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Espírito da FEB e Espírito de Caxias - 1 de 3
Inserido por: Coordenador
Em: 11-09-2006 @ 07:38 pm
 

 

Autor: Guillhaume

José X. Góis de Andrade, 1o Tenente da Reserva, Infantaria. Pernambuco, 1916. CPOR do Rio de Janeiro, 1944. Voluntário da FEB, embarcou com o escalão do Recompletamento de Pessoal, indo para o Depósito do Pessoal, e daí, transferido para o 6o RI, 7a Cia, durante o combate de Montese, assumindo, posteriormente, o comando do 3o Pelotão. Medalhas de Campanha e de Guerra. Advogado na vida civil.

DUAS MENTALIDADES.

Quando cheguei à Itália, senti logo que os soldados dividiam em dois o Exército Nacional: referiam-se à FEB como a um “novo Exército”, bem diferente daquele outro Exército que ficara no Brasil e que eles sempre ouviram chamar “Exército de Caxias”.

Esta divisão era mencionada, toda vez que os expedicionários estabeleciam comparação entre os métodos, costumes e princípios adotados no Brasil e os vigentes nos campos de batalha na Frente italiana..

Pretendemos analisar esta distinção, feita, aliás, em tom pouco lisonjeiro para o “Exército de Caxias”, buscando, ao mesmo tempo, uma explicação sincera e imparcial.

Adiantaremos que o Duque de Caxias – Patrono do Exército – não era bem interpretado e compreendido pelo soldado. Por quê? – Uma exaltação sem método psicológico fê-lo um símbolo inatingível. Os símbolos, embora alçados às alturas da glória, não devem perder a natureza humana que se identifica com aqueles a quem servem de paradigma. Do contrário, deixa de ser um símbolo pelo inatingível de suas qualidades, pela impossibilidade material de ser imitado.

Em todos os quartéis brasileiros, Caxias foi apresentado com um exagero tal que o homem comum não pode compreender. Para o soldado simples, cheio de fraquezas e falibilidades humanas, os traços da vida realmente predestinada do Duque de Caxias, aquela perfectibilidade realçada numa exaltação quase mística, tornou-se inimitável, inalcançável como símbolo. Surgiu o oposto do que se desejava obter: - Caxias era uma coisa impossível... Qual foi, então, o resultado? Todos nós o sabemos: para o soldado, “Caxias” é o oficial, o sargento, o praça exagerado, rigoroso em demasia. É o militar que vive com o dedo nos artigos do Regulamento, sem a tolerância da equidade. É o soldado “puxa-saco”, quando devia ser o contrário. Assim muitos dizem:

“Aquele tenente é um sujeito tesa” (isto é, rigoroso)

“Ah! Aquilo é um Caxias!”

Porém, não estará aí, a diferença notada e proclamada pelos pracinhas.

Procuremos, pois, a origem desta diferenciação que se fazia, entre FEB e o Exército Nacional, denominados o “Exército da FEB” e o “Exército de Caxias”.

a)patriarcalismo no exército.

O soldado brasileiro fôra sempre tratado com ares patriarcais. Velho hábito que vem dos primeiros tempos da nossa formação colonial, da escravidão.

Quem já morou no interior brasileiro ou nele nasceu, sabe que o “senhor de engenho”, o fazendeiro, o dono da terra, enfim, é uma espécie de comandante. Sua pose é militar. Sua palavra é um comando. O apelido de “capitão”, “major” e “coronel” substituía e substitui, ainda hoje, com menos freqüência, o nome próprio do senhor da terra. O de coronel, é presentemente, bem comum.

Além de serem esses títulos um substituinte do “doutor”, de tão grata importância – vício do bacharelismo – emprestam ao dono da terra uma ascendência hierárquica, uma posição militarizante. (Esta ocorrência não depende, somente, da antiga Guarda Nacional.)

Recordo-me das histórias que meu pai contava dos “capitães de mato” dos fins do Império, perseguindo os negros fugidos das senzalas. Ainda hoje, no Nordeste pronuncia-se com naturalidade um título militar mais modesto: - “cabo do eito” atribuído a um homem de confiança, que fiscaliza e comanda certo número de trabalhadores que de enxada em punho, avança pelo roçado a dentro, limpando a terra e abrindo as covas do canavial.

A nossa formação, desde a divisão das capitanias hereditárias, a forma de trabalho nos diferentes ciclos econômicos; a imensidão territorial desabitada; o vício escravocrata; as invasões vindas do mar; as penetrações pelas selvas virgens e povoadas de bugres e feras transformaram-nos em um povo de comandantes e comandados em que o cidadão é uma figura inexpressiva, e a liberdade menos um direito do que a tolerância do poder estatal. A nossa “revolução francesa” vem em golfadas de uma “tuberculose” que nem mata nem desaparece.

Cessada a escravidão, o trabalhador abandonado ao seu destino permaneceu tão rude, tão ignorante como o escravo. Manteve-se aquele aspecto militarizante de verdadeiros “Comandos Econômicos” cujo quartel era a “Casa Grande” e o alojamento, a “Senzala”. O dono da terra, comandante, protetor, autoridade e lei. Conservou-se, destarte, a herança do poder que esses senhores adquiriram (principalmente no Nordeste) desde o tempo das invasões e ataques de corsários, quando eles eram os chefes, os comandantes naturais dos habitantes. (Vidal de Negreiros, o lendário comandante da resistência à invasão holandesa no Nordeste, era um “Senhor de Engenho”). Dessas reminiscências ainda existem vestígios capazes de atravessar um século, no avanço da colonização futura dos sertões e florestas brasileiros.

Víamos, portanto, nos quartéis, o encontro dos mesmos elementos humanos de que constituíamos: o filho do “coronel” e os filhos dos trabalhadores, foreiros, agregados, respectivamente como comandante e comandados.

Do Império para cá, a liberdade fez progressos. O padrão de vida das populações em geral melhorou. Os direitos dos homens, mesmo em golfadas, vão se acentuando. Ninguém pode comparar a situação do lavrador e do operário de hoje com a de meio século. E isto não decorre do governo de “A” nem da bondade de “B”. É o fruto das necessidades humanas e o resultado de análises e divulgações de estudiosos. O Chefe do Governo em geral quando decreta estes direitos é quando toma conhecimento deles... É que a humanidade caminha para a frente.

No quartel, ontem  como hoje, defronta-se a Nação, tal qual ela é, com os seus vícios, suas virtudes, sua pobreza e seus costumes. E como um reflexo da vida civil, a disciplina nas casernas trazia a marca da disciplina coletiva. O poder do superior hierárquico, semelhante ao poder do senhor de terras. O elemento disciplinador dominante era o medo, o receio do castigo, o estabelecimento, enfim, de um modus vivendi desigual para uns e para outros; e condição de “senhor” e de subordinado com as suas regalias com as suas regalias e desvantagens.

Desta forma expulsamos invasores, construímos um império, mantivemos a unidade nacional, defendemos nossas fronteiras e erguemos cidades imponentes junto ao mar. Essa foi a realização do  passado. O presente não conseguiu, ainda, chegar a uma definição. Não logrou a libertação do homem da gleba, nem consolidou as liberdades dos cidadãos na formação de um poderoso Estado Democrático. (E o homem abandona a terra e caminha para o mar num movimento de retorno e se transforma em um problema citadino de desequilíbrio urbano e  político.)

