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A revolta Farroupilha - Uma releitura de suas causas
Inserido por: ClaudioBento
Em: 06-29-2006 @ 06:18 pm
 

 

 Há anos adquirimos e lemos encantados a trilogia O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo, quando já possuíamos algum conhecimento sobre as guerras externas e internas  que envolveram no Rio Grande do Sul, assunto que nos especializamos como historiador militar terrestre brasileiro. Eventos muito bem abordados no 1º volume O Continente da trilogia

Em 1972, quando fomos a Porto Alegre para receber prêmio na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul pelo nosso trabalho: Hipólito da Costa – o gaúcho fundador da Imprensa Brasileira, ora publicado e 32 anos depois, tivemos a oportunidade de visitar Érico Veríssimo em companhia de uma jornalista carioca, filha de um destacado jornalista falecido e que representara a ABI no julgamento do concurso em que fomos um dos premiados.

E na casa do escritor,  com visita previamente agendada  pela mencionada   jornalista, fomos muito bem recebidos por Érico e sua senhora . E lembro de lhe i haver perguntado sobre a minha surpresa por seu enorme conhecimento histórico militar do Rio Grande do Sul  que ele tão bem abordara como moldura de  seu romance, e em especial o citado 1º volume .

E ele respondeu que havia estudado muito a História do Rio Grande do Sul, mas como romancista se tivesse que dela se desprender o faria.

Em O Continente, v. 1 da sua trilogia, Érico Veríssimo aborda a Revolução Farroupilha e a sua pacificação honrosa, vista da hipotética Santa Fé. E é neste capítulo que o seu famoso personagem farrapo Capitão Rodrigo retorna a Santa Fé para atacar no Sobrado, os imperiais  Cel Ricardo Amaral e seu filho ,no qual numa briga ele havia marcado o seu rosto com um R feito a faca.,

No ataque ao Sobrado, o Capitão Rodrigo foi morto a bala ao  pular uma janela no assalto e no seu interior . Foi também morto o Cel Ricardo Amaral e seu filho conseguiu fugir. O enterro do capitão Rodrigo foi concorrido e o do Coronel Ricardo Amaral não.

Isto me fez lembrar o cemitério de Bagé onde estão próximos os túmulos do General Antônio Neto e o do chefe imperial que ele venceu em Seival, em 10 de setembro de 1836, o então tenente coronel João da Silva Tavares que era naquela área o maior esteio do Império. Combate do Seival que estudamos , à luz dos fundamentos da Arte Militar, em O Exército farrapo e os seus chefes. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1991.v.2. Combate  no qual tem sido pouco divulgado que e tropa vencedora era a Divisão Liberal, originária por transformação do Corpo da Guarda Nacional do amplo município de Piratini , do qual faziam parte mais os distritos de Canguçu, Cerrito e Bagé até o Pirai,  dos quais se originaram alguns municípios. E mais, que Neto foi assessorado militarmente neste combate pelo esquecido Coronel Joaquim Pedro Soares, veterano das lutas contra Napoleão na península ibérica e nas guerras contra Artigas e Cisplatina .E foi ele que organizou e foi o 1º comandante do Corpo de Lanceiros Negros, conforme o estudamos em O Exército farrapo e os seus chefes, v.1. Ele seria  preso por Chico Pedro junto com José Mariano de Matos e ambos conservados por algum tempo na cadeia de Canguçu. Depois foi enviado preso para o Rio de Janeiro ao 74 anos,  se desconhecendo  o seu destino final

E junto, ao lado direito do túmulo de Silva Tavares está o  “ Santo de Bagé,”  o antigo soldado conhecido como Preto Caxias, e cheio de ex votos, em gratidão a graças recebidas. Personagem que estudamos no  livro História da 3ª Brigada de Cavalaria Mecanizada. Porto Alegre: Metropole,

A abordagem  das causas da Revolução Farroupilha por Érico Veríssimo são as mais notáveis que eu já li e muito conhecidas pelos que a estudam, mas não abordou , a causa militar, em razão de ela até o presente não haver sido interpretada  e abordada pela  historiografia gaúcha, a qual estamos  abordando em Escolas do Exército em Rio Pardo 1856/1911, em retrospecto militar de Rio Pardo. Causa militar que a seguir  interpreto.

