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Náufragos do Tempo
Inserido por: Israel
Em: 07-30-2006 @ 04:31 pm
 

 
Curriculum 
Vitae

 

 

 

Autor: * Dr.ISRAEL BLAJBERG

 
Nota: Texto semi-ficcional  versando sobre a tradicional Cerimonia de Homenagem aos Naufragos  do Itagiba e do Baependy.

O clima emotivo da solenidade  realizada aos 19/ago/2005 no
historico aquartelamento do 21 GAC em Sao Cristovao, Rio de Janeiro
ensejou a inspiração para escrever algumas palavras alusivas.

xxxxx

Em 1808 aqui chegamos, vindos de Portugal na frota de D.João VI. O Príncipe não quis que seu país fosse humilhado, preferindo partir, e nos levou consigo para guarnecer a sua Artilharia.

Anos e anos de convivência nas lides da caserna nos forjaram uma alma espiritual, além da alma de aço que todo canhão possui.

Sim, somos dois antigos canhões. Tracionados por elegantes parelhas de robustos cavalos Percheron, percorremos os campos de batalha na Guerra da Tríplice Aliança. Sob o comando de Mallet, nossos disparos fizeram tremer o inimigo.

O tempo passou. Cansados e gastos, já não podíamos mais lutar. Hoje estamos aqui, as eternas sentinelas do nobre e elegante quartel histórico de São Cristóvão.

 

 

 

Diante do Corpo da Guarda, somos testemunhas mudas da história, nesta São Cristóvão Imperial que abrigou a monarquia e sediou tantas valorosas unidades militares.

Um dia, ouvimos alarido incomum. A unidade, pronta, se preparava para partir. Consternados, demos adeus aos irmãos de armas que se iam, nos deixando.

Iríamos ficar sozinhos com a missão de guardar o aquartelamento, até que nova tropa nele se instalasse.

O 7º. Grupo de Artilharia de Dorso deslocava-se com toda a guarnição e material para o Cais do Porto, onde embarcaria para Olinda.

Era preciso defender a nossa costa, para o que não hesitaram um só minuto, navegando pelo mar onde se escondia o submarino nazista traiçoeiro. Não haveriam de alcançar seu destino.

A viagem não teve retorno para 150 dos 243 artilheiros, comandados pelo Major Landerico de Albuquerque Lima.

Corria o mês de agosto de 1942. Navios mercantes que transportavam as tropas, o Itagiba e o Baependy não poderiam se defender do ataque cruel, ordenado por aquele cujo nome e sua memória sejam esquecidos.

Diante da imensidão da tragédia, o povo foi às ruas a exigir uma resposta à tamanha covardia. Em apenas 5 dias, o U-507 torpedeou 6 navios nacionais, com a perda de 600 vidas preciosas de brasileiros.

Ao todo, com o afundamento de 35 navios mercantes, o mar foi o túmulo de 1.050 patrícios inocentes.

O Presidente Vargas declarou guerra ao Eixo, e deste mesmo sitio onde hoje nos encontramos posicionados, o aquartelamento do 21, vimos passar as tropas da FEB percorrendo a linha férrea da Central do Brasil, com destino ao mesmo Cais do Porto de onde haviam partido os heróis do 7º GADo para a viagem que não chegaria ao destino.

Passados 2 anos do repulsivo ataque, desta vez o resultado seria diferente. Os 5 escalões da FEB desembarcaram em segurança no solo europeu, onde haveriam de derrotar os mesmos nazistas que tantas vidas brasileiras haviam ceifado.

Do nosso quartel originou-se a Bateria que disparou o primeiro tiro jamais dado fora do continente americano pela Artilharia do Exército Brasileiro. Ao pé do Monte Bastione, que veio depois a dar nome ao Grupo, a Artilharia de Mallet entrou em combate, revivendo na Itália seus dias de glória.

Mas o Brasil é uma terra abençoada, e depois de terminada a 2a. Guerra Mundial, há exatos 60 anos, da nossa posição privilegiada apenas testemunhamos a paz, compondo com a nossa presença significativa a entrada deste histórico aquartelamento.

