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Postada em 05-24-2006. Acessado 723 vezes.
Título da Postagem:O tabuleiro do poder mundial
Titular:Manuel Cambeses Júnior
Nome de usuário:Cambeses
Última alteração em 05-24-2006 @ 02:39 pm
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Autor: * Cel Av RR Manuel Cambeses Júnior

Joseph Nye, decano da Escola de Governo John F. Kennedy, da Universidade de Harward, escreveu um instigante artigo na edição de 23 a 29 de março, do ano corrente, da revista The Economist. Nesse trabalho, ele analisa a essência do poder dos Estados Unidos, na atualidade. Segundo sua ótica, uma visão superficial levaria qualquer analista a concluir que a brecha de poder existente, nos dias atuais,  entre os Estados Unidos e o resto do mundo resulta pura e simplesmente avassaladora. Militarmente, é a única nação de alcance global em nível de armamento nuclear e forças convencionais, e seus gastos, nessa matéria, são maiores que os dos próximos oito grandes países do planeta combinados. Economicamente, representa 31% do Produto Bruto Mundial, ao mesmo tempo em que sua presença cultural faz-se sentir em todos os rincões da Terra.

            Por detrás desta primeira aproximação, entretanto, a realidade é muito mais complexa. De acordo com Nye, o poder nesta era da informação global se assemelharia a um jogo de xadrez tridimensional. Na parte superior do tabuleiro, encontra-se o poder militar. Ali, a superioridade estadunidense é indisputável e o poder unipolar. No tabuleiro médio aparece o poder econômico, que apresenta-se claramente multipolar pois os Estados Unidos competem com outros atores significativos entre os quais sobressaem a União Européia e o Japão.

            Finalmente, no tabuleiro inferior, encontramos uma complexa rede transnacional não governamental. Esta última incluiria os mais diversos atores: desde banqueiros que mobilizam vultosas quantias - maiores do que a soma dos orçamentos destinados a diversos países -, até terroristas e traficantes de armamentos, passando pelos “hackers” que dedicam-se a difundir o caos nos computadores de todo o mundo.

            Nesse nível, obviamente, não se pode falar de unipolaridade, multipolaridade ou hegemonia, pois o poder se encontra atomizado. Ainda segundo Joseph Nye, dentro de um jogo tridimensional é impossível centrar unicamente a atenção no tabuleiro superior, pois isto levaria a perder de vista os jogos que se desenvolvem nos outros dois tabuleiros, bem como as conexões verticais e a capilaridade que se estabelecem nos três níveis.

            Embasados nesta linha de raciocínio atingimos, então, o cerne da dinâmica gerada a partir dos atentados perpetrados, por terroristas muçulmanos talibãs do grupo Al-Qaeda, às cidades de Nova York e Washington, em 11 de setembro de 2001. Num primeiro momento, o governo estadunidense esteve convencido de que a resposta frente ao terrorismo islâmico passava pela construção de um entretecido de alianças internacionais. Isto fez com que Washington deixasse de lado o unilateralismo, que até esse momento havia caracterizado a política externa do governo de George W. Bush, propiciando uma visão muito mais sofisticada e realista dos assuntos internacionais. O magnífico triunfo militar estadunidense no Afeganistão parece ter trazido como ensinamento, aos norte-americanos, que os Estados Unidos não necessitam de coalizões, bastando utilizar a seu portentoso poder militar para atingir os objetivos colimados. Ao final de contas, a sua própria superioridade militar parecem tornar supérfluas a diplomacia e as concessões que ela, obviamente, entranha. Em poucas palavras, diríamos que a atenção, no momento, está concentrada no tabuleiro superior.

A permanente ameaça aos Estados Unidos poderá ocorrer por diversas vias, tais como: uma bomba nuclear radiológica colocada, por exemplo, no coração de Washington ou Nova York ou de patogênicos químicos ou biológicos dispersados no metrô de uma grande cidade ou em algum reservatório de água urbano. Frente a esse tipo de ameaça de pouco ou nada serve a condição unipolar da superpotência. A única maneira de enfrentar tais perigos é através da cooperação intergovernamental, das alianças e da diplomacia.

             Controlar, efetivamente, a subtração e o movimento de material nuclear, biológico ou químico dos arsenais russos, mediante acordos e adequada cooperação; enfatizar a cooperação entre os serviços de Inteligência do mundo e, efetivamente, propiciar, a resolução dos problemas que alimentam o ódio com o Ocidente e o fundamentalismo dentro do mundo islâmico. São iniciativas como essas as únicas susceptíveis de dar uma resposta positiva a este imbróglio geopolítico que tantos prejuízos tem causado à humanidade. Entretanto, dificilmente se conseguirá êxito nessa empreitada enquanto perdurar um ambiente marcado, primacialmente, pelo unilateralismo, pela prepotência e pela sensação de auto-suficiência da nação hegemônica.




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