Com a Abdicação de D. Pedro I forças  políticas que assumiram os destinos do Brasil, provocaram um enfraquecimento do poder militar do Brasil , sob o argumento  disfarçado de que as Forças Armadas não podiam ficar nas capitais e sim na defesa das fronteiras e do litoral, O caso mais gritante foi a dispensa , por estrangeiro, do tenente Emílio Mallet, atual patrono da Artilharia, então consagrado herói em Passo do Rosário e que havia cursado a Escola Militar do Brasil .

No Rio Grande do Sul foi atingida radicalmente a estrutura do Exército ao ser ordenado que o Batalhão de Artilharia, ao comando do  Major José Mariano de Mattos fosse aquartelar em Rio Pardo. José Mariano era carioca formado pela Escola Militar. Na República Rio Grandense para cuja adoção ele influiu decisivamente, depois da vitória  de Seival, em 10 set 1836, pela citada Brigada Liberal de Antônio Neto, ele foi ministro da Guerra e da Marinha, vice presidente da República e presidente da Republica interino, além de autor do brasão que figura na bandeira da República Rio- Grandense que foi adotado para o Rio Grande do Sul pelos constituintes de 1891. Assunto que abordamos em nosso citado livro  Símbolos do Rio Grande do Sul...Recife:UFRPE,1971.   Próximo do final da Revolução ele foi preso em Piratini  por Chico Pedro ou Moringue, e mais tarde Barão de Jacui e mantido preso em Canguçu a sua base de operações, em cadeia que mandara construir como “ quarto de hóspedes para os farrapos” como ironicamente divulgava.   Finda a Revolução José Mariano de Matos  foi o Ajudante General de Caxias na guerra contra Oribe e Rosas em 1851-52 e ao retornar ao Rio retomou sua carreira, sendo Ministro da Guerra em 1865. 

 È considerado um dos 3 afro-  descendentes a governar o Rio Grande do Sul, ao lado de Carlos dos Santos e Alceu Colares.

O Major João Manuel Lima e Silva  tio do Duque de Caxias, por  irmão de seu pai o Brigadeiro Lima e Silva, possuía o curso da Escola Militar e comandava a unidade de Infantaria do Exército em Porto Alegre que  foi transferida com ele para São Borja . E ao para lá  se deslocar, estacionou em Rio Pardo, por falta de condução para seguir para seu destino. .Ele foi um dos que opinaria pela proclamação da República Rio- Grandense pela qual foi eleito o primeiro general farroupilha. Comandou o Exército Farrapo em Pelotas, com vistas a reconquista da cidade de Rio Grande, até sofrer ferimento no maxilar, deformador de seu rosto, sendo obrigado a ir tratar-se no Uruguai. Terminou sendo assassinado em São Borja de onde foi exumado e sepultado com toda a pompa e circunstância em Caçapava , onde mais tarde seu túmulo foi profanado por imperiais e seus ossos espalhados pelos campos.   Esta introdução serve para se entender a ação dos dois e de seus comandados em Rio Pardo com vistas a Revolução.

Revoltados com ações sutis contra o Exército visando o seu enfraquecimento ou erradicação,  passaram a conspirar uma revolução. Vale lembrar que os coronéis Bento Gonçalves da Silva e Bento Manoel Ribeiro eram oficiais de Estado- Maior do Exército e que em data recente haviam comandado unidades de Cavalaria do Exército, respectivamente em Jaguarão e Alegrete .

