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A luta do Dnieper e a retirada Germânica
Inserido por: Piero
Em: 08-29-2006 @ 04:25 pm
 

 
Curriculum 
Vitae

 

 

 

Autor: * Dr.Dal Piero

 

Em 12 de julho de 1943, em torno da cidade de Kursk os exércitos germânicos e soviéticos travam uma encarniçada batalha. Atacando pelo norte, o IX Exercito do General Model apenas conseguiu avançar uma dezena de quilômetros, à custa de terríveis perdas em homens e materiais. Pelo sul, o IV Exército Panzer do General Hoth se encontrava paralisado, suportando a inesperada investido de um furioso contra-ataque russo. A ofensiva, na qual Hitler depositara suas últimas esperanças, redundara num descalabro total. Esse era o momento que o Alto-Comando russo aguardava.

Assim, quatro exércitos soviéticos se lançam, de surpresa, sobre o flanco norte das forças alemãs. Seu objetivo imediato é a cidade de Orel, que os alemães rodearam com uma gigantesca barreira defensiva. Milhares de minas foram semeadas em todos os acessos possíveis, armando uma formidável arapuca para homens e tanques. Para abrir passagem, os russos recorrem então a concentrações de artilharia que, até aquele momento, jamais haviam sido empregadas na frente oriental.

Como na infantaria, os russos empregaram a artilharia em concentrações maciças. Os ataques de infantaria realizados sem uma preparação prévia de fogo de artilharia eram muito raros. Tampouco apelavam os russos à tática de um bombardeio breve para assegurar a obtenção da surpresa.

Tinham canhões e projéteis em quantidade, e as usavam... Para os ataques em grande escala, os russos utilizavam normalmente uns 200 canhões por milha de frente. Se julgavam necessário, o número era acrescido para 300, porém essa cifra nunca baixava a menos de 150. O bombardeio preliminar durava geralmente umas duas horas, e os artilheiros recebiam ordem de empregar nesse lapso toda a provisão de munições planejada para um consumo de um a um dia e meio. Outra cota de munição para um dia inteiro era mantida em reserva para a primeira fase do ataque, junto aos canhões, e mais para a retaguarda acumulava-se o restante das munições.

Sob um fogo concentrado de tal intensidade, as linhas germânicas, geralmente fracas, eram arrasadas em pouco tempo. As armas pesadas, principalmente os canhões antitanques, eram logo destruídas, não importa quão cuidadosamente localizadas e protegidas estivessem. Então, as massas de homens e tanques, em formação cerrada, se lançavam sobre as posições despedaçadas.

Quando existiam reservas móveis na retaguarda, a situação podia ser restaurada com relativa facilidade, mas não contavam com essas forças, caindo o peso da batalha sobre os sobreviventes da primeira linha.

Os bombardeios da artilharia russa se alongavam até muito fundo na retaguarda, e se concentravam especialmente sobre os postos de comando e os quartéis-generais. A mesma intensidade era mantida sobre toda a linha. A rigidez dos planos de fogo da artilharia soviética eram surpreendentes. Mais ainda, os russos não possuíam suficiente versatilidade para acompanhar com seus canhões o avanço da infantaria e dos blindados.

Entretanto, as baterias eram adiantadas lentamente e com freqüência permaneciam nas suas localizações originárias. Desta forma, as forças atacantes, ao completar penetrações profundas, ficavam durante longo tempo sem apoio de artilharia.

O combate contrário as concentrações de artilharia soviética consistia em realizar um fogo de contrabateria antecipado, com copiosa munição. A localização de massas tão gigantescas de canhões e o acúmulo de grande quantidade de munições exigiam dos russos tanto tempo que, em alguns casos, chegava a estender-se por várias semanas. Apesar da camuflagem muito eficiente, os reconhecimentos aéreos permitiam geralmente descobrir os preparativos e vigiar o seu desenvolvimento.

Noite após noite, os russos construíam novos postos que durante vários dias permaneciam vazios. De repente, numa manhã, vários canhões apareciam já instalados e em pouco tempo se completava a colocação das peças restantes. Em geral, nas últimas duas noites anteriores ao ataque, terminava-se a concentração das baterias. Nas poucas oportunidades em que contavam os alemães com suficiente artilharia e munições, conseguiram excelentes resultados, descarregando um fogo sistemático de contrabateria, iniciado no momento em que os russos começavam a montar seus canhões. Os ataques dos bombardeiros da Luftwaffe se mostraram também sumamente efetivos.