Esse patriarcalismo nacional é causa e ao mesmo tempo efeito de uma pobreza. Ocioso seria trazer números e dados (nem o tempo me permite) que comprovassem a miséria coletiva dos nossos patrícios. A maior parte desconhece os elementos mais primários da vida civilizada, como o dentifrício, a escova de dentes, o papel higiênico, a água corrente, instalações verdadeiramente sanitárias. Já se disse que no Brasil nem os ricos sabem comer. A subnutrição e como resultado, as doenças (poder-se-ia dizer também: - e os remédios) oferecem esse quadro de um povo sem compleição física, aéreo, que vive de esperanças. (A esperança no jogo do bicho e na loteria, pode ser um índice de grande insatisfação popular. Da mesma forma a procura do êxito fácil, dos negócios rápidos, efêmeros e rendosos como uma loteria...)

O que poderia ser, então, o Exército Nacional? O Exército brasileiro? Um reflexo de seu povo, sem mais nem menos.

Foi, precisamente, ao vivê-lo e, depois, ao ingressar na Força Expedicionária Brasileira, que o pracinha sentiu as mudanças de ambiente, costumes, princípios e métodos. Mediu-os, comparou-os. E numa síntese, separou de um lado o seu conhecido “Exército de Caxias” e do outro uma fração desse mesmo Exército, que era a FEB, diferenciando-se daquele, como a sua escolhida, a sua  preferida, a eleita

Ao tentar uma explicação deste fato, procurei expor as razões desta diferenciação, dentro dos seguintes títulos:

I. Diferenciação técnica.

II. Diferenciação geográfica.

III. Diferenciação disciplinar.

IV. Conclusões.

DIFERENCIAÇÃO TÉCNICA.

a) Padrão brasileiro.

Qualquer exército reflete a vida de uma nação. O Exército Nacional é um centro de atividade, trabalhos, de luta de sofrimentos e decepções.

O homem ao chegar ao quartel é selecionado fisicamente. Mas, em geral, é um cidadão de um povo por se fazer e organizar. Os selecionados fisicamente, em larga percentagem, são analfabetos ou semi-analfabetos. A grande parte vai tomar contato com uma máquina, seu funcionamento, conservação e limpeza, ao empunhar um fuzil ou metralhadora. Vivemos nesta Era Atômica a Era da Enxada, do querosene, dos utensílios de barro (fogão, panelas, etc.). O padrão de vida é baixo. O índice de disciplina social, da educação, é aquém do médio. Não formamos , ainda, mesmo entre as camadas dirigentes, uma compenetrada consciência da Legalidade, isto é, do respeito verdadeiro à lei e seus ditames. O problema legal e moral surge a cada passo nas violências de autoridades na intervenção armada contra Governo legalmente constituído, no “sabe com quem está falando?”, na irresponsabilidade, na linguagem obscena, etc. É mal generalizado. Vivemos de aparências e nos irritamos se o estrangeiro ou um dos nossos comenta ou pretende terminar este sonho vicioso. Enganamos a nós mesmos, porque o estrangeiro sabe o que somos e o povo, ao contar a sua vida, a sua luta, o seu trabalho, em toda parte, reúne um repositório pessimista e deprimente.

Assim, o Exército ao receber o conscrito, tem que moldar antes um cidadão. Isto é um mal para aquele e para este. Para aquele, porque o militar faz do “paisano” uma idéia pouco lisonjeira. Para este, porque o cidadão de nível médio ou superior, ressente-se do Exército, do seu ambiente, da sua capacidade.

A convocação obrigatória, há de melhorar o nível humano do Exército. Entretanto, só o tempo poderá dizer do resultado final. Pois para cada jovem bem educado ou educado no seio da família, existem vários ao léu do seu destino, na promiscuidade das favelas, dos mocambos, das casas de cômodo e dos campos. Este fato já é por si um problema para a nossa educação e um impulso para a indisciplina social dos grandes centros urbanos do país. Demais, o cinema ao apresentar o outro lado da vida norte-americana, o rádio, e certa imprensa, sensacionalizam o crime, a brutalidade  os maus princípios divulgando uma ficção de folhetim mórbido, entre um povo que ainda está por se educar.

De qualquer  forma, a nação brasileira vai se encontrar nos quartéis mais democraticamente. Embora as Forças Armadas recebam pelos seus ministérios as maiores dotações orçamentárias do Brasil, elas vivem e trabalham num regime de carência e pobreza técnicas e materiais.

A instrução é mais empírica. Lembro-me de que para se tocar numa bússola era uma dificuldade. Para um tiro de morteiro, poucos eram os privilegiados. E assim por diante. Inútil será dizer que só se aprende uma arte ou ciência pela prática. E será preciso sabê-la, dominá-la completamente, de forma a ser exercida com eficiência, mesmo em situações difíceis.

A higiene, a alimentação e a instrução prática, são, por assim dizer, o “calcanhar de Aquiles” do Exército. Nos quartéis, contam-se anedotas que ainda recordo, refletindo estes ângulos. Às vezes são adaptações de outras talvez já publicadas, mas não resisto ao desejo de reproduzi-las:

“O recruta está de sentinela, com o espírito fervendo de instruções regulamentares, quando sente uma estranha coceira. Leva a mão à altura do peito e recolhe o “insubmisso” na ponta do dedo e depois de o examinar, tira o casquete e sentencia militarmente, conduzindo o “insubmisso” outra vez à cabeça:

- Vorta pra teu quarté, desertor!...”

Às vezes, é o praça velha a personagem do anedotário.

“Naquele dia, em que se comemorava uma data nacional, um bom coronel entrou, de surpresa, num rancho de praças e passou a observar a comida. De repente, um soldado, lá no canto, começou a dizer:

- Vixe! Tô cego! Não tô vendo nada!

- Todos se voltaram para o praça e o coronel, seguido do oficial do rancho, dirigiu-se para ele.

- Que é que tens, soldado?

- Tô cego, meu coroné!

- Você está cego?!

- Eu acho que tô. Porque eu sei que este pão tá mantegoso. Mas eu não vejo, meu coroné! Só posso tá cego!

Na anedota, o coronel compreendeu a piada e disse para o oficial:

- É preciso aumentar a manteiga no pão!

Com o advento de nova festividade, passados meses, o excelente coronel voltou a visitar o rancho dos praças. E ao chegar ali, dirigindo-se ao oficial perguntou-lhe:

- Onde está aquele soldado gaiato, que disse que estava cego?

O oficial que não se esquecera mais do “praça velho” mencionou logo o seu número, que o coronel “cantou”. Do lado de lá, o “praça velho” respondeu logo:

- Pronto, meu coroné!

- Você ainda está cego, soldado? Perguntou-lhe o coronel com um ar de riso.

- Não senhor, meu coroné. Eu agora, tô inté vendo demais.

E colocando defronte dos olhos a sua fina fatia de queijo, acrescentou:

- Eu tô inté vendo o meu coroné, daqui!?

