

      "Poucos anos depois do descobrimento da América, propagou-se, com facilidade e rapidez espantosa, a opinião de que os naturais desta região não eram homens..."

      As conseqüências de semelhante erro foram horrorosos: era o meio de afugentar todos os escrúpulos dos aventureiros, que barbaramente escravizavam os degradados americanos.

      Qualquer pessoa podia tomá-los e servir-se deles da mesma maneira que de um cavalo ou de um boi, feri-los, maltratá-los, matá-los... sem responsabilidade alguma, restituição ou pecado...

      O bispo de Chiapas, diocese de México Meridional, Frei Bartholomeu de Las Casas, varão de grande autoridade, afirma que os conquistadores chegaram a sustentar os seus cães com carne do pobre índio, que para tal fim matavam e a faziam em postas como a qualquer bruto do mato.

      Foi tal a barbaridade com que os colonos trataram os infelizes indígenas, que dentro em poucos anos, a América Central ficou reduzida a um deserto; porque, de um milhão e meio de índios, não restaram sequer quinhentos mil...

      Horrorizado pelo procedimento de seus companheiros e compadecido das infelizes vítimas, Fr. Domingos de Betonços, provincial dos Dominicanos na América Central, tomou a resolução de enviar a Roma um seu companheiro, a fim de expor ao papa Paulo II o que se passava nessas regiões e pedir uma providência que valesse aos infelizes índios contra a sanha feroz dos seus desumanos conquistadores.

      O papa não se demorou em dar a providência pedida e expediu a bulla Veritas ipsa (1537) concluindo deste modo:

      "...Em vista do que, ele Santo Padre... determinava e declarava por autoridade apostólica, que os índios eram verdadeiros homens como os mais; e não só capazes da fé em Cristo, se não propensos a ela, segundo chegara ao seu conhecimento.

      E sendo assim, tinham todo o direito à sua liberdade, da qual não podiam, nem deviam ser privados, e tão pouco do domínio do seus bens, sendo-lhes lícito lográ-los, e folgar com eles como melhor lhes parecesse, dado mesmo que não estivessem ainda convertidos.

      Pelo que, os ditos índios e mais gentes só se haviam de atrair e convidar a fé em Cristo com a pregação da palavra divina e com exemplo da vida santa; - sendo irrito, vão, nulo, sem valor nem firmeza, todo o obrado em contrário da presente determinação e declaração apostólica"

 

Índios de São Vicente.

      Agradando-se da localidade de São Vicente e reputando-a com todas as condições adequadas, começou Martim Affonso de Souza a lançar os fundamentos de uma colônia regular no Brasil, não se tendo até então estabelecido no seu litoral se não feitorias mais ou menos provisórias.

      Achava-se o capitão-mor ocupado nos misteres do estabelecimento da colônia, quando recebeu notícia da aproximação dos índios, que o vinham agredir. Preparado para repelir o ataque, ficou surpreendido ao ver aproximar-se um homem, que saia das fileiras inimigas e exprimia-se com toda a naturalidade na língua portuguesa: Era João Ramalho, que havia 20 anos, vivia entre os Guaianazes, tendo-se mesmo casado com Bartyra, filha do cacique Tibiriçá. Fácil foi a João Ramalho convencer os índios das vantagens de uma aliança com os Portugueses. E os Guaianazes, daí em diante, foram os melhore auxiliares para a nova colônia. As relações entre os Portugueses e esses índios tornaram-se mesmo tão íntimas, que muitos dos Guaianazes resolveram receber o batismo; entre os novos cristãos contou-se logo o chefe da tribo, que tomou o nome de Martim Affonso (Tibiriçá), e a mulher de João Ramalho, que se chamou Izabel. Além de João Ramalho, havia também entre os índios, outro Português, Antônio Rodrigues, aliado de Piqueroby, Chefe dos Ururahys, que intimou a Cayuby à vontade de Tibiriçá de viver em paz com Martim Afonso de Souza.

      Os Guaianazes, a cujas hordas pertenciam também os Guarulhos, os Maramomis e os Ururahys, eram uma das tribos menos ferozes que então dominavam no litoral e circunvizinhanças. Não eram antropófagos, como a maior parte das tribos, que devoravam os prisioneiros; habitavam em cavernas, onde entretinham sempre o fogo aceso; tinham costumes brandos; acreditavam numa outra vida; dormiam no chão em cima de peles de animais ou em cima de folhas e não em redes; viviam de caça e de pesca, não tinham agricultura nem animal doméstico de qualidade alguma.

      Entre os seus usos extravagantes, o que podia  revelar crueldade era o seguinte: quando morria algum da tribo, enforcavam certo número dos seus amigos e parentes, pessoas do mesmo sexo, para que no outro mundo tivesse companhia; por morte de um chefe, enforcavam alguns vassalos, mas não parentes.

      Além dos Guaianazes, também os Tupis e os Carijós habitavam o país. Os Guaianazes dominavam, em cerca de 50 léguas, na parte sul do atual Estado de são Paulo, confinando a leste com os Tamoyos, e a oeste com os Paiaguás e outros índios do centro. Os Tupis ou Guaranis ocupavam habitualmente o território desde o rio Itanhaém ao rio Cananéia, com 40 léguas de litoral, tendo a oeste os Carijós por vizinhos. Os Carijós dominavam desde o rio Cananéia por 70 léguas até o rio dos Patos, que desemboca em frente à ilha de Santa Catarina.

      O chefe supremo de todas essas tribos em confederação era Tibiriçá, que residia no alto da serra de Paranapiacaba (lugar onde se avista o mar), nos campos de Piratininga (peixe seco). Cayuby, seu imediato, era o chefe das tribos do litoral.

Fonte: F.T.D. Elementos de História do Brasil. Livraria Paulo de Azevedo e Cia., São Paulo, 1925.

 




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