As táticas ofensivas empregadas pela artilharia soviética melhoraram progressivamente no transcurso da guerra. Seus bombardeios preliminares se converteram em verdadeiros furacões de fogo. Desenvolveram em particular, uma técnica de interromper o fogo em estreitos setores que, algumas vezes, não tinham mais de 90 metros de largura, enquanto continuavam bombardeando furiosamente o resto das linhas germânicas.

Essa situação criava a impressão de que o bombardeio prévio ao ataque continuava com toda a violência, quando, na realidade, o avanço da infantaria russa já se iniciava através daqueles estreitos corredores.

Por esses claros irrompem, em ondas incontidas, as forças soviéticas. Em um avanço concêntrico, atacando pelo norte, o XI Exército da Guarda, do General Bragarhian, consegue, depois de dois dias de furiosos combates, romper o dispositivo defensivo do II Exército Panzer germânico, a cujo cargo está a defesa do setor de Orel, e avançar vinte e cinco quilômetros em direção ao sul. A situação para as forças alemãs é de extrema gravidade.

Nessa emergência, o Marechal von Kluge ordena ao General Model deter suas operações frente a Kursk, e enviar imediatamente, para o norte, todas as unidades motorizadas e blindadas que possam ser retiradas da frente. Era necessário conter, a qualquer preço, o ataque soviético!

Em 13 de julho, Kluge e o Marechal von Manstein foram chamados à presença de Hitler. Nessa entrevista, o Fuhrer comunicou aos altos chefes germânicos a sua decisão de por termo à ofensiva de Kursk. Não somente porque o ataque fracassara como também porque acabava de ocorrer outro fato cuja gravidade impunha uma absoluta mudança nos planos: a 10 de julho, as tropas norte-americanas e britânicas haviam desembarcado na Sicília, suplantando as defesas do Eixo. Para conjurar essa ameaça era necessário encerrar a operação CIDADELA (ataque a Kursk) e enviar à Itália, o quanto antes, tropas de reforço.

Deste modo, quando se iniciou a grande contra-ofensiva soviética, o Fuhrer tinha que rechaçar, simultaneamente, o ataque aliado na península italiana. A temida guerra em duas frentes, no continente europeu, finalmente se convertia numa realidade para os alemães.

Muito acertadamente, o Alto-Comando russo resolvera passar a um contra-ataque geral, assim que fosse debelada a investida germânica em Kursk. O objetivo dessa gigantesca operação era, tal como na frustrada tentativa do inverno passado, conseguir o aniquilamento completo de todas as forças alemãs que operavam no sul da Rússia. Valendo-se da sua enorme superioridade, os russos esperavam, desta vez, conseguir o triunfo almejado.

Cinco grandes grupos de exércitos, os da frente central, do General Rokossvski; o de Voronez, do General Vatutin; o das estepes, do General Konev; o do sudoeste, do General Malinovski; e o do sul, do General Tolbuchin, se lançariam como uma imensa maré sobre as unidades alemãs, desgastadas pela encarniçada luta em Kursk. Atravessando a linha dos rios Donetz e Mius, os russos convergiriam aceleradamente sobre o Dnieper, para cercar e exterminar os alemães contra as costas do Mar de Azov e do Mar Negro. Simultaneamente com o inicio dessa ofensiva, na retaguarda germânica milhares de guerrilheiros atuariam para paralisar o sistema ferroviário e de rodovias.

Do lado alemão, o Marechal von Manstein, Chefe do Grupo de Exércitos Sul, vislumbrara claramente a mortal ameaça que crescia sobre as suas forças. Acreditava-se que poderiam atenuar a violência da iminente investida soviética e assim salvar as suas unidades da destruição. Para isso propunha-se a renunciar à defesa estática dos territórios conquistados e recorrer exclusivamente a uma luta móvel, tal como havia feito com êxito no inverno de 1943, quando, ao deslocar suas forças e mediante um inesperado contra-ataque, conseguira deter o avanço russo sobre o Dnieper e reconquistar a cidade de Karkov. Hitler, contudo, se opôs terminantemente a utilizar o estratagema proposto por Manstein.

O ditador considerava as zonas industriais e os trigais do sul da Rússia vitais para a economia de guerra alemã, e não queria abandoná-los sob nenhum pretexto. O Grupo de Exércitos Sul, portanto, teria que manter-se em suas posições sem ceder um só metro de terreno. Desta forma, Hitler criava, obstinadamente, as condições mais favoráveis para o êxito da ofensiva russa.