Hoje é um dia especial. Visitas começam a chegar. Mais uma vez o 21º. GAC homenageia os náufragos do 7º. GADo. Aos poucos vem chegando os últimos dos 93 sobreviventes da tragédia.

No Museu do Grupo pode-se ver a foto deles, em pé diante da Prefeitura de Valença, muitos ainda descalços, as fardas desalinhadas pela luta contra o mar revolto, mas embora o olhar pareça aturdido pela tragédia que acabara de ocorrer, a postura firme e o dispositivo que disciplinadamente assumem, apesar de tudo, denotam que aqueles bravos estão de novo prontos para a luta, e quem sabe quantos não terão novamente embarcado com a FEB para cobrar dos nazistas o preço pelo enorme mal que produziram ?

O palanque das autoridades já está composto. Apenas três ou quatro sobreviventes puderam comparecer, além de alguns parentes, que sequer tem o consolo de poder visitar um tumulo para prantear seus entes queridos.

Apenas poderão contemplar o vasto mar azul, que serviu de última morada para bravos soldados, como o Ten Alípio de Andrada Serpa, após ter cedido seu salva-vidas a um soldado que não sabia nadar.

Os Cabalistas (místicos) explicam sobre a confusão que uma alma sofre ao se separar do corpo onde passou seus dias na Terra. Inicialmente, suas almas pairaram sobre o mar. Depois foram circular sobre seu antigo lugar de residência, antes de partir. Por isso manda a tradição milenar sentar Shivá - uma semana de luto - no local onde o falecido viveu.

O Pavilhão Nacional é incorporado à tropa formada no mesmo pátio de onde partiram aqueles heróis. Os acordes do Hino Nacional Brasileiro rasgam os ares, e uma salva de artilharia ecoa no imenso espaço vazio, amplo vale formado entre a Quinta da Boa Vista e as montanhas do Sumaré ao longe.

Um ou outro passante na avenida fronteira se intrigará ao escutar os ecos da cerimônia. Certamente nenhum saberá do que se trata. Poucos brasileiros que viveram aquele momento ainda estão aqui, e aos novos nem sempre é dada a oportunidade de conhecer a nossa História.

A tropa desfila com garbo altaneiro, os estandartes azuis tremulando ao vento. No palanque, a emoção dos Velhos Artilheiros transparece, o olhar distante, a mente divagando trazendo de volta gratas recordações de um passado em que eles próprios formavam na tropa que passava diante das Autoridades, com a mesma vibração.

 

Mas a verdade é que os náufragos foram praticamente esquecidos pelo grande público, que um dia tomou a Avenida Rio Branco para saudar os pracinhas que voltavam vitoriosos da Itália. Além de terem naufragado no mar oceano, naufragaram também no mar do tempo infinito, recobertos pelo manto do quase esquecimento.

Não muitos, além de nós, os velhos canhões, e aqueles que a cada ano comparecem às diversas cerimônias, ainda recordam o dia em que o Brasil se levantou a uma só voz para defender a liberdade e a democracia.

Diante do singelo Monumento aos Náufragos, que eterniza no mármore a homenagem a sua memória, o Comandante do 21, ex-combatentes, sobreviventes e parentes conduzem uma coroa de flores, apondo-a ao pé das silhuetas esbeltas que simbolizam aqueles dois navios inocentes, vitimados pela Alemanha nazista.

Nestes momentos, as almas dos náufragos às vezes retornam. Poucos as podem pressentir, mas elas passaram por nós e estão aqui novamente.

Os tempos hoje são outros. A imprensa e a opinião pública preocupam-se com assuntos que chegam a ser desanimadores, quando para os Náufragos Esquecidos poucas linhas se escrevem

À sombra das árvores centenárias assistimos a caminhada do Tempo. Muda o material, muda a guerra, mudam os homens, muda a política, muda tudo.

Apenas nós não mudamos.

Continuamos firmes em posição, recordando a cada ano os Náufragos.

Aqui jamais serão esquecidos. 

(*) - Assessor Cultural da Ass Ex-Al CPOR / RJ

 


Última alteração em 07-30-2006 @ 04:35 pm

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