Nos alojamentos, o parasita é um inimigo intermitente, porém, o que se  pode esperar de homens que vêm das favelas, dos mocambos, das casas de cômodos? Quem não sentiu, não uma, porém muitas picadas de pulgas nos cinemas – não digo do Interior – mas da Capital Federal? Por ventura as moscas não aparecem nos melhores restaurantes? Se assim é, por sua vez, o soldado não sente grande escrúpulos em se atirar de borzeguins sobre os cobertores, em momentos oportunos, e até com estes lustrar aqueles.

Que mal há em jogar as pontas do cigarro no pátio do quartel, na privada ou no chão? A prova é que as encontramos nos corredores das repartições públicas e nas áreas e terraços dos edifícios de apartamentos.

O cigarro não é nada. Pior é o escarro...!

O soldado tem justo receio da tampa da privada. Senta-se? Não. Pisa  sobre ela. Aliás, contaram-me que na antiga Escola de Guerra (na atual não sei) chama-se a isso, “ação de aeroplano”. Mas o leitor não conhece as privadas da maior parte dos nossos restaurantes? Das nossas repartições? Nunca escutou dizer que há quem se utilize das toalhinhas higiênicas dos lavatórios para brunir os sapatos?

Nos quartéis, os objetos de uso individual devem ser guardados em armários, trancados a chave. O furto é freqüente. Não se deve “dar sopa”, quer dizer, deixar as coisas à vista. O ato de furtar tem no quartel um nome mais tolerável, que é “desapertar”.

Mas eu conheço várias pessoas que se consideram de alta classe e que ostentam em suas casas, a título de curiosidade, coleções de objetos por elas furtados de hotéis, navios, restaurantes, etc.

Em Pernambuco, uma firma de renome nacional organizou uma festa em suas propriedades e convidou centenas de pessoas entre a nata social do país. Aos convivas apresentou o que de mais fino possuía.

Os prejuízos foram vultosos devido aos furtos de objetos domésticos de grande valor.

Se fossemos até à cozinha, em alguns quartéis, não haveríamos de gostar. Carne exposta... moscas... panos sujos... detritos... o diabo!... Também, eu não entro no interior de uma cozinha da maior parte dos restaurantes da cidade. É melhor não ver. Demais, de onde vêm os cozinheiros? A maior parte dos cozinheiros não acredita nem tem tempo para pensar em micróbios. Sujo é aquilo que aparece preto, manchado, escuro. Ora, se o micróbio nem se vê?... Que mal faz? Depois, a comida é feita em grande escala e não há aparelhagem modernas para lavar e esterilizar pratos, etc. E se houvesse, quantos meses funcionariam elas? Para um exemplo, bastam as portas dos elevadores: fecham automaticamente e por isso não devem ser forçadas. Poucos resistem à tentação de não deixá-las vir calmamente. Puxam-nas. E quando elas se relaxam e não fecham o jeito é esperar porque o elevador está parado. Mas ninguém imagina que isto é conseqüência da pressa em favor da qual se violentou a máquina. Pelo contrário, vingam-se do porteiro ou do elevador... É a ignorância que gera a indiferença e o desrespeito na utilização mecânica.

Voltando à higiene para termos uma idéia bem simples, basta lembrar que as marmitas dos soldados (e dos próprios cadetes) em manobra, eram “limpas”, esfregando-se nelas farinha ou areia... Este costume, visto com naturalidade pelos comandantes e médicos, era, com certeza, a causa dos constantes desarranjos intestinais nos acampamentos.

Certa vez, ouvi de um capitão que os desencontros e retardos ocorrentes nas manobras, eram testes para os oficiais e soldados. O bom capitão encontrou uma desculpa singular. Penso, todavia, que a origem era outra. O hábito, a repetição de um ato é que estabelece a prática. Nós somos empíricos, por deficiência técnica. É precisamente por isto que a improvisação nos domina. Cada cabeça, cada sentença; da disciplina social mecânica é que resulta o progresso, o movimento harmonioso, a dinâmica dentro de tal equilíbrio, em que cada um age como uma peça de máquina, sem excessos que superem a sua resistência, sem atritos que o desgastem, sem inércia que prejudique o movimento coletivo.

As deficiências do Exército são os reflexos das deficiências de toda a Nação. A falta de água, de transporte, de provimentos etc., em tempo e horas certas, não pode servir de teste, senão em determinados momentos já estabelecidos como experimento de iniciativa ou resistência física dos comandantes e dos comandados. Entretanto, ante as nossas deficiências naturais, estes testes precisam ser comedidos, porque eles virão por si mesmos na hora H... Se em simples treinamentos as coisas não andam e não chegam, no combate não andarão nem chegarão, porque o combate é por si mesmo a desordem, o imprevisto, a dificuldade. A resistência do homem tem limites, que ultrapassados resultarão em desgastes e no aniquilamento. Poupá-la, economizá-la, esperando sempre um momento posterior em que ela será exigida no máximo. Por isso é que o regulamento chega até às minúcias, do cuidado das meias limpas, das unhas aparadas, do repouso nas marchas, etc.

Lembram-me, agora, aquela noite de frio em uma acampamento na Colina da Torre (frio que em comparação com o da Itália era um grande calor...). Já era tarde e o soldado tentava, inutilmente, conciliar o sono. Não tinha manta para se cobrir. Mesmo naquela casas, entre paredes, ele se queixava:

- Não posso dormir desse jeito! Isto é um horror. Nem uma manta me deram!?

Do outro quarto, uma voz entrou em conversa com o soldado:

- Tá sem manta? Tome uma.

- E você tem?

- Tenho duas. Tome uma.

O praça foi apanhar o cobertor no quarto vizinho e mal-humorado disse:

- Eu logo vi! Uns com tanto e outros sem nada! Esta é boa!

E ficou cinzento, ao acender a luz, quando deu com a cara do Comandante...

b) Padrão americano.

Um dia veio a guerra e nós tivemos que atravessar o Atlântico para lutar pela primeira vez na Europa.

Começamos a aprender, às carreiras, princípios e regulamentos do Exército norte-americano dentro de cujos quadros íamos lutar. Chegou aquele momento em que, já orientados pelo sistema americano, e com uma interrogação nos sentidos, embarcamos em perfeita ordem, em um grande transporte de tropas.

Depois de alguns dias, em alto mar, o pracinha caiu em si. Sentiu no transporte americano, uma profunda diferença. Eles foram encarregados dos trabalhos das cafetarias, desempenhando-se daquele serviço, como se fossem velhos conhecedores do assunto. Tudo saia a tempo e a hora. Tudo limpo e perfeito.

Os alimentos que subiam por elevador do compartimento de baixo, eram completados, divididos e servidos a milhares de homens em levas sucessivas. Aquela “cafetaria” para não fugir à estandardização americana, era um “rancho” naval mais completo, porém, nos moldes do barracão de rancho dos acampamentos, descritos mais adianta: cafetaria e balcão de um lado e do outro as mesas-bancos desmontáveis. Em vez de pratos ou marmitas de campanha, dos soldados, estes recebiam uma bandeja onde estavam moldados recalques destinados aos diferentes alimentos e sobremesa. Essas bandejas eram guardadas de forma que a última ficava rente ao balcão, enquanto as outras – permaneciam abaixo no embutido. Uma mola as impelia para cima, porém qualquer que fosse o seu número, somente a última afloraria à superfície metálica do balcão.  Com os recalques, a bandeja valia por vários pratos, com a vantagem de ser um prato único facilmente adaptável como uma peça, à máquina que iria lavar e esterilizar simultaneamente com fortes jatos de água fervente. Estas coisas mencionadas por acaso ao correr do teclado e muitas outras que omitiremos, eram objeto da curiosa observação do nosso pracinha que via em tudo novidades: - ordem, asseio, rapidez, eficiência. Nem lhe faltava a água gelada, em bebedouros, as privadas limpas, o banho, as notícias pelo alto falante, música e cinema.