E que elas com a de Bagé haviam sido enfraquecidas  radicalmente pelo Governo, por reduzirem seus efetivos de cerca de 800 homens para cerca de 100. E os dois Bentos estavam revoltados com esta situação .A Bento Gonçalves cabia na época o comando da Guarda Nacional do Rio Grande do Sul, integrada por estancieiros, fazendeiros e charqueadores e mais pessoas que conseguissem mobilizar e que estavam revoltados com o aumento imposto sobre a légua de campo e com impostos escorchantes sobre o charque gaúcho, beneficiando o charque dos uruguaios e argentinos, inimigos de ontem, o que Érico Verissimo muito bem abordou em O Continente..

A Guarnição do Exército do Rio Grande do Sul era a mais poderosa do Império. E estes desgostos somados aos de militares do Exército e da Guarda Nacional, serviram de combustível para o 20 de setembro de 1835, decidido numa reunião maçônica em Porto Alegre no dia anterior, em que estavam presentes entre outros líderes Bento Gonçalves e José Mariano de Matos. Desgostos que contribuíram para a proclamação da República Rio Grandense  em 11 de setembro de 1836, no Campo do Meneses, aproveitando o êxito da vitória farrapa de Seival, no dia anterior . O  Coronel Joaquim Pedro herói farroupilha esquecido pela História, era veterano no Exército das lutas para expulsar Napoleão da Península Ibérica e foi quem  organizou o Corpo de Lanceiros Negros Farroupilha, e o estudamos em O Exército Farrapo e os seus chefes ,v1,p.168/170. História é verdade e justiça !

 Em Rio Pardo os majores do Exército José Mariano e João Manuel fundaram, em 7 de abril de 1835,no 4º aniversário da Abdicação de D. Pedro I,  a Sociedade Defensora ,agitando as questões aqui abordadas, terminando 17 dias mais tarde, em 24 de abril de 1835, ocorrendo o assassinato do juiz  Casemiro de Vasconcelos Cirne, as 9 da manhã. Juiz  que processava acusados de promoverem agitação política em Rio Pardo. O major José Mariano foi acusado de envolvimento, não provado, na morte do juiz e foi enviado preso para Porto Alegre onde era deputado provincial..

Esta participação do Exército na Revolução Farroupilha até então não abordada pela historiografia a conclui em nosso citado livro O Exército farrapo e seus chefes elaborado depois de detida pesquisa em fontes primárias na coleção  Anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul.

Érico Veríssimo recorreu a personagem D. Picucha Fagundes” que depois da Revolução Farroupilha não falou mais de Carlos Magno e seus 12 cavalheiros. E que esqueceu Rolando por Bento Gonçalves, Oliveira por Antônio Neto, Reinaldo por Davi Canabarro, João Manoel Lima e Silva por Florisbaldo. “ . E esqueceu D. Picucha dos generais farrapos  João Antônio da Silveira e de Bento Manoel Ribeiro, este filho de Sorocaba- SP . E este foi alvo de uma injustiça política popular traduzida por esta poesia  que atravessou os tempos.

   “Pode um altivo humilhar-se

    Pode um teimoso ceder

    Pode um pobre enriquecer

    Pode um pagão batizar-se

    Pode um mouro ser cristão

    Pode um arrependido salvar-se

    Tudo pode ter perdão

    Só Bento Manoel, não.

Condenação agravada pelo linchamento moral do personagem real pela minissérie da TV Globo, A Casa das Sete Mulheres.

Em realidade, Bento Manoel foi um grande soldado e conforme D. Picucha( Erico Verissimo)  “ele era valente, ligeiro e alarife...” O próprio veterano e memorialista farrapo Manoel Alves da Silva Caldeira que o conheceu e foi seu comandado na vitória de Rio Pardo    assim traçou o seu perfil militar .

“Bento Manoel era um militar de muito boa tática de guerra. E possuía muito conhecimento dos habitantes da campanha da Província e também era de muito prestígio. Quando a legalidade estava caída, ele com sua presença dava-lhe vida e quando a causa da República, precisava a alento ele lhe dava.”

