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Espírito da FEB e Espírito de Caxias - 2 de 3
Inserido por: Coordenador
Em: 11-09-2006 @ 07:50 pm
 

 

Continuação... Leia a parte 1/3

 

É, contudo, um grande povo, nascido para o trabalho, para a alegria, para a arte e para as belezas da vida. Em contato com ele, pisando terra estranha, vendo costumes diversos e ouvindo diversa língua, o soldado brasileiro viveu um mundo de histórias e de novidades. Não demorou muito e estava falando, ao seu modo, o italiano, depois de algumas confusões e equívocos provocados por uma ou outra palavra. E, como se fosse um curso prático e intensivo, começaram por onde deveriam começar:

- Buon giorno, Signorina! Como vade, bene?

- Bene, grazie e voi?

- Bene, grazie, dizia o brasileiro, ao que a italiana dava o ponto final, concluindo o dialogo:

- Prego, Signore!

Palavras como esta última eram uma graça! Ora, esta! “Prego”! O expedicionário não podia deixar de associá-la à idéia de martelo. E assim, depois do diálogo acima, quando a italiana terminava com aquele “prego”! muitos responderam: - Martelo! E a italiana, espantada, perguntava com uma entonação bem cantada feminina: - Che cosa?...

Era, destarte, um mundo diverso para a imaginação simples do pracinha. Um ambiente em que até a língua era outra. Ao dominá-la, sentiu-se tomado de um forte bom humor, como se houvesse galgado alguns degraus no caminho de sua personalidade.

Outro aspecto que não deixou de ter grande repercussão no “ego” do combatente, foi o das relações com o sexo oposto, em sentido amplo. No Brasil, a tolerância racial sofre uma forte limitação, quando o elemento de cor é do sexo masculino. Um branco não sente constrangimento em receber um homem de cor em sua casa, desde que seu colega, ou do mesmo nível social. Uma vez, porém, que desta amizade e consideração familiar surja a pretensão amorosa, já aquela acolhida se turva, quando não desaparece.

O desnível social é que acentua o nosso discreto, porém, existente preconceito, que diria não exclusivamente racial, porém, educacional. A prova é que, não somente em relação ao preto, mas, em relação a qualquer outro, mesmo branco, sem instrução ou sem categoria na ordem social, ele existe. Acontece que entre os desfavorecidos, a maior parte é de gente escura, abandonados ao seu destino, após a escravidão.

De qualquer forma jamais chegaríamos à separação racial e isto é um grande bem para nós. Penso que a maior parte dos brasileiros não tem ressentimento em manter relações de amizade com um preto, desde que ele seja uma pessoa educada, de bom comportamento. Dificilmente, porém, veríamos, por exemplo, à chegada de uma tropa numa cidade do interior, as moças da sociedade local irem para um baile dançar com eles. Poderiam festejar-lhes a chegada, atirar-lhes flores, oferecer-lhes doces e bebidas. Jamais entrariam em intimidadas. Soldado, seja branco ou não, era sinal de gente desfavorecida. Se se tratar, então da polícia, ainda pior. É que, no abolido sistema de sorteio militar, poucos eram os jovens educados que iam parar no Exército.

A separação de oficiais e praças no Brasil, não tem relação exclusiva com a disciplina natural de todas as organizações militares do mundo. Nos países atrasados, onde existem massas de analfabetos e gente sem instrução, a separação é acentuada, até mesmo em relação ao conforto.

Entre nós, o “homem do povo” distingue a moça de padrão econômico elevado ou de instrução, em geral pela cor branca ou mesmo morena que sabe vestir-se e fala corretamente o português. Em toda parte, há uma tendência de aproximação entre as pessoas do mesmo nível educacional.

Os expedicionários encontraram nas moças italianas esses atributos aparentes de jovens de sociedade: - brancas, porque não há italiana preta ou mulata; bem vestidas e por vezes elegantes, porque mesmo as provincianas, sabem vestir-se com propriedade e graça. Em falando elas o italiano, a “linguagem correta” perdeu o seu valor distintivo.

Qualquer que seja a razão da boa acolhida dos nossos soldados pelas italianas, seja em alguns casos o interesse, seja a verbosidade e a “bossa” do brasileiro, seja pela atração física, a verdade é que deve ter produzido uma grande influência no ânimo, um crédito na personalidade, aumentando o prestígio da farda da FEB, muito mais valorizada do que a do Exército no Brasil.  Antes, eram as empregadas domésticas, acentuadamente mestiças ou gente simples, do comércio ou da indústria, que lhes caíam nos braços nos bailes públicos ou nas praças. Ali, bem ao contrário, eram as brancas legítimas, brancas falando melhor do que eles, que andavam de bicicleta como uma grã-fina brasileira (as lavadeiras iam apanhar as roupas dos soldados, em bicicletas), garotas que iam à ópera e cantavam com desembaraço belas canções napolitanas. Era chique... no Brasil, como soldados, jamais tiveram essas oportunidades.

Recordo-me, agora, de Gibi, aquele pretinho conversador e de sorriso de neve da 9a Cia e que contava as suas aventuras, com a sua namorada loura, a qual muitas vezes dissera entusiasmada:

- Ma che bello nero!

Dir-se-ia que na Itália não existem estas separações de classes. Não tanto, talvez, como no Brasil onde a cor e a instrução são dois obstáculos bem fortes. Mas existe. Demais a nobreza e os seus reflexos separam mais do que a simples situação econômica ou intelectual. Por diversas vezes, ouvi de moças do campo referências admiradas pelo fato de nós, oficiais, passarmos pelo mesmo destino do soldado, partilhando com eles os mesmos momentos, numa camaradagem que me encheu de júbilo e honrou o nosso Exército. É verdade que o contribuíram bastante o perigo comum da guerra e o exemplo norte-americano. Mas, nós somos povos de colonização, entre os quais, principalmente no campo, jamais faltou esta solidariedade nas horas amargas. Os homens, principalmente as crianças, sempre se misturaram. As mulheres, não.

Contaram-me, pois, aquelas camponesas, - que os oficiais italianos não eram como nós. Principalmente os de carreira e mais ainda, os que tinham aproximação nobiliárquica.

De minha parte, não creio num exército cujos oficiais não são capazes de partilhar irmãmente o destino da tropa. Se eles têm, realmente, ascendência de conhecimentos e de caráter, sejam quais forem as circunstâncias, serão sempre respeitados como superiores hierárquicos. Vi numa revista italiana, ao tempo da ocupação alemã, uma informação sobre os brasileiros. Não recordo o nome desta publicação. Sei que dizia à população, no intuito de causar pânico e horror pelos “brasiliani” que os nossos soldados eram pretos e maus, usavam brincos nas orelhas e furtavam mulheres e crianças. Mas esta propaganda foi contraproducente, porque influenciou a eles mesmos, alemães, além de os italianos terem verificado depois a improcedência, a mentira dessas fantasias.