Viram, dali, surgirem os mingaus, os pudins, os sorvetes, o presunto, ovos, leite evaporado, com vitamina “C”, café... E deviam comer tudo, porque, com exceção dos que trabalhavam, eles só tinham duas refeições. E comiam mesmo, embora de manhã. Um ou outro estranhava aquelas entradas, logo cedo, principalmente o carioca, pois este está acostumado exclusivamente a média (café e pão). Um destes disse:

- Logo de manhã, “seu” tenente? E eu lá sou sabiá pra comer pirão de manhã?

Daí por diante, o pracinha ia ter grandes surpresas. Não só a neve, as terras estranhas, o inimigo e a guerra com as suas asperezas. Não lhe faltaria, porém, o conforto material, que a técnica prodigiosa dos americanos lhe haveria de proporcionar.

Uma das maiores preocupações do Exército americano, refletindo o poderio econômico de seus naturais, era precisamente o cidadão de quem ele recebia não só o corpo e o espírito, mas, os meios, através dos impostos. O estado, como um mal necessário que os cidadãos admitem e sustentam, tributa-lhes, à guisa de compensação, o máximo respeito e devotamento. Ouvi na Itália, que o lema dos americanos era este:

“Um homem só se consegue em vinte anos. Uma máquina em vinte minutos. Estraguem-se as máquinas, poupem-se os homens.”

Assim, tudo o que possa fazer a benefício de seu conforto, o Exército americano idealiza e, principalmente, executa com perfeição. Nem os seus cidadãos, vindos de um padrão de vida superior, admitiam o contrário. Naquele Exército, estavam todos. Generais e altas patentes perderam seus filhos em combate, muitos deles voluntários.

Poderíamos dizer, que esse lema dos norte-americanos sobre os homens e as máquinas, seria, ainda, uma face do seu utilitarismo. Melhor, porém, que admitamos terem eles, mesmo se apoiando no utilitarismo, chegado até o homem, para o proteger, instruir, elevar, respeitar. E esta crença na personalidade do homem e na sua liberdade, fundamentos da sua Constituição, espiritualiza-os. E talvez sejam eles mais espiritualistas do que os que vivem a exaltar o espírito do homem e menoscabar-lhes o corpo e as mesinhas.

Continuemos, entretanto, a penetrar esse mundo de surpresas, nesta parte denominada diferenciação técnica, entre o “Exército de Caxias” e a FEB.

Vejamos, por exemplo, um acampamento americano:

Seria um lugar comum dizer que o trabalho e organização americanos são padronizados. Tudo tem um sentido lógico. Se não existem limpeza e conforto sem água, ela deve aparecer nem que seja transportada em caminhões, o que só ocorria por amor das conveniências da guerra. Eles souberam imitar para melhor os recipientes de couro usados pelos árabes, fabricando-os de lona e armados como uma barraca. (O sertanejo nordestino usava, ou usa também, pequeno recipiente de couro chamado “surrão”.)

Um acampamento americano é um aldeamento que poderia servir de exemplo para nós em matéria de penetração colonizadora. Consideremo-lo uma continuidade de companhias até à unidade: batalhão ou regimento. Os barracões das companhias estão alinhados de acordo com a área digamos, em linha reta. Por trás desse alinhamento, passa uma estrada interna de serviço.  Para além, nos fundos desse alinhamento, máquinas trabalharam o terreno, aplainando-o e enchendo de pedras britadas. É o local de reunião de viaturas. Tomemos uma dessas companhias, a começar pelo seu barracão na linha da estrada interna, de trás do acampamento: - este barracão pré-fabricado, tem forma retangular sob o piso de cimento. Tem a armação de madeira. As paredes são de papelão alcatroado e adaptado a uma tela grossa. A cobertura tem duas águas e bem no centro se eleva um chalé com respiradouro telado. As portas são de madeira ou simples armação coberta e possuem molas que as mantêm constantemente fechadas. As trancas são de madeira, em forma de ferrolho. Nas paredes, a quase dois metros de altura, aberturas retangulares e em sentido longitudinal substituem as janelas; são fechadas com tela fina, o que permite a circulação do ar, entrada de luz exterior e  proteção contra insetos. O acampamento é iluminado a luz elétrica gerada por um motor a gasolina.

Podemos dividir, internamente, o barracão em duas partes: a primeira, de dois terços ou mais da área, ocupada por mesas-bancos – é o rancho. (Em outras horas é, também, local de trabalho dos oficiais e sargentos da companhia). Na outra parte que se separa da primeira por uma grade-balcão, está cozinha com três fogões a gasolina. A cozinha é servida por uma grande pia com água corrente. (Vi soldados americanos fabricando, no próprio local, uma dessas pias: - elas vem cortadas em uma folha única, porque como simples folhas de metal podem ser facilmente transportadas. No momento em que se quer transformá-las em uma pia, dobram-se as suas extremidades, como se  estivesse fazendo uma simples caixinha de papel. As junturas são soldadas a oxigênio. E eis a pia feita...) Na parte extrema da cozinha, comunicando-se com esta por uma porta com fechadura, está a despensa com as suas prateleiras para as provisões.

Na parte externa do barracão, na altura da cozinha, existe um piso cimentado em aclive, com uma bica, onde são lavadas as panelas-gavetas dos fogões e utensílios culinários. Ali mesmo, subterraneamente, está a fossa de gordura, onde se depositam os pequenos detritos arrastados pela lavagem na pia ou no piso em aclive, o que evita o entupimento das manilhas que escoam as águas servidas. Mais adiante, localiza-se a fossa de detritos, destinadas a recolher os restos de comida e as latas de conservas vazias, as quais eram previamente amassadas em um cepo.

Defronte desse barracão da companhia alinham-se, em duas fileiras, as grandes barracas de lona. Estas duas linhas de barracas formam, assim, uma rua central e perpendicular ao barracão, onde os soldados entram em forma para qualquer fim.