"Pesava sobre nós a desvantagem de ter, por um lado, anulada nossa iniciativa pela ordem de defender a bacia do Donetz e, por outro, de carecer de forças suficientes para resguardar nosso ameaçado flanco norte. .. Obrigados a imobilizar uma parte substancial de nossas unidades na bacia do Donetz e, mais tarde, no Dnieper, tínhamos, ao mesmo tempo, que deslocar incessantemente nossas reservas de um a outro flanco da frente, para restabelecer, embora em parte, a situação nos pontos mais ameaçados . . . Isso não nos permitia, porém, impedir que os soviéticos, ao mesmo tempo, conseguissem em outros pontos as vantagens que a sua enorme superioridade lhes proporcionava".

Von Manstein

Em virtude, portanto, das determinações do Fuhrer, os exércitos alemães estavam diante da possibilidade de sofrer uma derrota ainda mais humilhante do que a suportada em Stalingrado. Enquanto o ataque sobre Orel se desenvolvia com pleno êxito, em Moscou o Alto-Comando russo trabalhava sem descanso, ultimando os preparativos das novas fases da ofensiva. A intenção era romper o equilíbrio defensivo das forças germânicas, através de uma série de golpes demolidores assestados em diferentes setores da extensa frente. A 17 de julho, as tropas dos Generais Malinovski e Tolbuchin se lançaram ao assalto, no sul, franqueando os rios Mius e Donetz, e estabeleceram profundas cabeças-de-ponte. Estava iniciada a batalha decisiva.

Manstein, obrigado pelas determinações de Hitler, ordenou imediatamente o deslocamento de unidades blindadas da ala norte para o sul, a fim de expulsar os soviéticos das posições em que se haviam infiltrado. Com esta medida ficou debilitado o setor setentrional, onde o chefe alemão previa, acertadamente, que os russos lançariam o seu ataque principal.

Numa tentativa de frustrar essa ameaça, Manstein ordenou que duas divisões SS concretizassem imediatamente o aniquilamento das forças soviéticas que haviam transposto o Donetz e, depois de cumprida essa missão, se incorporassem, sem tardança, às restantes formações Panzer encarregadas de expulsar os russos do setor do Mius. Assim, mediante um violento e duplo contra-ataque, Manstein pretendia restabelecer as linhas do seu flanco meridional, para em seguida deslocar novamente as divisões de tanques para o norte. Contaria assim com margem de tempo suficiente para ali enfrentar a iminente investida soviética.

Uma nova intervenção de Hitler veio anular os seus planos. O Fuhrer ordenou, terminantemente, que as divisões fossem empregadas unicamente no ataque contra os russos no Mius, cancelando a projetada intervenção no Donetz.

Manstein, totalmente abatido por essa determinação, que praticamente o deixava de mãos atadas, enviou uma carta ao chefe do Estado-Maior, General Zeitzler, protestando claramente. Dizia: "Se, reiteradamente, continuam fazendo caso omisso das minhas observações relativas à provável evolução da situação, e anulando as medidas com que pretendo enfrentar as dificuldades. . .sou obrigado a supor que minha direção não inspira ao Fuhrer a indispensável confiança... Se o Fuhrer pensa contar com um comandante que tenha melhores nervos... então ponho, prazerosamente, meu cargo à sua disposição. Acredito ter o direito de fazer uso do meu cérebro, enquanto não for destituído do comando".

A nota não recebeu resposta. Hitler, indubitavelmente, não estava disposto a prescindir, nesse momento critico, do chefe a quem ele mesmo qualificara como "a melhor cabeça que o Estado-Maior produziu". Absteve-se porém de revogar as suas determinações.

As funestas conseqüências dessa atitude logo se manifestaram. O ataque dos tanques germânicos no Mius, iniciado a partir de 30 de julho, conseguiu eliminar rapidamente o rompimento soviético, porém a cabeça-de-ponte no Donetz não pode ser reduzida.

Combatendo furiosamente, as tropas de Malinovski se aferraram às suas posições e rechaçaram, um após outro, os desesperados assaltos das forças germânicas. A cunha aberta já não poderia ser fechada, pois Manstein se viu obrigado a deslocar apressadamente as suas reservas para o norte. Ali, a 3 de agosto, os exércitos de Vatutin e Konev puseram em marcha a ofensiva seguinte.

A segunda fase da ofensiva

Era a primeira vez na guerra que os russos se lançavam à ofensiva no verão, depois dos seus vitoriosos contra-ataques no inverno de 1941, diante de Moscou, e de 1942, em Stalingrado e no Cáucaso. O Exército Vermelho, nos anos transcorridos desde a invasão alemã, se convertera numa máquina bélica de extraordinário poderio. Sua superioridade sobre a Wehrmacht era esmagadora.