Contou-me uma senhora, se não me engano, em Cruciale, que em sua casa estava um coronel alemão e mais outro oficial observando o desenrolar de um combate. Em certo momento, colocando o binóculo, de fisionomia alterada e pálida, disse o coronel alemão:

- Estão avançando! Aí vêm os “negros” brasileiros! E saiu apressadamente dali.

A chegada dos brasileiros, constituiria o maior desmentido à propaganda mentirosa, pois os expedicionários com aquele temperamento expansivo e amigo, chegavam puxando conversa, falando o italiano, oferecendo caramelos às crianças, cigarros aos homens, conquistando a todos e quebrando todas as reservas...

Paisagem italiana – Permita-me o leitor, que me afaste um pouco do assunto – a Diferenciação Geográfica entre o Exército de Caxias e o da FEB, a fim de lhe mostrar um instantâneo do ambiente onde viveu algum tempo o nosso soldado.

O campo italiano é um pontilhado de casas. Podemos medir suas fazendas com a vista. Aqui está, por exemplo, a casa ainda nova do contadino. De um só, não, de quatro famílias de “contadini”. São quatro residências num bloco só. Em cada uma delas, a sala de visitas é também de jantar e ainda a cozinha. É bem ampla. Tudo está em ordem. Aquela lareira onde as achas ardem, com aquele caldeirão que pende de uma corrente, dá um aspecto agradável e hospitaleiro, que nos convida a sentar e aquecer o corpo. Observe que o fogão é todo de ferro. Ao canto, a mesa está bem posta. O guarda-louças deixa transparecer através dos vidros, que aquele camponês possui até porcelanas. Os utensílios domésticos são de metal. Nesta casa, você não está vendo as bicicletas das filhas deste contadino, porque os alemães as levaram, como levaram também bois, vinho, presuntos. Todos eles se queixavam:

- I tedeschi portarano via tuti! Tuti! Quelli delinquenti!

- Tanto os nossos soldados ouviram recriminações desta ordem, principalmente sobre bicicletas, que fizeram, até, uma modinha mais ou menos assim:

“Dove se trova la machina de Maria?

“Tedeschi portarano via...”.

Não houve tempo de levarem tudo, porque havia muita bicicleta na Itália, meio de transporte muito popular. Além disto, aos que trabalhavam em indústrias ou serviços considerados de utilidade bélica, era entregue um salvo conduto, escrito em italiano e alemão, proibindo o seqüestro da bicicleta, conforme tive ocasião de verificar.

Naquela gaveta, pelos cadernos e livros das filhas do contadino, você verá que elas estudam assuntos práticos. Veja: Lucia e Bianca Maria estudam economia doméstica.

Bem defronte a nós, na mesa da copa, cuja tábua fôra virada, a esposa do contadino já amassou a farinha. Enrolou esta massa como se fosse uma peça de tecido e de faca em punho, com rapidez incrível, está cortando aquele “peça” em fatias de talharim.

Lá fora, algumas galinhas que restam cacarejam. Valem ouro. Os coelhos lembram plumas movediças nos comedouros. No estábulo, cada uma das dez, quinze ou vinte vacas, produz dez, quinze ou até dezoito litros de leite, que são levados pelas ótimas estradas para aquela fábrica de queijos que se avista daqui da janela. No celeiro o feno e a palha estão enfardados. Se o celeiro não comporta toda a palha recolhida eles a arrumam em torno de um madeiral plantado, geralmente, ao lado da casa. E de tal forma é a palha trançada, que se ergue a vários metros de altura à maneira de um cone enorme, fulvo e pitoresco, a imitar a graciosa projeção de pinheiros erguidos aqui e ali. O milho em espiga, já descascado, pende dos varais, preso pela própria casca e ostenta grãos tão lindos que não pensei dessem mais aquelas terras. O tempo é bem aproveitado. O trabalho é metódico. No inverno, o labor no campo desaparece com o advento da neve, mas surgem outros serviços mais domésticos e cuidados com as criações. No verão, para suprir as forças perdidas num dia de trabalho que começa muito cedo e termina muito tarde, os homens fazem à sesta após o almoço. Os campos de cultura são aplainados e recortados de canalículos que, geralmente servem de divisas e são ligados ao canal maior que margina a estrada, prestando-se, assim, ao escoamento e à irrigação. Pequenas portas-d’água são vistas, intercaladas, nestes canaizinhos. Mesmo nas elevações eles aplainaram a terra, cortando-as de tal forma que, de longe parecem enormes degraus. As elevações são protegidas pelos bosques. Há, aliás, ao contrário do que pensei, muitos bosques na Itália e grandes parques de pinheiros que mesmo no inverno se mantém verdes. Vi, também, parques de caça.

O contadino em cuja casa estamos, neste momento, bem como os outros, não cortam a lenha da lareira ou do fogão com o machado. Serram-na. Penso que é para evitar o desperdício de três ou quatro centímetros que o golpe do machado ocasionaria. Tudo ali é aproveitado, até os garranchos. Que amor têm eles pelas coisas, pelas árvores, pelas plantações! Uma vez, depois que os alemães se renderam, saí de bicicleta com uma jovem italiana. Eram nove horas da noite e o sol estava, ainda no poente. Estávamos numa linda planície. A certa altura, páramos para contemplar aquela beleza campestre e eu, ao largar minha bicicleta, deixei-a cair sobre o trigal que avançava até à margem da estrada. A italiana disse-me, então, numa expressão de censura:

- Nè fate cosi!

- Che cosa?, perguntei-lhe.

E ela, com a voz mais doce que já ouvi em tão curta frase, estendeu as mãos como se afagasse o trigal que não lhe pertencia e disse:

- Il grano!!... (O trigo!).

Quando chega a noite, os contadinos se reúnem, limpam, enxugam e guardam carinhosamente suas ferramentas. Depois, sentam-se palradores em volta da mesa ante a sopa, o minestrone suculento e fumegante. Nem sempre há carne. Um dia ou outro um pedaço de coelho da criação. É a guerra. Mas há sempre ovos, legumes, castanhas apanhadas nos bosques. Bastante massa, queijo e vinho puro e bom, ou então com água, porque o vinho deve estar sempre em sua mesa. Muita fruta. (Quando estive em Roma, comprei menos de vinte cruzeiros o quilo, excelentes pêssegos vindos de Nápoles, de tão longe pelas ótimas estradas). Os contadinos, apesar dos pesares, mostram um ótimo físico. Corpo cheio, braços roliços e rijos, índices de boa nutrição. Falam, gesticulam como um bom latino. Adjetivam e doutrinam. Ecco!