Quem nos alertou para a grande injustiça com a sua memória foi o grande brasileiro Osvaldo Aranha, cujo depoimento a respeito reproduzimos no nosso já citado livro O Exército farrapo e os seus chefes. v. 1, p. 124.

Em síntese, Bento Manoel liderou no campo militar a derrubada do Presidente e do Comandante das Armas. Afastados os dois como objetivos da Revolução, ele permaneceu como o novo Comandante das Armas e foi para tal convidado a permanecer neste cargo pelo novo presidente da Província. E cessou para ele a motivação revolucionária, na qual outros chefes persistiram. No exercício das funções novas foi obrigado a combater os farrapos, até que chegou um novo e desastrado Presidente de Província, sem inteligência emocional, diríamos hoje,  e que entrou em choque com ele e quis prendê-lo, o que ele fez primeiro, sendo obrigado a se tornar  um fora da lei imperial. Quando combatia o Império e havia levado à vitória a causa farroupilha, a burocracia da República em Piratini, a revelia de  Bento Gonçalves, o desconsiderou  através do jornal O Povo, promovendo a tenente coronel um oficial baiano com o qual ele se desentendera seriamente. E muito magoado não lhe restou outra alternativa que a de  cair fora, em que pese os grandes esforços de Bento Gonçalves. E com ele fora, a causa militar farroupilha entrou  em declínio. E mal com o Império e com a República não lhe restou outra alternativa do que combater ao lado do Império ao receber convite para tal.

Quem o havia defendido antes de Osvaldo Aranha fora o grande escritor rio- grandense Alfredo Ferreira Rodrigues em seu Almanaque Literário e Estatístico do Rio Grande do Sul (1889/1917).

D. Picucha recorda o Manifesto de Bento Gonçalves neste trecho o que bem traduzia o espírito do gaúcho contra as elites do Sudeste detentoras do poder:

“Éramos o braço direito e também a parte mais vulnerável do Império. Agressor ou agredido, o governo nos fazia sempre marchar a frente. Disparávamos o primeiro tiro de canhão e éramos os últimos a recebê-lo. Longe do perigo dormiam em profunda paz as outras Províncias, enquanto nossas mulheres, nossos filhos e nossos bens prezas do inimigo, ou nos eram arrebatados, ou mortos, e muitas vezes trucidados, cruelmente.”

Este sentimento dominava os integrantes da Guarnição do Exército no Rio Grande do Sul e a sua Guarda Nacional.

D. Picucha lembra que os republicanos deram alforria para todos os negros que combateram pela causa revolucionária e baixou decreto dizendo que sempre que imperial surrasse um negro farrapo, eles tirariam a sorte entre os prisioneiros e passariam um oficial imperial pelas armas .

No romance Érico Veríssimo não põe em dúvida a honestidade de Canabarro e Caxias no tocante aos lanceiros negros em Porongos, e conclui que  a pacificação da Revolução Farroupilha por Caxias foi  honrosa.

Ao finalizarmos nosso livro História da 3ª Região Militar 1808-1889 e Antecedentes. Porto Alegre: 3ª RM/IHTRGS, 1994, v. 1 colocamos esta observação no final.

“ A moldura da História da 3ª Região Militar completar-se-á com a obra:

VERÍSSIMO, Érico. O Tempo e o Vento. Porto Alegre: Liv. Globo, 1961, 3. v.

Obra esta que com muita verossimilhança resgata a vida do Rio Grande do Sul em vários aspectos e ajuda a consolidar os conhecimentos abordados no presente trabalho.”

Esta é a homenagem que prestamos a Érico no seu centenário  em 17 de dezembro de 2005 e em nome das entidades abaixo que presidimos .

 


Última alteração em 06-29-2006 @ 06:18 pm

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