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Postada em 07-29-2008. Acessado 770 vezes.
Título da Postagem:Os sucessores de Rio Branco
Titular:GTMelo
Nome de usuário:GrupoGuararapes
Última alteração em 07-29-2008 @ 04:21 pm
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Os sucessores de Rio Branco
Alguns fatos não podem dei­xar tranqüilos brasileiros que realmente se preocu­pam com o destino do País. Um deles é a paulatina desestruturação que se observa em nosso serviço diplomático. Trata-se de assunto delicado, mas do maior interesse para o futuro de nação desenvol­vida que almejamos para o Brasil. Atrevo-me a dele tratar, mesmo não sendo um especialista, por me considerar um observador atento do que ocorre de importante no cenário nacional; leitor assíduo de matérias sobre política externa em jornais e publicações especializa­das; interlocutor freqüente de pes­soas ligadas ao setor.
Muito cedo em minha carreira, tive um contato bastante afirmati­vo com nossa diplomacia, quando aprendi a admirar e a respeitar os funcionários que compõem seus quadros. Isso aconteceu em meados da década de 60 do século passado, em Assunção, Paraguai, para onde fui designado, ainda Capitão, para integrar a Missão Militar lá sedia­da. Em Assunção, conheci uma excelente equipe de profissionais, liderada por um diplomata de notá­veis méritos – Embaixador Fernan­do Ramos de Alencar. À época, fui testemunha de intenso trabalho na defesa dos interesses brasileiros, entre os quais figurava a intrincada negociação para o acordo de Itaipu. Dessa equipe, destaco alguns no­mes com os quais tive maior con­tato: o Ministro Guilherme Weins­chenk, o Conselheiro Pedro Hugo Fabrício Belloc e o 2º Secretário Carlos Alfredo Pinto da Silva. Com este último, hoje Embaixador apo­sentado, tenho o privilégio de des­frutar longa e sólida amizade.
A diplomacia brasileira guar­da muito justo renome interna­cional. Sua escola tem como base a velha e boa tradição política lu­sitana, para nós transmitida, com mais intensidade, após a chegada da família real, em 1808. A ma­neira de ser da diplomacia lusa, trazida por D. João, adaptou-se às condições da nova terra e per­mitiu a gênese do Itamaraty. Foi essa herança que tornou possível uma atuação segura, em defesa do interesse nacional, em momentos cruciais de nossa formação his­tórica, particularmente nas dis­putas de fronteira com nossos vi­zinhos de origem hispânica.
A propósito do assunto – for­mação de limites – o Embaixador Synesio Sampaio Góes Filho, em seu ensaio Navegantes, Bandei­rantes e Diplomatas (BIBLIEX, 2000), afirmou: “A diplomacia luso-brasileira teve, neste último tema, sua hora estelar”. Alexandre de Gusmão na Colônia, Ponte Ri­beiro no Império e Rio Branco na República foram padrões de ser­vidores do Estado que, com seu conhecimento profundo das ques­tões de fronteira, com sua avalia­ção correta das relações de força muito contribuíram para que, nos sertões da história, fossem encon­trados os bons caminhos”.
A importância de tal legado é reafirmada por Aspásia Camar­go na introdução ao depoimento do Embaixador Vasco Leitão da Cunha – Diplomacia em Alto Mar – ao CPDOC, (FGV, 2003): “Nos­sa diplomacia consolidou de ma­neira consistente e duradoura as pequenas e as grandes lições do passado, imprimindo posturas e princípios gerais às suas decisões de política externa e ao mesmo tempo particularizando suas rela­ções com cada país em função de cumplicidades comuns e de atos de solidariedade pretérita que permanentemente se atualizam”.
O próprio depoente acrescen­ta, ao ressaltar o vigor de nossa política externa ao tempo do Im­pério: “Tivemos representantes de primeira ordem. Eram José Maria da Silva Paranhos, o visconde do Rio Branco; Varnhagen, vis­conde de Porto Seguro; Pimenta Bueno, marquês de São Vicente; Paulino Soares de Sousa, viscon­de de Uruguai. O visconde do Rio Branco, quando acabou a Guerra do Paraguai, foi nomeado minis­tro em Assunção para evitar, com sua presença e sua política, que a Argentina absorvesse o Paraguai. Foi para lá defender o Paraguai, salvar o inimigo vencido...”