Eu que nasci no campo e conheço um bocado este Brasil, fiquei surpreso ante esta mudança geográfica. Era aquela a chamada necessidade dos povos da Europa? Vi, sim, necessitados nas cidades. Deslocados, “rovinati”, “sfollati”. Mas se pensarmos nos homens dos mocambos, das favelas e cortiços não encontraremos termo de comparação. Necessitados somos nós. Ao chegar aqui ouvi risos quando disse isto. Somos verdadeiramente cegos. Poucos acreditaram no que disse. Ora, segundo li em um jornal em Roma, somente 25 a 30% das fábricas italianas foram, realmente, destruídas. Maior número, talvez, parcialmente arruinado. Quase a metade do poderio industrial italiano ficou intacto. Com os reparos nas indústrias em parte atingidas, esta metade pode se aproximar dos dois terços. A riqueza queda-se em potencial nas fábricas e nos campos povoados. E, mas acabava o combate, lá estava o italiano, numa paciência de formiga, cultivando a terra.

Ocorreu um fato comigo, que bem pode comprovar esta perseverança: no deslocamento pelo Vale do Pó, eu estava com o meu pelotão quando esbarrei num terreno, onde os sulcos dos arados eram bem recentes, pois a terra estava ainda úmida. Todos nós receávamos as minas. Os alemães as espalharam em tal número que por muitos anos elas serão responsáveis por acidentes fatais. Tudo o que pudesse chamar a atenção do soldado em avanço, o alemão podia minar: as margens dos parreirais onde as uvas convidassem; os caminhos de fácil penetração e até os cadáveres dos nossos soldados, como aconteceu, segundo me contaram. Colocadas  as minas, eram dissimuladas por forma que o terreno não apresentasse vestígios. Se o terreno ante o qual estávamos apresentava sulcos recentes de arado, não devíamos temer. Pensei, porém, em que a dissimulação tem mil formas de realidade. O inimigo em fuga não tem tempo. Quem poderia sabe se eles araram aquelas terras, semeando, depois, as minas e deixando uma impressão de campo recém-cultivado? Fui à casa do contadino, já ocupada, e perguntei:

- Quem trabalhou naquele campo?

- Eu, respondeu o italiano.

Por vias das dúvidas, cortesmente, convidei-o a caminhar na frente. Seguro morreu de velho... Estas preocupações, aliás, nos fizeram, posteriormente, arrebentar um enorme garrafão de vinho, por ter à superfície um pó esbranquiçado. Sabíamos lá se era veneno? Contaram-me, depois, que havíamos perdido um ótimo vinho velho...

Vemos, pois, que mal passada a guerra, a terra ainda marcada pelos borzeguins dos soldados, às vistas quase, dos combates, lá estava o contadino sobre o campo cultivando-o e dele colhendo riquezas.

E eu fico a pensar nos “entendidos” que dizem: “A Europa está uma desgraça. Podemos receber italianos aos milhares e soltá-los como boi em Mato Grosso, por exemplo!” Estão enganados! Eles não agüentariam sem uma boa assistência do Governo ou do particular. A Itália tem uma cultura milenar e oferece, apesar de todas as dificuldades de que foi vítima, um padrão de vida superior ao do nosso trabalhador de eito ou até de muitos fazendeiros do Brasil. Os italianos são um povo que sabe como trabalhar, produzir, como alimentar-se e distrair-se. Atravessando-lhes os campos e a excelentes estradas cimentadas, correm os trens elétricos e a eletricidade ilumina-lhes grande parte das casas do campo. Nestas, de tijolo, simples, porém, de gente civilizada, vemos utensílios domésticos de ferro e alumínio e móveis aceitáveis. Os filhos se educam ali mesmo. Trabalham muito. Não há esperanças de riquezas da noite para o dia. Mas gozam um pouco dos prazeres de um padrão de vida mais desenvolvido. Estão perto uns dos outros, a dois passos das obras de arte, de histórias e tradições do passado.

Não se trata, é óbvio, de superioridade racial, porém, de superioridade de cultura. Mesmo que ela não saiba ler (o que é raro), sabe como semear, como colher, produzir e economizar. Em todos os países de clima temperado, o frio, a necessidade do calçado, do agasalho, do calor, traça o caminho da civilização. Os campos nevados obrigam o homem a cuidar mais da sua casa, a economizar e a prover. O que eles aprenderam pela experiência, pela necessidade secular, pela imposição do clima, nós teremos de fazê-lo pela educação permanente e experimental repetida até constituir um hábito.

Com esta vastidão territorial desabitada, estas terras barbaras, sem preparo, sem trato e sem aplaino, estes métodos empíricos, sem máquinas e sem braços, tão cedo não seremos nada no rol dos povos civilizados. O italiano é um ótimo elemento de colonização, sabem-no todos. E o imigrante é a escola melhor e mais barata, porque ensina aos nossos homens pelo exemplo. Se o desejamos, criem-se os meios de fixá-los à terra. Do contrário, ele abandonará a terra para vender jornais e bilhetes de loteria nas cidades. Na Itália ele é, apenas, contadino, isto é, trabalha para o dono da fazenda, recebendo uma percentagem sobre a produção. Ofereçam-lhe a terra. Digam-lhe a verdade sobre o nosso país. Que eles virão para uma terra ainda virgem mas que será deles e de seus filhos. E os que vierem serão os desbravadores de que carecemos. Trabalhando aqui em terra própria como trabalham lá em terra alheia, encontrarão outra sorte, outras compensações. A Itália já deu o que tinha a dar. É mais a manutenção de um passado de séculos. Enquanto isto, nós somos como aqueles versos de Augusto dos Anjos: “O choro da energia abandonada”, “o cantochão dos dínamos profundos, que podendo mover milhões de mundos, jazem, ainda, na estática do nada” ... Somos a esperança que urge abreviar.

Mas, voltemos à casa do contadino, onde nós estamos, enquanto os “técnicos”, os “entendidos” resolvem estes problemas. Aqui está o quarto de dormir. A cama é boa e forte. Um colchão? Não. Dois ou três, sobrepostos, sendo em alguns casos de penas. Lá no canto o guarda-roupa e a penteadeira. As vezes são simples móveis antigos, bem conservados e apresentáveis. Podemos notar objetos de gente civilizada, roupas de cama de antes da guerra, lã e seda (esta de boa fabricação, pois a Itália produz boa seda).