Integrada por milhões de soldados veteranos e conduzido por generais de capacidade e inteligência comprovadas, recebia, das fábricas situadas além dos montes Urais, uma corrente gigantesca e incessante de acessórios e armamentos. Em 1943, os soviéticos fabricaram mais de 35 000 aviões de todos os tipos, 16 000 tanques pesados e médios, 3 500 leves e 4 000 canhões autopropulsados. Ao todo, de peças de artilharia e morteiros, alcançou a cifra de 130 000 unidades!

Contra essa massa impressionante de homens e materiais, a Alemanha nada mais poderia fazer. Hitler subestimara o poderio soviético e pagava agora o seu erro com a derrota. O, ditador, porém, resistindo furiosamente a admitir o seu fracasso, obrigaria a Wehrmacht a continuar desgastando-se nessa luta sem esperanças. Manstein definiria, com exatidão, a absoluta esterilidade do sacrifício: "Estávamos diante de uma hidra capaz de fazer surgir duas cabeças de cada uma que lhe amputássemos...".

Com o correr dos dias, a ofensiva soviética aumentava de intensidade. Ao norte, no setor de Orel, as tropas russas convergiam de todas as direções sobre a cidade, num avanço esmagador. Os alemães corriam nessa área o risco de serem cercados e exterminados a curto prazo. O Marechal von Kluge, depois de desesperados apelos, conseguiu que Hitler se dignasse a ordenar a retirada parcial dos forças. Assim, a 26 de julho, a determinação foi comunicada ao General Model, que imediatamente iniciou a retirada, incessantemente acossado pelos tanques e pela aviação soviética.

No dia 5 de agosto, os tanques vermelhos irromperam pelas ruas cobertas de escombros de Orel, onde ainda resistiam grupos emboscados de atiradores e unidades germânicas de retaguarda. A reconquista dessa cidade, a que se somou a de Belgorod, libertada nesse mesmo dia, foi celebrada com imenso júbilo em toda a Rússia. Stalin emitiu uma ordem do dia ordenando que se disparassem na Praça Vermelha de Moscou salvos de artilharia, comemorando a vitória. Existiam motivos bastante que justificavam a celebração. Em toda a frente de combate, os exércitos vermelhos avançavam irresistivelmente.

No sul, os soviéticos haviam desencadeado seu ataque a 3 de agosto: Milhares de homens, apoiados por poderosas formações de carros blindados, irromperam através das linhas defendidas pelo IV Exército Panzer e pelo VIII Exército alemão, abrindo uma ampla brecha de 55 quilômetros entre essas duas forças. Assim, ficava plantada uma ameaçadora ponta-de-lança em direção ao Dnieper.

Manstein foi obrigado à distribuir imediatamente as suas escassas reservas: duas divisões de tanques SS, três Panzer e uma de Panzergrenadier, para que golpeassem ambos os flancos da cunha soviética. Estas unidades, porém, dizimadas nos combates anteriores, não possuíam mais suficiente poder combativo para constituir uma força à altura da missão que lhe haviam confiado.

A 5 de agosto caia Belgorod e os russos continuavam o avanço, superando, uma após outra, as posições defensivas germânicas. No dia 11, os exércitos de Vatutin alargaram a brecha. As unidades de vanguarda cortaram a linha férrea Karkov-Poltava. Cada hora que transcorria, a situação dos alemães mais se agravava. As tropas da frente de combate da estepe, do General Konev, se juntaram então ao ataque, e arremeteram sobre Karkov. Nessas circunstâncias, o Fuhrer emitiu uma de suas características ordens de resistir até o fim, e impedir que a cidade caísse nas mãos dos russos. E novamente a situação superou os seus desejos. Conforme declarou um chefe alemão: "A manta era muito curta, em qualquer posição. Não existiam forças suficientes para cobrir os claros que se produziam constantemente".

O I Exército Blindado foi lançado por Vatutin para o sul, a fim de apoiar o ataque de Konev contra Karkov. As tropas alemãs que defendiam a cidade estavam, portanto, expostas à ameaça de um aniquilamento imediato. Mediante um violento contra-ataque sobre o flanco das formações blindadas russas, o IV Exército Panzer conseguiu deter o avanço e rechaçá-las novamente para o norte, após uma semana de combates de furiosa intensidade. Este êxito deu aos germânicos uma pausa para respirar. Manstein decidiu então aproveitar essa oportunidade que não voltaria a repetir-se. Passando por cima da ordem de Hitler, deu ordem à guarnição de Karkov para retirar-se apressadamente, rumo ao oeste. A 23 de agosto, ao meio-dia, as tropas vermelhas se apoderaram da cidade que o Fuhrer havia ordenado defender a todo custo.