Na hora do rancho, por exemplo, toda a companhia, formada na rua central, dirige-se para o barracão, cada praça com a sua marmita e a caneca para o refresco. À proporção que vai entrando, o soldado recebe, no balcão da cozinha, a sua bóia e se dirige para as mesas-bancos. Terminada a refeição, cada um vai lavar a sua marmita. Dirige-se, primeiro, para um tonel ou fossa de detritos onde joga os restos dos alimentos. (Este tonel é logo recolhido.) Dali, o soldado entra outra vez em fila ante os três caldeirões de água fervente, onde concluirá a limpeza das marmitas. O primeiro caldeirão contém uma solução de água e sabão; o segundo, água clorada e o terceiro, água pura. As duas conchas da marmita e os talheres, presos pelos seus orifícios ao cabo-haste de uma das conchas, são mergulhados no primeiro caldeirão e esfregados com uma brocha ou bastão que tem panos presos na extremidade. (Esta brocha ou bastão não é anti-higiênica, porque deve estar sempre submersa na água fervente e não como nós já fazíamos: deixando-a de fora.) Depois de mergulhadas no segundo e terceiro caldeirões, as marmitas saem completamente limpas. Os talheres são colocados dentro das conchas que são fechadas por justaposição. A água dos caldeirões é aquecida por fogareiros a gasolina ou gás contido em tubos. (Jamais víramos tanta gasolina. Os nossos jeeps e caminhões encostavam nos postos americanos e o encarregado logo os enchia. Com ela funcionavam fogões, fogareiros, aquecedores d’água, motores para vários misteres. Quando eu fiquei, praticamente, com a responsabilidade do acampamento, em Francolise, onde estivera o 6o RI, com o Contingente “B”, recolhi, espalhados pelas barracas, e entregue ao capitão que nos veio comandar, para mais de cem camburões de gasolina. Aquela essência de cor avermelhada era como que o sangue de todos os movimentos.)

Esta prática de cada companhia cuidar do rancho, da cozinha e das provisões necessárias à mesma, tem na paz e principalmente na guerra, uma grande importância na alimentação dos soldados. São várias companhias a fiscalizarem o fornecimento. A comida, por ser em menor quantidade, sai melhor. E por fim, o comandante do batalhão pode aferir o grau de capacidade e qualidade dos alimentos, experimentando-os em dias alternados, o que resultará uma concorrência entre as companhias em favor do soldado.

Injustificável era e é a existência de duas alimentações diferentes – uma para os oficiais e outra para os soldados. Se o oficial não come a bóia do praça, como aferir-lhe o gosto e prestabilidade? A alimentação deve ser a mesmíssima.

O soldado brasileiro foi encontrar a novidade da alimentação comum a oficiais e praças, na FEB, ou melhor, com os americanos do norte.

As privadas do acampamento são construídas com o mesmo material dos barracões. As portas, como as destes, conservam-se fechadas por molas de aço. Possuem, também, janelas teladas e arejam e clareiam o seu interior. A privada, propriamente, é um grande e simples caixão com três ou seis lugares e respectivas tampas. O caixão é bem assentado sobre uma profunda fossa. Com o fim de evitar que se molhe o caixão, existe uma calha de papelão alcatroado, junto à parede, que se comunica com a fossa e que serve de mictório. As tábuas são lavadas com água, sabão e esfregadas com escovas que lá se encontram. Diariamente, um pó desodorante é posto na fossa e nas calhas, retirando-lhes todo o mau cheiro. (Este desodorante estava presente, mesmo nos avanços da tropa.) O papel higiênico, em quantidade, era o da melhor espécie, superior ao que se usa comumente no Brasil.

No acampamento há, também, banheiros com água fria e quente para todos. Os chuveiros abrem-se no puxar de uma corrente, de forma que, ao ensaboar-se, o soldado é obrigado a soltar a corrente, o que resulta no fechamento automático da torneira, economizando-se, destarte, a água. O aquecimento é feito por um aquecedor a gasolina, regulável à vontade, enquanto um pequeno motor, posto a funcionar no momento, pressiona a água.

Estes banheiros eram feitos com o mesmo material dos barracões. Seu piso é, também, cimentado, existindo, outrossim, um grande estrado de madeira, bancos laterais, cabides para roupa.

Nos acampamentos não há água estagnada, nem papéis, nem ponta de cigarros. Esta deve ser rompida pelo fumante, que sopra o fumo, e o pequeno papel é transformado entre os dedos numa bolinha tão insignificante que não chega para sujar os pátios.

Nas zonas suspeitas de malária, os soldados recebem mosquiteiros, um líquido para o rosto e mãos, líquido que repele os mosquitos, além de pílulas de atabrina, que deve ser tomada diariamente. Tubos de gás com DDT são encontrados no rancho, nas privadas, nos banheiros e nas barracas. (Cada um desses tubos, dos pequenos, era vendido aqui no Brasil, logo após a guerra, a Cr$ 100,00). Além dessas preocupações  há placas avisando: DANGER – MALARIA (Perigo – Malária). Nas caixas de fósforos, no envoltório de certos conteúdos das rações de combate, havia instruções sobre o mosquito como transmissor da malária e os cuidados que devem ser tomados, principalmente ao amanhecer e ao entardecer.

Entretanto, sobre malária, tenho a seguinte recordação: - quando o 6o RI, deixou o acampamento de Francolise como a primeira tropa que regressava ao Brasil, eu fiquei, praticamente, como comandante do Contingente “B” ali deixado à última hora. (Nesta ocasião eu tive a minha maior experiência de comandar e disciplinar uma tropa heterogênea e mal satisfeita, com a responsabilidade de todo um acampamento de regimento cheio de material e invadido pelos italianos, cabendo-me protegê-lo, limpá-lo, sob o maior calor que já senti em minha vida). Verifiquei que ao partir o regimento, os mosquiteiros haviam sido recolhidos e a tropa estava sem proteção contra os mosquitos. Foi uma luta para conseguí-los. Fui eu mesmo buscá-los na intendência e os trouxe sob a minha responsabilidade pessoal, distribuindo-os. Antes de partir, recolhi-os e os devolvi.

Como surgissem mosquitos e houvesse um menor italiano doente de malária num raio de trezentos metros de onde estávamos, tomei as providências que me cabiam, comunicando o fato ao QG. Um dia, apareceu um médico no seu jeep, tomou apontamentos e examinou o menor. Ou porque os italianos pedissem para não levar o menor ou porque não houvesse um lugar para onde levá-lo, após tomar as anotações, o médico retirou-se e o doente lá permaneceu até que nós embarcamos.

No acampamento, existe, ainda, além de serviço telefônico, alto-falantes que transmitem toques de corneta já gravados em discos, noticiários, ou se for oportuno, músicas.

A quantidade e variedade do material são extraordinárias. Duvido que exista no Brasil casa de gêneros alimentícios e outros artigos, que os possua em variedade e qualidade como os provimentos do Exército americano. Principalmente a qualidade causou-me admiração. Tantos os fornecedores do Exército como os responsáveis pela aquisição, são dignos de elogios. Sim, porque provisões de toda a espécie para quase doze milhões de combatentes norte-americanos e outros milhões d aliados, não são nenhum brinquedo.

Tudo era do melhor. E não havia distinção entre oficiais e soldados. Diariamente recebiam estes, um maço de cigarros americanos dos mais finos, “chiclets” , chocolate e fósforos.