Dentre os funcionários de re­nome que integraram os quadros do Itamaraty o talento do barão do Rio Branco se destaca como caso ímpar. Geógrafo, historiador e estadista, desenvolveu extenso e profícuo trabalho diplomático, cuja grandiosidade fica patente ao ser lembrado, apenas, um de seus sucessos: a consolidação de nossa linha de fronteira. E sem guerras, valendo-se, tão somente, do arbi­tramento ou de negociações bilate­rais. Assim, tornou o Brasil um país sem problemas em seus limites, ao inverso do que acontece com nos­sos vizinhos do continente.
É justamente esse rico cabedal que alguns especialistas em polí­tica externa, inclusive numerosos profissionais da diplomacia brasi­leira, sentem que corre perigo de ser deteriorado. O risco advém da mudança de enfoque, percebida por esses críticos, na condução de nos­sos negócios externos. Os trabalhos desenvolvidos pelo Itamaraty eram entendidos, desde Rio Branco, como atividade de Estado, não de governos, muito menos de partidos políticos. Associado ao problema da partidarização de uma atividade de estado, este Governo introduziu outros fatores complicadores: uma dualidade na condução de nossa política exterior, prática alheia à tradição diplomática brasileira; a ideologia influenciando o geren­ciamento da carreira diplomática.
A contaminação ideológica na condução de nossos interesses in­ternacionais é bastante evidente. Cito, para ilustrar, o caso da Bo­lívia, quando instalações da Pe­trobrás foram invadidas por tropa militar. O prejuízo econômico, os interesses brasileiros e dos acionis­tas privados da empresa, a afronta, tudo foi relevado em nome, presu­midamente, do apoio ao parceiro no Foro de São Paulo. O viés ideo­lógico prevaleceu sobre o interesse nacional. Aqui, havia vasto instru­mental diplomático para resolver a questão, e ninguém pensou em re­correr à força. De qualquer forma, cumpre lembrar que o Barão do Rio Branco, empenhado em solucionar, com a mesma Bolívia, a situação dos brasileiros que viviam no Acre, não vacilou em deixar claro que o Brasil recorreria até à guerra, se fosse necessário, para defender os interesses daqueles patrícios. O contágio ideológico é também re­conhecido por Demétrio Magnoli, sociólogo e doutor em geografia humana pela USP: “Sob Lula, a política brasileira para a América do Sul perdeu a referência do in­teresse nacional, tornando-se alvo fácil para a ofensiva dos ideólogos. O Conselho de Defesa está sendo preenchido com os conteúdos que interessam a Caracas. Pagaremos caro por esse erro”.
Compareci, não faz muito tempo, no Clube Naval, a uma palestra profe­rida pelo Embaixador Rubens Barbo­sa. O palestrante apresentou uma hi­pótese, que julgo bastante viável, para explicar tal estado de coisas. Lembrou que o Presidente Lula, contrariando tudo o que seu partido e ele próprio pregavam, adotou, quase sem ressal­vas, a política econômica do Governo anterior. Agiu espertamente, pois sabe que um retorno à época da inflação descontrolada seria seu fim político. Então, para acalmar o Partido, deu-lhe a condução da política externa.
Enfim, procurei aqui demons­trar o muito que o Brasil deve ao seu corpo diplomático desde o tempo em que a nação estava sen­do formada. Muitas gerações, mer­cê de um trabalho sério, contínuo e dedicado ao Brasil, construíram um dos melhores serviços diplomáti­cos do mundo – fato internacional­mente reconhecido. Somente espe­ro que esse verdadeiro patrimônio da nação brasileira não seja, por equívocos de natureza ideológica, destruído em oito anos.
Na qualidade de soldado que foi instado a falar sobre diplo­macia, concluo com as palavras do diplomata maior, quando fa­lou sobre soldados. Disse Rio Branco: “Diplomata e soldado são sócios, são colaboradores que se prestam mútuo auxílio. Um expõe o direito e argumenta com ele em prol da comunidade; o outro bate-se para fazer vingar o direito agredido, respondendo a violência com a violência”.

General-de-Exército Gilberto Barbosa de Figueiredo




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