No verão, mesmo na primavera, ao contrário do inverno, as madrugadas surgem bem cedo, antes das cinco e o crepúsculo é muito mais tarde. Às 9:30 da noite ainda existem vestígios do poente. Era uma coisa que desorientava a nossa idéia do tempo. Após a guerra, quando aquartelados, precisávamos ter cuidado para não perder o jantar, pois às 5 ou 6 horas da tarde o sol estava tão alto que qualquer um de nós julgaria ser três horas da tarde. Se marcássemos um encontro às sete de noite e se não estivéssemos de olho no relógio, seríamos capazes de chegar às dez da noite...

A tarde que se entende, assim, noite a dentro, proporciona aos que saem do trabalho, momentos de folga em plena claridade solar. E pelas estradas que enfeitam de fitas as planícies e as alturas, as bicicletas passam em todos os sentidos. Nas águas dos pequenos canais os patos se aninham serenos e uma vez ou outra mergulham, rápidos e trêmulos, os longos pescoços. Estamos na primavera e os pessegueiros e macieiras, desfolhados pelo inverno que se retira, estão agora completamente cobertos de flores. O campo é um vasto painel policromo onde o azul, o branco e o vermelho casam-se com as manchas verdes do trigal que vai surgindo como grama. Um quadro gigantesco e colorido que a primavera pintou na tela da natureza com molduras de neve das montanhas...

Quando as noites convidam – (e os céus da Itália são tão estrelados!) – poderemos dar um passeio de bicicleta. Não há perigo de poeira. As pistas cimentadas das autovias italianas podem ser percorridas por qualquer engenheiro de país civilizado. Cruzam a península de norte a sul e de leste a oeste. Cruzar é um modo de dizer, pois essas estradas em geral não se cruzam, passam por cima em viadutos que se vão elevando aos poucos. A guerra não as destruiu, senão, em determinados locais. Ambas as partes em luta tinham interesse em conservá-las.

Por elas, portanto, você, leitor, o contadino, suas filhas e eu poderemos passear como se estivéssemos num campo-jardim, atravessando aldeias com suas igrejas seculares de campanário erguido em torres. Por esses vilarejos e cidades que transformam a Itália numa campanha urbana onde a eletricidade brilha nos postes e risca os trilhos dos trens elétricos.

Mas, se você não quiser passear de bicicleta, vá contemplar a quietude, a simplicidade tão humana da cidade mais próxima. Vá ao teatrinho! Pode ser que haja a estréia de uma novo tenor...

b) Fantasia brasileira.

Num ambiente, inédito, cercado pelo conforto do Exército americano, que até chegou para ele, o soldado brasileiro esqueceu-se dos seus tempos do Exército no Brasil e da realidade brasileira e fez uma ótima apresentação das nossas fantasias...

Acentuaram-se os traços de bondade e solidariedade de nossa gente, dos nossos soldados, capazes de gastar até os últimos centavos, as economias do mês só para oferecê-las em lauto almoço a um amigo ou parente recém-chegado.

Os italianos que viviam, mesmo assim, num regime de carências em comparação ao período anterior à guerra, estavam acostumados à campanha de descrédito que os nazi-fascistas fizeram contra os aliados e ainda às requisições de gêneros alimentícios que aqueles faziam constantemente, exigindo sempre mais trigo, mais provisões dos camponeses. Os próprios alemães, embora bem equipados, tomavam-lhes os bois, os cavalos, os gêneros, as bicicletas, etc. Era de esperar, pois, que se espantassem da massa de material e provisões que nós brasileiros arrastávamos com o 5o Exército americano. Caminhões e caminhões, jeeps, rádios transmissores, equipamentos e petrechos de todos os gêneros. O meu pelotão fôra transportado do Vale do Pó, por três caminhões, cada um dos quais, possuía, rodando, dez pneumáticos... E aquela profusão de alimentos? Açúcar, café, sabão, carnes, conservas, doces, chocolates que eles há muito não viam, senão em doses medicinais e a preços astronômicos... E aquelas botinas? Galochões para neve? Aqueles blusões? Mas, quanta gasolina queimando naquelas viaturas nos três fogões e fogareiros de cada companhia, como água! Quanta borracha! Tudo aquilo era um sonho...

- Mamma mia!

- Ecco!

Observei a satisfação dos nossos pracinhas vitoriosos, ao exibirem tudo aquilo como se fosse realmente nosso. Cantaram as riquezas do Brasil. Os nossos rios, florestas, a nossa vastidão geográfica, do tamanho da Europa. Nós tínhamos muito açúcar, muita borracha, muita carne.

- “Sí, in Brasile nè manca niente! C’è tuti, tuti! Molte zucchero, molte mangiare, molte gome, tuti, tuti!”

Os italianos não podiam conter a admiração e exclamavam:

- Per Bacco!

E os nosso pracinhas, num gesto, ao acenderem um cigarro Chesterfield, Camel ou Luck Strike, ofereciam-no ao italiano, que logo o tomava, examinava, cheirava e às vezes o guardava pra depois da ceia. “Si, doppo la cena....” E amaldiçoava a guerra, Mussolini e os alemães, pois antes da guerra, não era assim. “Prima la guerra...”

E enquanto os italianos assistiam com espanto todo aquele aparato de material, os soldados presenteavam as crianças com caramelos e chocolates (carameli per bambini). Os pracinhas e não só eles, porém muito tenente, muito capitão, etc., estavam penalizados com a pobreza, a miséria da Itália. Muitos julgavam-nos até um povo primitivo. Quis chamá-los à realidade, mas já se haviam esquecido do nosso Brasil ou tinham em mente as avenidas asfaltadas das capitais debruçadas no Atlântico...

Aos meus soldados nada disse, porém. Escutava aquele entusiasmo patriótico, como demonstração do moral elevado da tropa. Mas fiquei embaraçado, quando certa vez, um italiano instruído e curioso me perguntou:

- Senhor Tenente, quantas fábricas de automóvel existem no Brasil?

Respondi-lhe que não estava a par desse assunto e mudei de conversa.

Uma verdade terrível empolgou-me a mente: nós não fabricamos nem bicicletas... E achei graça quando um soldado que havia observado o trabalho das mulheres no campo, comentou:

- Aqui, “seu” tenente, as “fêmia” não tem vez! O Senhor não viu? Até as vacas puxam o carro!?