As forças germânicas, retirando-se, conseguiram estabelecer uma precária linha defensiva, mais para o oeste. No setor meridional, porém, as tropas do General Tolbuchin reativaram os seus ataques e conseguiram irromper profundamente nas linhas germânicas. Diante disso, Manstein decidiu exigir de forma terminante que lhe fornecessem maiores reforços ou que lhe concedessem liberdade de movimentos para retirar suas forças da nascente do rio Donetz. Nesse sentido, enviou uma mensagem ao Alto-Comando alemão, expondo com absoluta crueza a gravidade da situação. A resposta a essa nota se traduziu na viagem de Hitler, do seu posto-de-comando, na Prússia Oriental, até a cidade de Winitza, na Ucrânia, para conferenciar pessoalmente com Manstein. Na entrevista, que se efetuou a 27 de agosto, Manstein, acompanhado por seus principais subordinados, expôs claramente ao Fuhrer a necessidade de evacuar a bacia do Donetz, no caso de não ser possível arranjar reforços rapidamente. O chefe alemão lembrou que seu grupo de exércitos sofrera, nas últimas ações, mais de 130 000 baixas.

Haviam sido enviados à frente apenas 30 000 homens para substituí-las. As unidades estavam praticamente dizimadas, sem que os claros fossem cobertos. A resistência, portanto, nas posições determinadas por Hitler, era impossível.

Tomou então a palavra o Fuhrer, e declarou em tom inflamado: "Apesar de todas as dificuldades, temos que nos manter firmes em todas as posições, até que os russos se convençam da inutilidade dos seus ataques". Prometeu enviar, também, como reforço, todas as unidades que pudesse retirar das demais zonas da frente oriental. Mais uma vez, a conferência chegava ao fim sem que a questão fundamental ficasse resolvida: a imediata retirada geral ao longo da frente sul, até a margem oposta do rio Dnieper. Somente esta retirada permitiria aos germânicos encurtar suas linhas para conseguir uma concentração adequada de forças. A intensificação dos ataques russos, finalmente, impunha aos alemães a adoção dessa medida.

Em ondas irresistíveis, os soviéticos penetraram nas linhas do VI Exército germânico, através de numerosos setores e cercaram um de seus Corpos contra a costa do Mar de Azov.

Manstein tentou em vão fechar a brecha, enviando duas divisões que mantinha em reserva, porém não conseguiu deter o avanço russo. Chegara o momento de tomar uma decisão definitiva. Manstein, apesar das severas determinações de Hitler, não vacilou. A 31 de agosto, afinal, ordenou às unidades do VI Exército retirar-se para o oeste, até alcançar uma posição defensiva provisória, que fora levantada na retaguarda.

A noticia do movimento chegou ao quartel-general de Hitler e este se viu obrigado a aceitar a manobra que lhe fora imposta. Enviou então uma comunicação a Manstein, no qual o autorizava a retirar, paulatinamente, as forças do setor sul. Assinalava, não obstante, sua oposição a abandonar o terreno conquistado, e que a retirada se efetuasse quando a situação "exigir a medida como indispensável e não restar nenhuma outra possibilidade". Esse argumento era a última expressão da sua obstinada decisão de manter nas mãos a bacia do Donetz. Para conservar essa zona que considerava vital, o Fuhrer colocara os seus exércitos à beira da derrota total. Agora, em que pese os seus esforços, tinha que abandoná-la. Milhares de homens foram sacrificados em vão.

A ordem do Fuhrer chegou no momento preciso para evitar o aniquilamento das forças germânicas. Ao norte, por sua vez, criava-se novamente uma fonte de perigo de graves conseqüências, Redobrando suas investidas, as forças de Konev e Vatutin golpearam os Exércitos VIII e IV Panzer, ameaçando romper suas linhas mais uma vez. Renovava-se assim o circulo vicioso no qual os alemães estavam encerrados, sem nenhuma possibilidade de escapatória.

Apenas era solucionada, em parte, uma crise, e surgia outra, ainda maior. Convencido que teria que ser dado um "basta" definitivo a essa insustentável situação, Manstein viajou para o quartel-general da Prússia Oriental juntamente com o Marechal von Kluge. Desta vez a exposição dos chefes germânicos não se limitaria aos problemas imediatos da luta, mas abrangeria, também, o pedido de criação de uma chefia única, militar, que assumisse a responsabilidade da condução da guerra em todas as frentes.