Quando nós e nossos pracinhas começamos a receber blusões, field-jacquets, ceroulas compridas de lã, meias, luvas de lã ou couro, etc., deixamos de lado as peças correspondentes que leváramos do Brasil. Que acabamento! Nós havíamos recebido uma espécie de sobretudo de lã, pesadões à chuva e ao frio. Se chovia, encharcavam-se, tornavam-se pesados como chumbo. As conhecidas “japonas”. O field-jacquet, era um blusão bem apertado à cintura, revestido de lã por dentro e impermeável por fora; com um fecho eclair e além deste, botões; as mangas podiam ser abotoadas no pulso tornando-se bem apertadas; a gola protegia bem o pescoço. Eram amplos e leves. Com os pulsos, a cintura e o pescoço bem ajustado. Impermeáveis, prendiam o calor do corpo, aquecendo. Quem teria dúvida em encostar a “japona” para um lado? As costuras das nossas roupas eram fracas. Quem pregou os botões de nossas fardas, há de ter pensado que o infante, ao chegar na Itália, transformar-se-ia numa matrona respeitável em  viagem de descanso. E que, ao sentar-se sob os pinheirais, à falta de lã para o tricô, gostaria de pregar botões... Realmente, vi um dia com justificado mal-estar, caírem de uma vez, quatro botões de braguilha. É verdade que nós levamos um estojo de costura com tesoura, agulhas, botões e linha. Mas convenhamos que o infante tem muita coisa com que preocupar-se, para toda a hora viver pregando botões ou costurando os fundos da calça. A intendência deveria examinar as costuras e os botões das peças americanas, bem como a qualidade dos fechos-eclair das malas de lona. Ou os brasileiros são feitos para se abrirem por si mesmos? Assim já é ser muito aperfeiçoado... Nem oito nem oitenta...

Voltemos ao acampamento. A cozinha era bem aparelhada. Desde os utensílios dos mais variados, como  facões, facas, machadinhas, abridores de lata, etc., até as mais diversas farinhas, óleos, gorduras, carnes de vários tipos, ovos em pó ou frescos, café, açúcar, feijões (havia uma conserva de feijão e carne enlatados, meat and beans, com que os nossos cozinheiros preparavam uma sopa a que os soldados, aportuguesando o nome chamavam de “mitibina”), presunto, queijo, manteiga, geléias, compotas de  pêra e  pêssego das mais deliciosas que já experimentei, salada de frutas enlatadas, avelãs, castanhas, nozes, tâmaras, laranjas (até bananas de Tenerife), balas e caramelos, chocolates, amendoim confeitado ou torrado, manteiga de amendoim, leite evaporado com vitamina “C” que era um creme delicioso, farinha de aveias, ou de cereais, sucos de tomate ou de vegetais, refrescos em pó, café enlatado vindo dos Estados Unidos, cervejas em lata, etc. Uma vez ou outra aparecia galinha ao molho pardo, congelada, excelente pitéu. Pelo Natal houve peru. Parecia um desperdício.

Naturalmente, houve oportunidade para os que apreciam esses momentos de fartura. Mesmo que não tivesse chegado para nós tudo que o soldado americano gozava – e muita coisa não tivemos – o soldado brasileiro, acostumado a uma vida de carência e apertos, nem deu pela falta.

Uma senhora brasileira, que estivera nos Estados Unidos durante a guerra, contou-me que tivera a impressão de que os soldados americanos eram umas criancinhas, filhinhos de papai... Isto porque em toda parte era só em que se falava: - caramelos para os soldados, distrações para os soldados, isto para os soldados, aquilo para os soldados.

Ela nem sabe com que conforto eles lutaram e como souberam lutar. Os sacos de  dormir, as peles para o frio, os fields-jacquets, os blusões, os calçados, as galochas de neve, os campos de descanso, os teatros e cinemas, estes exibindo em primeira mão, filmes novíssimos; o alicate de unha, os fogareiros de campanha, os aquecedores, sabonetes, pentes, lâminas de barbear, cremes... As cantinas de retaguarda, vendendo tudo pelo preço de custo. Os hotéis com flores e música. Os campos de descanso onde o soldado entregava as suas vestes sujas e recebia outras limpas. E isto, indistintamente para oficiais e soldados, pretos, brancos e amarelos. Era sempre o mesmo lema:

- Estraguem-se as máquinas, poupem-se os homens!

Mas o povo e Governo americanos estavam certos. Aquele, pagou duros impostos, trabalhou dobrado, sofreu de verdade o racionamento, mas sabia que os filhos e filhas espalhados pelas cinco partes do mundo, eram bem tratados. Naqueles suprimentos, naqueles caramelos, naquelas tâmaras e doces, no peru do Natal, estavam o afeto materno da Nação ansiosa pela sorte do sangue do seu sangue. E por melhor que seja, a guerra é sempre a guerra. Não há conforto que possa suprir a perspectiva da morte a cada  passo.

Não falo da guerra, da luta, dos avanços e dos abrigos dentro da neve, do frio cortante entrevando os membros (muitos perderam as pernas congeladas, nos chamados “ pés de trincheira”), das rajadas das metralhadoras, do tossir trágico dos morteiros, das arrancadas montanha acima sob o espoucar das granadas, da mina invisível e traiçoeira, pronta a explodir no apanhar de uma arma inimiga, no abrir de uma porta, no simples caminhar!...

Pode ser dito que tudo isto é um simples dever do cidadão. Direi, porém, que há ocasiões em que o dever é tão difícil de ser cumprido, tão doloroso e cruel, que não poderemos deixar de ver com respeito aqueles que o cumpriram. Aqueles que deixaram as suas cidades, os seus negócios, e interesses, a sua família e as comodidades da civilização, o que só podemos apreciar, realmente, quando bem longe delas.

Depois, não há dever mais terrível do que enfrentar a morte! Não se trata, porém, da morte certa, determinada, rápida, com despedidas e últimas vontades de quem praticou um crime, ou de quem, sem forças,  sem saúde, não tem outro remédio. Refiro-me aos que, cheios de vigor, em geral escolhidos dentre os melhores e mais saudáveis, os mais fortes e cheios de vida – vão enfrentar a morte sem hora marcada, durante horas, dias, meses, que são eternidades!

Razão teve o povo dos Estados Unidos. Corretamente agiu o seu Governo. As altas patentes do Exército cumpriram à  risca a vontade ambos. Sim porque é de admirar que em tão descomunais fornecimentos de provisões e materiais, tivesse havido tamanha honestidade na fiscalização e as indústrias fornecessem precisamente o melhor, o mais perfeito de suas produções.

O povo dos Estados Unidos esteva à  altura do valor dos seus filhos. Vale a pena lutar por quem é capaz de compreender o preço de tamanho sacrifício.

É preciso que se diga, que todos esses alimentos eram exclusivamente americanos. Seria desnecessário dizê-lo. Entretanto, é bom esclarecer este ponto, porque a grande falta de tudo existente no Brasil durante a guerra, era justificada muitas vezes com a FEB...

Para se dizer a verdade, dos próprios presentes que famílias e organizações de senhoras patrióticas nos enviavam poucos chegavam ao seu destino. O cigarro brasileiro eu o vi no fim de tudo, após o desaparecimento inexplicável dos cigarros americanos. Mas a tropa recusou os nossos cigarros e tempos depois, tornaram a aparecer os de fabricação americana. (Quando isto ocorreu, surgiram boatos de quadros italianos eram comprados com cigarros... Um maço de cigarro americano era vendido à população por quatrocentas liras.)

c) Contato com o Hospital americano.