A Itália era como uma grande fazenda organizada, com enormes benfeitorias e oficinas erguidas por inúmeras gerações através dos séculos. Com os seus apartamentos bem arranjados e cheios de obras de arte. Seus campos cultivados, etc. De repente, um rio cresceu e inundou tudo. Os homens não puderam trabalhar. Algumas máquinas foram arrastadas pela correnteza. Alguns móveis, também. A lama chegou até a encher alguns apartamentos. Mas quando as águas baixarem, os homens voltarão ao trabalho e saberão o que têm a fazer. Máquinas e tornos matrizes fabricarão peças e máquinas destruídas. Faltará açúcar, chocolate e provisões por algum tempo. Depois, as coisas surgirão. O mesmo será na Holanda, na Bélgica e na própria Alemanha destruída. E é muito mais fácil fazer isto, muitas vezes mais, em menos tempo do que nascerem homens, criarem-se, crescerem, educarem-se, reproduzirem-se, em número suficiente à conquista deste nosso Brasil imenso, disperso, empírico, sem comunicações, até que ele seja um grande país, uma grande e próspera nação.

A Itália já produziu um “Netunia”, um “Oceania”, seus automóveis e máquinas. Dentro em breve fabricá-los-á outra vez, antes que façamos bicicletas. Um dia produziremos tudo isto e muito mais, desde que sejamos mais práticos, mais objetivos, menos teóricos, menos burocráticos.

c) Os brasileiros voltam a encontrar o Brasil...

Os pracinhas só sentiriam a realidade, quando deixassem as terras da Itália; quando a FEB se desligasse do 5o Exército americano; quando eles voltassem outra vez, para a outra conquista, a do pão de cada dia... Não teriam mais aqueles agasalhos. Não teriam mais aqueles alimentos em quantidade e qualidade tais que mantiveram e até superaram as suas reservas físicas, apesar da pressão psicológica a que foram submetidos e do desgaste a que fora entregue a sua Divisão, na guerra contra a pertinácia do tedesco audaz, dominando as alturas em defensiva.

Muitos e muitos teriam de voltar às favelas, aos mocambos, às taperas de taipa, de sopapo, às casas de sapê por estas terras a fora sem água, sem saneamento, sem luz elétrica, sem estradas, sem transportes no domínio das moscas e dos mosquitos, depois daquela abundância de tudo e até dos banhos quentes e frios dos acampamentos americanos...

Aqueles que voltaram, como eu, em navio brasileiro, experimentaram antes de pisar em terra natal, a mudança do trato, do ambiente: vinham deitados pelo chão, nos corredores e convés do vapor.

Os que mandaram o navio daqui, eram completamente “rombudos”, em matéria de assistência e compreensão. Gente do Lóide, gente do Estado. Se fosse uma companhia de particulares não teriam procedido assim. O que custava um simples toca-disco e um alto-falante? Alguns discos de música brasileira, mesmo pelo convés naqueles vinte dias de viagem (o dobro do transporte americano) por vezes expostos à chuva e às intempéries, seriam a recepção musical brasileira, um abraço fraterno e amigo.

Mas não. As marmitas não eram mais nem lavadas direito, quanto mais esterilizadas, como no sistema americano. Faltou água para o banho. A comida má. Em pouco tempo, os desarranjos intestinais tomaram conta da tropa. Os jornais do Recife (primeiro porto nacional) testemunharam os protestos dos soldados, logo ao desembarque. Correu, porém, uma lista de assinaturas (que muitos firmaram sem maiores formalidades, pois eram comuns as tomadas de nomes como recordação dos camaradas), declarando a ótima qualidade dos alimentos. Como sempre, as realizações no papel...

Mas, os soldados deste navio, compreenderam, talvez inconscientemente, a razão de ser do conforto que tiveram na Itália: quando o barco entrava no porto do Recife, quem nos saudou primeiro foi um grande transporte norte-americano. E o fez estridentemente com os ruídos dos seus apitos e os acenos entusiásticos dos seus marujos. Então, os pracinhas, por eles mesmos, de forma imprevista e espontânea começaram a cantar o “Deus Salve a América!”

Ouvi no 6o Regimento de Infantaria, o seguinte fato: - um oficial superior americano fôra visitar, devidamente acompanhado por outro oficial brasileiro, uma posição nossa em Torre de Nerone, de grande importância para todo o 5o Exército. Esta posição era constantemente visada pelo inimigo. O capitão (aliás muito popular no Regimento) aproveitara a presença momentânea de um superior, para se queixar dos reiterados atrasos das provisões, o que deixava os homens de sua companhia em situação difícil.

Este capitão foi punido, mais ou menos sob o fundamento de se portar de forma inconveniente em presença de oficial superior estrangeiro. Entretanto, este mesmo “oficial superior estrangeiro” quando lhe estendeu a mão em despedida, referindo-se à sua reclamação lhe dissera o seguinte:

- “É assim que se comanda, capitão!”

Sim, porque os norte-americanos não desejavam arrastar consigo, uma divisão de subnutridos. E quando não encontram as coisas como eles desejam, dizem-no com aquela franqueza a que nós não estamos acostumados, como os seus médicos diziam com toda a naturalidade, aos comandantes de companhia, quando a situação higiênica não andava de acordo com as suas normas. É sempre aquele princípio: um homem se faz em vinte anos e uma máquina em vinte minutos. Estraguem-se as máquinas, poupem-se os homens.

Sim, a Itália era outra paisagem com outra moldura pra aqueles homens. Outra impressão bem diferente daquela do seu velho e conhecido “Exército de Caxias”.

Na arremetida da Força Expedicionária através da Península, os soldados sentiram de perto o contato de um povo diverso, outros costumes e de uma geografia inédita e surpreendente para eles. Deitaram-se em terras brancas de neve, em campos floridos, pelos trigais. Fizeram, daquelas casas campesinas, quartéis de inverno. Dormiram em suas camas, em seus celeiros. Beberam-lhes o vinho e cantaram-lhes as canções.

Ah! a Itália! Há de suspirar o pracinha em todos os recantos do Brasil. E contará aos filhes e netos, aos amigos e vizinhos, histórias de mil e uma noites.

Muitos dirão:

- Aquele cara é um garganta!

Outros mais “patriotas” dirão:

- Por que ele não volta lá pra Itália?

Mas ele estará ouvindo suas próprias palavras; suas últimas palavras.

- “Doppo domani noi andaremo via de qui”

- A rivederci – Itália!

E os expedicionários recordarão canções como Mamma, La Strada del Bosco, Bambina tu me me piace. Firenze Dorme ou daquela traduzida em todas as línguas inclusive para a italiana: Lili Marlene.