O pedido tinha por objeto, na prática, subtrair das mãos de Hitler a direção direta das operações. Os resultados da entrevista, como era de esperar, foram totalmente adversos. Hitler se negou redondamente a autorizar a criação da tal chefia, declarando que o suposto novo chefe não conseguiria modificar, nem melhorar, a situação existente. Desta forma, a Wehrmacht continuou amarrada à orientação do Fuhrer, que já demonstrara, várias vezes, carecer de suficiente capacidade para tomar nas mãos uma tal responsabilidade. Sua "genialidade militar", proclamada pela propaganda nazista, se traduziria numa série de catástrofes irreparáveis.

A luta, entretanto, continuava violenta, ao longo da frente. No extremo sul, os soviéticos conseguiram abrir uma brecha de 45 quilômetros, suplantando as unidades do VI Exército germânico. Ao mesmo tempo, o General Rokossovski investia no ponto de união do Grupo de Exércitos Sul de von Manstein e o Grupo de Exércitos Centro de von Kluge. Era o temido rompimento do último dique defensivo. O caminho pare Dnieper ficava praticamente aberto aos soviéticos. Caso conseguissem aprofundar a penetração, separariam os dois grupos de exército alemães e estariam, então, em condições de cercar e exterminar as forças de Manstein sediadas no sul.

Hitler, numa nova reunião que manteve com Manstein, procurou adiar o inevitável recuo para o Dnieper, prometendo-lhe reforços que não enviaria. A crise assim se precipitava. . . Ao chegar ao seu conhecimento que os reforços prometidos pelo Fuhrer não lhe seriam entregues, Manstein compreendeu que devia agir imediatamente para evitar a catástrofe.

Toda a ala norte do seu Grupo de Exércitos ameaçava ser superada. Decidiu então adiantar-se aos acontecimentos e enviou imediatamente uma mensagem ao quartel-general do Fuhrer, comunicando-lhe que, diante do perigo que o avanço russo significava, não tinha outro recurso senão ordenar a retirada imediata, para a margem oposta do Dnieper, de todas as forças do flanco setentrional.

A análise das táticas militares que os russos usavam na região do Dnieper e que forçaram Manstein a recuar foram ataques precedidos por uma infiltração em grande escala de pequenas unidades e até de combatentes individuais.

Nesse tipo de luta os russos eram insuperáveis. A vigilância nas primeiras linhas germânicas era permanente e isso não impedia, contudo, que inesperadamente surgissem um ataque fulminante dos russos. Ninguém os via chegar e ninguém sabia quando chegavam. Nos lugares menos esperados, onde o acesso era incrivelmente difícil, ali os encontrávamos, já fortemente entrincheirados e agrupados em poderosas unidades. Na verdade, não era difícil para um soldado infiltrar-se individualmente, pois as linhas germânicas eram debilmente defendidas, os redutos eram poucos e estavam muito distanciados. Em média, o setor defendido por uma divisão era de vinte quilômetros. O fato surpreendente, porém, era que, mesmo estando todos alerta, dia e noite, unidades russas completas eram inevitavelmente encontradas muito na retaguarda das linhas germânicas de frente, com todo o seu equipamento e munições, e fortemente entrincheiradas.

Essas infiltrações se realizavam com uma habilidade incrível, quase sem ruído algum, e sem que se disparasse um só tiro. Tal tática de infiltração foi utilizada pelos russos em centenas de ocasiões, conseguindo grandes resultados.

Para enfrentar esse tipo de luta só existe um remédio: linhas fortemente defendidas, bem organizadas em profundidade, e continuamente patrulhadas por homens bem adestrados, com uma capacidade de combate superior aos demais e, o mais importante de tudo, reservas locais suficientes, prontas para entrar em ação ao primeiro aviso e repelir os incursores.

Outro método característico russo era formar cabeças-de-ponte em toda parte e a todo momento, para utilizá-las como trampolins em avanços posteriores. As cabeças-de-ponte em mãos dos russos constituíam um perigo seguramente enorme. É totalmente errado não preocupar-se com elas e não procurar a sua eliminação. As cabeças-de-ponte soviéticas, por pequenas e inofensivas que pareçam, podem estender-se até constituírem formidáveis núcleos de perigo, a curto prazo, para depois transformarem-se em redutos inexpugnáveis. Uma cabeça-de-ponte soviética, ocupada durante a noite por uma companhia, inevitavelmente, na manhã seguinte, está defendida pelo menos por um regimento. No decorrer de uma noite, os russos a convertiam numa fortaleza formidável, armada com artilharia e todos os tipos de arma necessários para convertê-la num reduto praticamente inatacável.

Nem sequer o fogo da artilharia podia eliminá-la. A única coisa que às vezes dava resultado era um ataque levado a cabo com todas as armas, de forma coordenada.