Esse cuidado do americano com o homem eu fui encontrar em outro setor: - o Hospital. Fui para um isolamento onde encontrei perto de cem soldados brasileiros. O comandante americano mandou e num instante foi improvisado dentro da própria sala um compartimento que passou a ser um quarto meu e de outro oficial. Diariamente colocava-se ali um rádio para nós e que só era retirado à noite. Pude apreciar a ordem, a limpeza e principalmente o trabalho metódico, sem exibições, sóbrio e disciplinado das enfermeiras americanas (duas tenentes), dois ou três sargentos comandados por elas e o capitão que fazia as visitas médicas todo dia. Diariamente às mesmas horas, os mesmos serviços eram feitos com exatidão. Desde a limpeza da sala, o forrar das camas, a observação dos doentes, até à alimentação. Reunidos ali estávamos pretos e brancos. Entretanto, apesar da separação racial do Exército americano, aquelas enfermeiras tratavam os nossos soldados de cor com uma dedicação de irmã de caridade. E quando um soldado daqueles deixava de alimentar-se, por fastio absoluto, elas já tinham anotado e, no dia seguinte, ele tomaria soro na veia. Fiquei, certa vez, a contemplar uma delas aplicando massagem em um nosso soldado preto e considerei como elas levavam a sério a sua missão desinteressada e extraordinária de enfermeira.

Quando eu e o aspirante Hilto chegamos lá, esses soldados estavam entregues a si mesmos. Ninguém falava português. Se bem que houvesse enfermeiras brasileiras ali, naquele hospital, ninguém foi lá.

Eu próprio senti a diferença enorme. Passei nesse hospital uns seis dias, por ter contraído caxumba. Mas as enfermeiras americanas notaram logo que eu estava com uma forte bronquite, resultante de um banho que, de quente se tornara gelado, ainda em Nápoles. Muitos camaradas que não passaram por esta, contraíram pneumonia. Eu apanhei somente uma violenta gripe e fiquei  penalizado dos outros. A filosofia chinesa, ensina todavia, que não sabemos quando um bem é um bem ou um mal um mal... Pois os que tiveram pneumonia, tratados a penicilina, restabeleceram-se imediatamente, sendo encaminhados à famosa estação de Monte Catine, e voltaram de  lá gordos e com a pela luzidia. O fastio, a tosse e por vezes a febre me arrasavam...

Entretanto um médico brasileiro (deve ter sido uma dessas infelizes exceções), gordo e balofo era indiferente à minha tosse à minha febre. Dizia que não era nada e me dava umas pílulas de codeína... Se me tratava assim, como trataria os soldados? Jamais tive tamanha repugnância por um semelhante.

Quando senti a dor num lado do rosto e fui me queixar ao sargento enfermeiro de que a tosse estava me arrebentando um ouvido, o sargento disse logo: - É caxumba, tenente! Pensei que fosse o complemento da desgraça. Em cima de queda, coice! Mas foi a minha felicidade... Naquele dia, quando ia apresentar-me atrasado, por ter ido consultar o enfermeiro, o coronel estava medonho, pregando no momento, um sermão aos oficiais. Quando viu que chegava, parou e veio furioso. Eu seria o bode expiatório. Mas quando lhe comuniquei que estava com caxumba, ele recuou e disse: - Vá embora, por favor! Fique na barraca! Fique na barraca! Já havia mais de cem. Ele  temia o contágio de todos. No dia seguinte eu estava no hospital... Ao notarem a minha tosse, as enfermeiras americanas tomaram conta de mim. Fui visitado e examinado cuidadosamente por um médico, também americano. Tomavam a minha temperatura três vezes por dia e em horas certas davam-me remédio. Aqueles seis dias entre os americanos foram a minha salvação. Que diferença!

Uma das enfermeiras fez questão de aprender várias frases portuguesas a fim de ser compreendida pelos nossos soldados: - Já arrumou sua cama? Está melhor? Etc. O “arrumou”, por mais que eu fizesse, era como se fosse escrito com um “r” só... E veio contar-me satisfeitíssima, que os soldados estavam entendendo o “seu” português...

De outra feita, ficamos malucos para saber o que elas queriam de nós. Andavam às voltas com um pracinha nosso. No meu pobríssimo inglês, compreendi que elas desejavam que ele fosse imediatamente a um lugar naquele mesmo momento. Elas não podiam sair dali. Entendi tudo, menos o lugar. Só depois vim a saber que era o Raio X, que em inglês dito invertido me parecia uma palavra estranha.

Todo o interesse que tomamos pelos nossos soldados, não passou despercebido ao Comando do Hospital. Nós cumpríramos, apenas, um dever não só  como oficiais, mas como brasileiros. Conversando com eles, animando-os, contribuímos para a disciplina na hora dos exames médicos e no cumprimento do silêncio noturno. O comandante americano teve conhecimento desses fatos e quando íamos partir, veio pessoalmente despedir-se de nós e dizer que tinha apreciado muito a nossa colaboração. Confesso que fiquei satisfeito. Até aquele momento nos acostumáramos a ouvir somente arengas e recriminações. A começar do dia em que fui tirar a carteira de identidade para embarcar do Brasil. Desde que chegara ao quartel brasileiro, não tive mais tempo para nada: redigir telegramas, ofícios, receber tropas, fazer isto e apanhar o material na intendência, etc. Dormia no quartel. (Lembro-me que pulverizei o quarto, lençóis, colchões com tanto inseticida que tudo ficou branco! Quando eu me virava na cama, subia uma nuvem de pó!...) Os poucos momentos de folga, tão rápidos, mal davam para liquidar os meus negócios, em que estavam em jogo interesses alheios. Quando cheguei ao Quartel-General para apanhar a minha carteira de identidade e disse que tinha urgência, pois poderia embarcar a qualquer momento, o oficial superior, irritadíssimo, perguntou-me:

- Por que não veio antes?

Expliquei-lhe tudo.

- Negócios particulares, não é? Pois saiba: - a Pátria está acima de tudo! Primeiro a Pátria! E se remexeu nervoso na cadeira. Fiz um exame de consciência para saber se, abandonando as minhas comodidades, os meus interesses, para ir lutar no outro lado do mar, não estaria servindo à Pátria. Deus seja louvado! Se aquele oficial tivesse uma causa em minhas mãos, grande parte do seu patrimônio em jogo e eu saísse daqui sem entregá-la a outro advogado de confiança, sem explicar toda a marcha do feito e os estudos já concluídos, ele haveria de me chamar irresponsável. Mas, pimenta na boca dos outros é refresco...

Voltando, porém, ao hospital. Ao lá chegar,  tinha levado na minha bolsa de lona (o “saco B”) o que havia de mais importante, com o justo receio de que me “desapertassem”. Na entrada, porém, os americanos tomaram tudo para guardar e desinfetar. Até a farda que levava tive que entregar. Fiquei só de pijamas. Recebi um robe de chambre, por  sinal muito bom, escova de dentes, sabonetes, etc. Verifiquei, posteriormente, que o sistema era aquele. Achei graça em ver os nossos pracinhas e todos os doentes, metidos naquele “peça” com ares de grã-fino!...

E quando chegou o dia de deixar o hospital, pois não é que as minhas coisas estavam lá, todinhas!? Em compensação, quando terminou a guerra, o intendente me entregou o mesmo “saco B” e mais outro, abertos. Explicou-me que o “fecho eclair” não prestava e se abrira. O fato é que as melhores peças não estavam mais. Enfim, o saco estava muito apertado e por isso resolveram o problema desapertando-o...

d) A vida na linha de frente.