Em Mamma era a recordação das mães distantes; na Strada del Bosco, o passeio romântico e bucólico pelo bosque; em Bambina tu me piace, como o nome diz, a declaração de amor às garotas que lhes agradaram. E como naqueles versos de Firenze Dorme, há de haver sempre em suas recordações, um Arno de prata espelhando um firmamento de estrelas fosforescentes e sorrisos de vida e alegria daquelas signorine, como eternas canções napolitanas. Jamais faltará, também aquela  rosa de Lili Marlene, presa nos seus corações “com o fio dos seus cabelos de ouro”... 

E, viva la Torre de Pisa

Che pende, che pende

E non va a giù...

Para eles, assim foi a Itália. Assim serão as suas recordações...

DIFERENCIAÇÃO DISCIPLINAR.

a)brasileiro, um indisciplinado.

Da mesma forma que a uma nação poderosa é fácil montar um exército poderoso, a uma nação disciplinada fácil é manter um exército disciplinado.

Constituímos nós uma nação disciplinada? O brasileiro, é em geral indisciplinado. Acusam-no de preguiça, indisposição para o trabalho, ineficiência, vagabundagem. O que lhe falta, porém, é legalidade, educação positiva especializada e estímulo. Qualquer trabalho de que se não tenha conhecimento fundamental é enfadonho.

Para nós, a obrigatoriedade é, talvez, pior do que o próprio esforço. Existe como que, um complexo de escravidão. É evidente que em toda parte do mundo há pouca vontade pelos trabalhos pesados, trabalhos braçais. É natural. A lei do menor esforço faz flutuar o homem em balões de desejos cômodos. Nós viemos, porém, há bem pouco tempo, de uma época em que os “senhores” mandavam e os “escravos” trabalhavam. E, parece, existe até hoje esta revolta mestiça dentro de nós. Os empreendimentos mais pesados, de amanho da terra, de escavações, de limpeza, qualquer coisa que aproxime da criadagem, são ligados inconscientemente à idéia da servidão e o homem os repele com um pavor de recém-liberto... É como se uma voz, interior relembrasse: - Não sou escravo! Talvez esteja aí o hábito das mãos finas, a aspiração do mando, da autoridade, que atrai o homem aos cargos políticos, às poses administrativas, aos manda-chuvas da terra – (sabe com quem está falando?) etc.

Certa vez, num “engenho de açúcar” em Pernambuco, surpreendi o “Senhor de Engenho” procurando os alfabetizados entre os trabalhadores da sua propriedade para lhes indicar os nomes ao sorteio do Exército. Perguntei-lhe porque não enviava os analfabetos que seriam alfabetizados (neste tempo, eu entendia ainda menos de Exército) ao que o proprietário respondeu:

- Homem alfabetizado é homem perdido. Aprendeu a ler não quer mais trabalhar. Vai tocar viola, cantar modinhas, passar jogo de bicho. Não  pára mais. Muda-se para a vila e da vila para a cidade. A enxada para ele é uma desonra. Se esta é a verdade, eu lhes apresso a viagem...

É possível que esteja neste complexo da escravidão, o pavor acentuado que temos por certos trabalhos, a procura  dos cargos burocráticos, dos empregos públicos ou de escritório onde o cidadão engravatado e limpo se sujeita a perceber muito menos do que um mestre pedreiro, um pintor, um mecânico. Engenheiros, agrônomos, químicos, até há abem pouco tempo de mãos finas, engomados ante as mesas ministeriais. Os bacharéis verbosos, os “doutores”, como os proprietários de terras – capitães, majores, coronéis.

Recordo-me, agora, do prazer sádico, da vingança daquele sargento em Recife, ao tempo da guerra, dirigindo-se aos soldados:

- Quem sabe inglês aí?

Diversos se apresentaram. Então, o sargento comandou:

- Ótimo. Peguem aquelas vassouras e vamos para as latrinas!

Certa vez, o pelotão ocupava uma granja, no norte de Itália. Usávamos uma privada rústica, situada externamente ao lado da casa dos contadinos (como é comum lá). Dos americanos recebíamos todo o material, inclusive um pó desodorante. Mas, ninguém queria fazer a limpeza à vista dos italianos. Porém, algumas noções sobre a necessidade do asseio e a afirmativa de que a prática da higiene não humilha ninguém, fizeram desaparecer o “complexo”.

A indisciplina nacional salta aos olhos em qualquer parte. No trânsito, está a confusão que “uma semana” de ordem não redime. O atraso dos trens, o das chegadas ao trabalho e às saídas dele, a desobediência das posturas e regulamentos, etc. Quantas vezes tenho visto, por cima do letreiro: - “É proibido conversar com o motorista ou com motorneiro”; o guarda que pegou uma “carona”; “pagar” a gentileza com dois dedos de prosa com o motorista ou o condutor...

Cada cidade tem uma percentagem assombrosa de habitantes abandonados ao seu destino solapando a levíssima camada de educação das minorias instruídas e orientadas. Pelas ruas, os papéis andam soltos. Nos encostos dos bancos de cinema, bondes e ônibus, e até em paredes, as marcas dos pés inquietos. As crianças, fugindo das “camisas-de-força” dos apartamentos para as ruas bater bola e brincar de bandido. E o rádio leva até elas os teatros comerciais, onde na exploração do som, quase que só existem tiros, sadismo, choro e ranger de dentes.

Nos cinemas mais distintos, em meio de cenas artísticas e elevadas, é comum ouvirem-se  piadas de mau gosto, gritinhos  neuróticos, histéricos, assobios acolhidos  pelas gargalhadas de aprovação. As estatísticas de homicídios, assaltos, violências, inclusive de autoridades, falam por si mesmas, do respeito em são tidas as leis e os princípios mais comezinhos de educação social.

Não seria, pois, de admirar, que a disciplina no Exército, sofresse, por um lado, os efeitos do reflexo nacional e tivesse, por outro, a repressão mais violenta, no sentido de conseguir um soldado respeitador, pontual e ordeiro.

Analisaremos, por conseguinte, nesta parte, a diferenciação disciplinar sentida pelos soldados, no Brasil e na Itália.

b) A disciplina rotineira do quartel

A vida do conscrito é constituída por uma série permanente de desfalques na sua vontade e liberdade, em benefício da equipe, do conjunto. É uma fase em que o indivíduo, depois de chegar à idade adulta, tem que regredir em sua vontade já liberta. Em benefício dele próprio, da segurança de sua vida e da vida dos outros, é que se torna necessário que cada um aja em função de um todo.

Em qualquer exército de qualquer parte do mundo, esta iniciação na vida militar é desagradável. Uma porção de princípios, etiquetas, formalidades, simbolismos, teorias, disposições regulamentares, reduz o pobre mortal a uma vontade comandada por outrem.