Essa tática russa de cabeças-de-ponte por toda a parte constitui um perigo sumamente grave e não deve ser subestimado. A contra-medida que os germânicos deveriam ter tomado era a de atacar, possuir decisão de ataque. Se uma cabeça-de-ponte está em processo de formação, ou uma posição avançada é estabelecida pelos russos, é preciso atacar imediatamente, atacar violentamente.

A vacilação será sempre fatal e a demora de uma hora poderá ter graves conseqüências; a demora de várias horas terá graves conseqüências; a demora de um dia causará uma verdadeira catástrofe. Mesmo quando se contar com um só tanque e um pelotão de infantaria, é necessário atacar. Era esse o papel que os germânicos deveriam tomar diante dos russos. Deveriam atacar os russos antes deles se entrincheirarem, atacar quando ainda podiam ver o inimigo e persegui-los, deveriam atacar os russos antes mesmo deles se organizarem e montarem suas defesas.

"A demora no combate eqüivale ao desastre. A ação resoluta e enérgica eqüivale ao êxito."

Major-General von Mellenthin

"As oportunidades em que os russos se mostraram fracos ante o fogo foram pouquíssimas e ninguém deve esperar que se repitam. Pelo contrário, é necessário sobrestimá-los com relação à coragem e resistência aos padecimentos".

Dessa forma não houve outra decisão a ser tomada que a retirada germânica. Em 15 de setembro de 1943, veementemente, Manstein expôs a Hitler a gravidade dos acontecimentos. Assinalou que o perigo que o ataque soviético representava já não se circunscrevia ao seu Grupo de Exércitos, mas que ameaçava estender-se a toda a frente oriental. Se os russos conseguissem aniquilar as forças germânicas, no sul, a guerra estaria praticamente perdida.

Manstein exigiu que fosse imediatamente enviadas quatro divisões do Grupo de Exércitos Centro para cooperar na luta defensiva frente a Kiev. Nesse setor se deveria realizar uma concentração maciça de forças, para conter a penetração russa.

Hitler, abatido, nada pôde responder, ante as expressões de Manstein. Suas habituais objeções careciam, nesse momento, de qualquer sentido e ele mesmo teve consciência disso. Agora, naquele recinto onde se acumulavam mapas de todas as frentes e onde o Fuhrer e seus principais assessores haviam planejado suas grandiosas campanhas de conquista, Hitler tinha que encarar a realidade, a crua realidade que lhe apontava o caminho da derrota. Não poderia repetir desta vez a ordem irracional que havia condenado a guarnição de Stalingrado ao aniquilamento. Sabia perfeitamente que uma vitória soviética frente ao Dnieper provocaria, a curto prazo, a derrocada total da resistência germânica em toda a frente russa.

Perderia, assim, não só os centros industrias e mineiros, em cuja defesa não só sacrificara milhares e milhares de homens como também o grosso da Wehrmacht. Nada mais deteria o avanço russo rumo ao oeste, rumo ao coração da Alemanha. Portanto, quando Manstein terminou a sua exposição, Hitler conformou-se com os planos do marechal alemão. A retirada para o Dnieper podia agora iniciar-se. Esta resolução, como todas as de Hitler, chegava demasiado tarde.

As forças germânicas do sul, distribuídas sobre uma frente de quase 700 quilômetros, teriam que marchar aceleradamente para o oeste e canalizar a imensa quantidade de homens e materiais sobre as cinco estreitas passagens que cruzavam o Dnieper. Essa operação complexa exigiria um esforço de organização do trânsito de comboios ferroviários e colunas de veículos rodoviários de enorme magnitude. Além do que, deveria ser complementada, por ordem de Hitler, por uma destruição sistemática do terreno abandonado.

Fábricas, minas, estradas, pontes, povoações tudo devia ser arrasado. Nada deveria ficar em pé. A sua chegada ao posto-de-comando, a 15 de setembro à noite, Manstein deu a ordem de retirada e ordenou por em marcha a tática de terra arrasada.

Essa tática foi adotada também logo após a Rússia ter restabelecido as relações comerciais com a Inglaterra, rompendo o bloqueio continental de Napolião. O líder francês resolveu então invadir o Império Russo. Foi assim que em 1812, com 600 mil homens, Napolião iniciou a invasão da Rússia. Numa ofensiva fulminante como aquela que sugeri que os germânicos usassem contra os russos na Segunda Guerra, Napolião derrotou os russos na batalha de Borodinos e conquistou Moscou. Nesse ponto os russos adotaram a tática de terra arrasada, recuavam destruindo tudo o que poderia ser utilizado pelo inimigo. Diante do rigoroso inverno russo, a retirada foi desastrosa, os soldados com fome, maltrapilhos, morriam em grande número.