Antes de abandonarmos o hospital, o Capitão-Médico americano nos explicou que não deveríamos pegar em peso, nem subir ladeiras durante alguns dias, devido a certas conseqüências que a caxumba pode ocasionar no homem. Não sabia disto. Pois bem: mal chegamos de volta ao Depósito do Pessoal, de péssima lembrança, tivemos ordem de seguir para a frente. Nós não havíamos feito nem estágio para 2o Tenente nem curso de espécie alguma. Entretanto, no Depósito estavam perto de 200 oficiais. Eu desconhecia por completo o armamento americano, nem sabia desmontar as suas metralhadoras, pois estudáramos sempre a Hotchkiss (francesa) e a Madsen (dinamarquesa). Confesso que fiquei preocupado, não pela minha morte, mas pela vida dos que ia comandar e pelo êxito da missão que me fosse destinada. Eu sempre imaginei um oficial apto a fazer qualquer coisa melhor do que qualquer dos seus soldados. Assaltavam-me a dúvida. Enfraquecido como estava, seria capaz de impulsionar o meu pelotão na escalada de uma montanha acima? Nem um relógio eu possuía. O meu, na véspera do embarque, arrebentara-se no assalto da multidão num trem da Central. Na Itália, embora me dissessem que os americanos haviam fornecido relógios automáticos, não os encontrei. Ainda tentei comprar no comércio italiano, porém custava, um relógio qualquer, cerca de vinte mil liras, ou sejam quatro mil cruzeiros. Caro de mais para minhas posses, na ocasião.

Mas, outra surpresa me aguardava. O front é o front. Ali os homens tornam-me mais simples, mais objetivos, mais amigos, mais solidários. O “farol” está na retaguarda. Até nas roupas. O lugar do infante é na frente.

Por toda parte, o Exército americano era dinâmico e uniforme. Máquinas poderosas deslocavam massas de terra para aterro ou para consertos de estradas. Até locomotivas eles levaram. Caminhões e mais caminhões passavam pelas autovias. Enormes autos-reboques, transportando carros de combate e mais carros de combate. Pontes montáveis, gigantescas, atravessando os rios sobre barcos de borracha. Aviões roncando nos céus. Gasolina como água. Vi, certa vez, jogarem-se barris e barris de petróleo numa estrada carroçável, para baixar a poeira. Munição era de dar com o pé!

Fiquei a pensar em tudo isto, nas padarias e lavandarias de campanha, no conforto geral, na abundância, nos serviços de comunicações, desde o homem subindo como um gato em árvores, com garras nos calcanhares, até o fio se desenrolando pela margem da estrada, vindo de um caminhão em disparada; desde o rádio transmissor da unidade até o rádio de mão do tenente; nas fitas brancas espalhadas no chão balizando os locais minados e em muitas e muitas outras coisas... Em todo este progresso da técnica de uma nação, dos civis laboriosos, emprestado de uma hora para outra ao Exército, capacitando-o a desincumbir-se de sua missão.

Para o soldado brasileiro, aquilo era inédito. Tudo se alterava da noite  para o dia. E obrigatoriamente, teriam de discutir e comentar a respeito do que estavam testemunhando. Adaptaram-se de tal sorte, que aquele ambiente parecia rotineiro. Mas às vezes faziam comparações. E como o Exército do Brasil era tão diferente daquele outro Exército ali na Itália, tornava-se necessário delimitar os dois, da mesma forma que se diz hoje – a I Grande Guerra e a II Grande Guerra. Assim, surgiram na vida do soldado, duas épocas distintas na sua vida militar. Eles só diziam: - “No Brasil...” quando desejavam falar de assuntos gerais, na vida de  paisano. Desde que se tratasse de fatos, comparações etc, da sua vida militar, então, era preciso esclarecer de que exércitos e tratava. Sim porque o soldado chama comumente de exército, a todo o Exército Nacional, como o marinheiro diz: - a Marinha, etc...

Das comparações dos métodos e de tudo o que eles estavam presenciando, o resultado lógico era a superioridade do presente sobre o passado militar. Ora, não se podia colocar em termos de comparação um exército dotado de todo o progresso técnico de que é capaz a civilização atual, como é a americana, com outro de uma nação atrasada de quase um século. A comparação pecava por si mesma. Mas o pracinha não podia compreender isto. Ele era brasileiro e não americano; estava servindo no “Exército” brasileiro da Itália como servira no “Exército” brasileiro do Brasil. Este, ele ouvira chamar sempre do “O Exército de Caxias”, tão seu conhecido e tão diverso daquele outro, da FEB, que não era mais o mesmo e, o pracinha, ao contar as suas histórias e críticas da vida de quartel, precisava:

- Mas, então, no Exército de Caxias...

- Qual o quê! Com o Exército de Caxias, o tedesco comia a gente!...

O Exército de Caxias, para eles, passou a ser engraçado.

Mas a diferenciação  real entre os dois “exércitos” estava na técnica. No poderio de duas nações diferentes. Uma adiantada e outra atrasada. A americana e a brasileira. Na primeira, o homem vale mais do que a máquina e o lema é: - Um homem se faz em vinte anos. Uma máquina em  vinte minutos. Estraguem-se as máquinas, mas poupem-se os homens. Na segunda, a máquina vale mais do que o homem e o lema é: - Esta máquina custa os olhos da cara! Poupe-se a máquina! E o homem? Raios que o partam!

A DIFERENCIAÇÃO GEOGRÁFICA.

a) Os brasileiros descobrem a Itália.

A Itália influiu também, na crença do soldado que se julgava em outro exército diferente do que ficara no Brasil.

País milenar, podemos dizer que a Itália se constitui na maior parte de cidades entre campos cuidados, bosques e pomares.

O povo italiano sente de tal forma o peso da História, que me pareceu ver em cada italiano uma personagem de romance em pleno desempenho de seu papel. Afigurou-se-me este um traço divisório entre a cultura latina e a dos anglo-saxões. Estes, sonham menos, representam vivendo, os latinos, mais idealistas, vivem representando.

O italiano, como bom latino, é cioso desse desempenho. Não usa apenas a boca, mas os olhos, os braços, as mãos e até os ombros... Um dia, esperava minha vez de passar numa ponte de aço armada pelos norte-americanos sobre barcos de borracha, ligando as margens de um rio larguíssimo. Como só havia passagem para uma fila de veículos e o local era de difícil manobra, as duas extremidades da ponte estavam ligadas por telefone. Cada um dos guardas comandava o trânsito, informado ao outro a interrupção ou abertura do sinal, no seu lado. Quando cheguei, o telefone estava ocupado por um soldado americano. Tudo ia em perfeita ordem. Dizia duas ou três palavras terminada com o infalível “OK”, e os pesados veículos avançavam ou esperavam que avançassem os do lado oposto, sem a menor alteração. Não sei porque, foi o americano substituído por um italiano, o que deve ter acontecido, também, na outra margem. Começou o barulho: o homem discutia como se estivesse numa arenga política. O abraço direito livre cortava o ar. A mão espalmada fazia circunvoluções, enquanto o queixo comprimia a garganta, a cabeça não tinha para onde virar, os ombros se alteavam em movimentos imprevistos e dentro em pouco foi uma confusão dos diabos na ponte! ...

Leia a parte 2/3

 


Última alteração em 11-09-2006 @ 07:45 pm

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