Só mesmo a contingência de todo um povo ver-se ameaçado pela ferocidade de outro, a necessidade imperiosa de todos defenderem como um só homem as fronteiras nacionais, é que obriga um cidadão a tamanho sacrifício e situa outro em tão honroso quão delicado posto como o de comandante.

Depois de fardar-se e apresentar-se aos de casa todo ufano, vai sofrer a primeira timidez, ao sair à rua. Começa a sentir-se olhado de todas as direções. No quartel,  ele entra como um anjo e o sargento o espera como um demônio... O recruta é a melhor distração do ano. É como se o sargento quisesse logo descontar os juros do esforço e do suor que vai derramar no fazer daquele “paisano” um soldado...

Será breve um farrapo. Acorda sempre pela metade do sono. O soldado adaptou ao toque de alvorada, uma letra que é a expressão da sua angústia:

“Ai meu Deus

  Que vida apertada

  Nem bem eu me deito

  Já toca a alvorada...”

Ou então:

“Ai meu Deus

  Que vida esta minha

  Nem bem eu me deito

  O Plantão me aporrinha.”

Desde que acorda até à noite, tem que fazer as coisas às carreiras. A ordem-unida, o manejo das armas, a maneabilidade, a instrução física, as marchas, o serviço na guarda, a limpeza dos armamentos, a instrução geral, toda um invenção diabólica comprimida em um ano de serviço militar, como se fôra mesmo de propósito para não “dar vez” ao soldado... Sua, esfola-se, suja-se na terra ou na lama, lambuza-se de óleo quando não se “perfuma” no cheiro dos muares...

Tem que saber dirigir-se ao superior, perfilar-se, fazer a continência, “cantar” o número, o nome, a subunidade, a unidade... e tudo com a mão esquerda bem colada à coxa, e a direita em continência, sem baixá-la, a não ser que o oficial ordene. E se o braço esquerdo não cai naturalmente, se está arqueado, o superior dirá que ele é uma asa de açucareiro... Se na farda lhe falta um botão, o superior dir-lhe-á: Você está nu, soldado. Vista-se e venha falar comigo!

Na vida civil, a gente só cumprimenta aquele a quem estima. E tanto pode ser um bom dia, um “alô”, um “o que é que há, velhinho” etc. Mas o soldado tem que andar sempre vigilante, em cada rua, em cada esquina, em cada canto. E não adianta sair à paisana, porque soldado só pode andar fardado.

À noite, lá está ele na rua, na praça com a namorada (até à hora de recolher ao quartel) ou aproveitando uma folga que teve por ter feito uma marcha de vinte ou trinta quilômetros. Mas, aqui e ali passam os cabos, os sargentos, os oficiais... O idílio é constantemente desmanchado pelas continências

Às vezes, no ônibus, está ele todo satisfeito, bem sentado junto à vizinha. Entra um superior e lá se foi o lugar...

Teve espírito, portanto, o autor (não sei se anônimo) desta quadrinha que ouvi de soldados do Exército em Pernambuco, com a música do toque de corneta para o banho, em que o soldado se crê indigno de ser amado:

“Mulher que ama soldado

  Ama cachorro também

  Cachorro ainda tem rabo

  Soldado nem rabo tem...”

Ou então este dito bem carioca: - Soldado não tem vez (isto é, oportunidade).

c)Uma herança do Patriarcalismo na Caserna.

Esses princípios comuns a todos os quartéis do mundo, não foram inventados especialmente para martirizar o cidadão que veste a farda e sim para lhe imprimir a vigilância, a presteza, a vivacidade na execução das ordens, mesmo ante o perigo do combate – finalidade precípua da instrução militar.

Entretanto, esta necessidade de moldar primeiro um cidadão que já deveria vir formado pela vida civil, exagera as fronteiras do rigor disciplinar do Exército e acentua muito mais a diferença entre o comandante e o comandado.

Não se trata da simples separação de alojamento, de rancho, de banheiros e privadas, de lugar de recreação, por si mesmos já bem diferenciados. O soldado brasileiro é tratado como um colegial, transição do patriarcalismo já analisado. A este homem que o Exército tem que preparar no quartel não se dá a amplitude da responsabilidade que deve ter. É a mesma coisa que ocorre nas fábricas, nos escritórios, nas empresas particulares: - é preciso a presença do chefe, do fiscal – como os alunos necessitam de um inspetor. Desde que o “mestre” esteja ausente, o “aluno” acende um cigarro, faz uma  garatuja no quadro negro, joga uma bola de papel ou ensaia uma palhaçada qualquer... É outro defeito de origem nacional. Partimos do pressuposto de que todo o mundo é desonesto ou inábil: do princípio de desconfiar de tudo; criamos uma série de leis e regulamentos minuciosos; surgem os papéis, os selos, os carimbos. Os recarimbos, os autos, os flagrantes, as inquirições, os julgamentos mais complexos e intermináveis. Todo o mundo fica inibido, peado pelas exigências e pela burocracia. Finalmente, quando se apanha um que falhou, que furtou, que falsificou um cheque ou infringiu algo, não vai sofrer lá grande coisa... A falsa piedade, os arranjos, as provas, as testemunhas, as desistências, tudo favorece. Se há países em que se não  pode acreditar muito na fiscalização, o Brasil é um deles. Seria necessário criar o fiscal do fiscal até o infinito. Os americanos, neste ponto, são mais práticos. Partem mais ou menos do princípio de que todos são bons e deixam correr a vida. Mas, uma vez apanhado o faltoso as conseqüências são duras. Doa a quem doer. Desta forma os honestos e bem intencionados não têm os seus passos tolhidos pela minoria desonesta. Tanto na paz como na guerra, o homem representa em produção o que é realmente e não o  que poderia ser. O que não cresce espontaneamente, de forma lenta e constante, não adquire consistência.

Um soldado “colegial” é uma preocupação permanente. A sua personalidade não atinge as alturas que lhe podem exigir as circunstâncias.

Este receio do relaxamento disciplinar entre comandante e comandado é que estreita de forma bem acentuada as exigências regulamentares de uns para outros, de maneira por vezes exageradas.

O soldado brasileiro saiu deste plano para outro muito mais restrito decorrente da própria convocação  para a guerra. A vida de quartel piorou muito. Em primeiro lugar, a certeza de que embarcaria para a Europa onde a guerra o esperava plantou-lhe a angústia instintiva da morte. Ocorre nos homens, nestas situações, como nas plantas ameaçadas; há como que um desejo de vida de reflorir e frutificar. Obrigados a penosos exercícios, submetidos a mais fortes exigências físicas, uma vez em folga, esses homens bebiam, expandiam-se, do que resultavam certos excessos mal compreendidos e maiores depressões físicas.