Por ironia da História a tática de terra arrasada foi aceita ao iniciar a retirada rumo ao Dnieper, as tropas alemãs, expostas à ameaça de um rápido aniquilamento, recorreram a medidas extremas para paralisar o avanço das tropas russas lançadas em sua perseguição. Assim, o território situado a leste do Dnieper foi metódica e minuciosamente submetido a uma ação de devastação e pilhagem de proporções gigantescas, que o reduziu a um verdadeiro deserto selvagem.

Ao longo de todo o rio, e numa profundidade de cerca de 30 quilômetros, os alemães inutilizaram, destruíram ou levaram consigo todos os elementos que pudessem servir para a sustentação ou deslocamento das forças russas.

A destruição não se restringiu só aos elementos de aplicação militar direta. As fábricas foram desmontadas e se retiraram também as máquinas pesadas. Inundaram-se as minas e as instalações de superfície voaram pelos ares. Cortaram-se árvores e queimaram-se campos semeados. Milhares de fábricas, oficinas e depósitos foram desmantelados e incendiados. Milhares de cabeças de gado foram conduzidas para o oeste, assim como grandes carregamentos de minerais, cereais, e abastecimentos de todo o gênero. Decidiu-se, também, efetuar a evacuação forçada da população civil, obrigada a acompanhar as tropas alemãs na retirada.

Desta forma, milhares e milhares de homens, mulheres e crianças foram arrancados de seus lares e transportados em intermináveis colunas através dos caminhos poeirentos, numa dolorosa marcha pontilhada por centenas de criaturas abandonadas à margem das estradas, vitimas da fome e dos maus tratos. A gigantesca evacuação cumpriu-se em menos de quinze dias. A ordem de iniciar a retirada foi emitida na noite de 15 de setembro e a operação se concluiu com a chegada ao Dnieper de todas as forças germânicas, a 30 de setembro. Nesse lapso, mais de 2 500 trens, num incessante ir e vir, retiraram da frente uma imensa massa de materiais, equipamentos e armas. Além disso, também perto de 200 000 feridos foram evacuados.

Dessa forma, os alemães conseguiram interpor entre suas forças e as vanguardas soviéticas um verdadeiro deserto. A insensata destruição e o inútil sofrimento a que foi submetida a população da região não bastariam, contudo, para impedir que os russos continuassem o avanço.

Os soviéticos, por sua vez, se empenharam numa encarniçada perseguição ao longo de toda a frente. Não conseguiram, porém, impedir que as alemães alcançassem a outra margem do Dnieper. Acossados pela certeza de que em poucos dias seriam exterminados, os germânicos conseguiram completar em pouco tempo o gigantesco movimento logístico de retirada.

Os russos, decididos a não dar descanso ao inimigo em retirada, redobraram os seus ataques. As tropas do General Vatutin, cujo adjunta político era aquele que mais tarde seria primeiro-ministro soviético, Nikita Kruschev, arremeteram poderosamente sobre o Dnieper. Os tanques do III Exército blindado da Guarda se lançaram, na manhã de 20 de setembro, num irresistível avanço sobre o rio, e, em menos de 48 horas, cobriram a distância que os separava da margem.

Na noite de 21 para 22 de setembro alcançavam o Dnieper, a 120 quilômetros ao norte da cidade de Kiev. Sem deter o seu avanço, e valendo-se de toda classe de elementos, os russos cruzaram o rio imediatamente e estabeleceram na outra margem uma cabeça-de-ponte de 80 quilômetros de extensão. A linha do Dnieper sofria assim as suas primeiras rachaduras. Ao norte e ao sul, os russos continuavam a sua aproximação do rio.

A 23 de setembro, as tropas de Konev tomaram a cidade de Poltava, totalmente arrasada pela ação dos germânicos. Oito dias mais tarde Konev alcançou o Dnieper e estabeleceu uma nova cabeça-de-ponte. As forças de Malinovski e Tolbuchin, por sua vez, liberavam paralelamente toda a bacia do Donetz. No extremo setentrional da frente as forças do General Sokolovski reconquistaram a cidade de Smolensk, em poder dos alemães desde as primeiras semanas da invasão, em 1941. Assim, em fins do mês de setembro de 1943, o Exército Vermelho havia completado a libertação de uma imensa franja do território soviético. Os alemães, por seu lado, haviam escapado a duras penas ao aniquilamento.

 


Última alteração em 08-29-2006 @ 04:25 pm

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