É preciso observar que esses soldados receberam sobre os ombros, o encargo de, eles – uma minoria incrível – desagravar e representar o Brasil na guerra que este declarara. Não existia uma situação geral de luta em que todo um povo tem que servir em qualquer frente e faz da desgraça geral um estado comum. Deste “élan” nacional que arranca das profundezas da alma, em lampejos de entusiasmo patrióticos, a vontade de combater. É, às vezes, chocante, ter um homem de lutar e talvez tombar longe de sua Pátria, quando sabe que atrás dele ficam dois mil; dos vinte mil que seguem, ficam quarenta e cinco milhões...

Assim, após sofrerem uma compressão tremenda, desde que se tornaram expedicionários, pois a “vida de soldado” piorou, ao embarcarem sentiram o desafogo que analisaremos.

d) Disciplina militar americana.

Desde que sob a organização americana os homens caminharam para o grande navio transporte, outra seria a sua vida, outra a sua personalidade, outras as circunstâncias.

As emoções e saudades já começaram a indiferenciar os homens, comandantes ou comandados. As próprias fardas, feitas para dificultarem o discernimento inimigo, já não distinguiam tanto o superior do inferior. O oficial já não tinha bagageiro que lhe carregasse o saco. Cada um que transportasse o seu e com ele galgasse as escadas do navio.

Ali a alimentação era igual para todos. Quem não prestasse serviço, oficial ou não, só teria direito a duas refeições diárias. Os que trabalhavam, mesmo soldado, recebiam três. Todos, indistintamente, estavam sujeitos aos mesmos perigos, aos mesmos rigores da guerra, pois a morte não tem preferências. Daí por diante as coisas seriam bem diversas...

Até aquele momento, o soldado do Exército tinha dado o seu “murro”, curtido o seus sofrimentos e as suas desigualdades sem  que ninguém lhe atribuísse nenhum destaque. Estes, porém, que iam partir com uma interrogação atravessada na garganta, já haviam recebido palmas e flores pelas avenidas. Os jornais proclamavam, em negrito, qualidades que eles nem imaginaram. E dentro em breve, eles que sempre foram chamados, simplesmente, “praças” receberiam o diminutivo carinhoso de “pracinha”...

Quando o grande transporte ganhou o alto mar, esta bela cidade do Rio de Janeiro, já invisível, deixou de ser o torrão natal daqueles brasileiros de todos os recantos e cada um aninhou dentro de si as suas saudades. A imensidão Atlântica fez de cada homem uma enseada tranqüila. Depois, a alma artista e simples do povo começou a falar pelas cordas dos violões e dos cavaquinhos, das cuícas e pandeiros. E o homem cantou músicas sentimentais como “Na Baixa do Sapateiro” e relembrou “a morena mais faceira da Bahia...”.

E veio o cinema americano em filmes novinhos para alegrar o soldo. E vieram as brincadeiras, as lutas de boxe, a presença de Netuno na passagem do equador, as músicas do alto-falante, as notícias, o serviço religioso. Uma vez ou outra os exercícios de salvamento ou o toque de alarme lembravam a presença do inimigo naquelas águas imensas em que só o radar penetrava.

A disciplina não deve partir somente do soldado. Deve estar em  tudo que o cerca. E tudo naquele transporte emana disciplina e ordem. Tudo era feito a tempo e à hora. Os marujos em seus postos, juntos das suas armas, nos postos de observação, no trabalho de limpeza ou renovação da tinta, na cozinha, etc. Não se via o comandante. Não se viam oficiais dando ordens, sargentos para lá e para cá. Aqueles americanos pareciam mudos. Era como se cada um fosse comandante de si mesmo. E os brasileiros se adaptaram àquele estado geral como peças de máquina.

É que os americanos traziam da vida civil e mecânica, a sua disciplina natural. Nos Estados Unidos, todos sabem mais ou menos o que seja a atenção à lei e o preço da sua desobediência. Governantes e governados se respeitam e se acatam, porque ambos respeitam e acatam a autoridade maior que é a Lei. As suas forças armadas, parcela daquele todo, não podiam fazer exceção. Não se viu o Congresso dos Estados Unidos punir publicamente um dos mais bravos e valorosos generais – o General Patton – por ter esbofeteado um soldado em crise histérica? A posição não cria imunidade. A falta ou o crime de uma autoridade, por mais alta que seja, não desmoraliza as instituições. E a impunidade daqueles que mais as deveriam respeitar que o faz.

Cada um deve saber quais os seus direitos e quais as suas obrigações. Mas esta mentalidade legal, que sem dúvida existe mais perfeita ainda, em países como a Suécia, Suíça, Inglaterra, etc., não é conseqüência espontânea. É, sim, fruto da vigilância permanente do espírito de ordem e de legalidade, vividos há séculos. O mais é uma simples decorrência destas. Soube que na Suíça, durante a guerra, nas repartições, nos escritórios particulares, no comércio, os civis trabalhavam  equipados. A seu lado, estavam as carabinas, a sua máscara, os capacetes de aço. A um toque de alarme, todos estariam prontos e correriam a seus postos para defender a pátria. E cada um sabia o que fazer. Dir-se-ia que o comando americano poderia prescindir da vigilância que mantinha, pois o soldado – um civil que vem de uma vida organizada e legal – por si mesmo saberia manter aquela constância e equilíbrio no cumprimento do dever. Porém, a autoridade, seja qual for, não pode esmorecer na constância da perfeição. A natureza humana é fraca e tende à inércia. Conseguida a ordem, é preciso mantê-la como a uma chama que se não pode apagar.

Vi, naquele transporte, como se conseguiu isto. Cada um é responsável pelos seus atos e obrigações da mesma forma que é senhor dos seus direitos e vantagens. Mas, o comando não espera pelo esmorecimento daquele padrão para remediar. Diariamente, o subcomandante do navio, acompanhado de um taquígrafo sai à inspeção mais rigorosa que eu já vi. É como se fôra a primeira, após um ano de ausência e, entretanto, é o comum de todo dia. De lanterna à mão, vai a toda parte. Entra em banheiros e privadas, camarotes e alojamentos, corredores e recantos, cozinhas e frigoríficos. Nada escapa! De lanterna acesa, agacha-se para ver por baixo dos móveis, esfrega o dedo sobre as coisas em busca de qualquer sujo, abre os armários e gavetas para ver a ordem interna, interroga, observa. Qualquer falta, uma simples torneira que vaza, uma caixa de descarga sem funcionamento uma desobediência regulamentar, ele a proclama e o taquígrafo anota.

Os nossos camarotes de oficiais, eram também visitados. Nós, os oficiais, tínhamos de varrê-los, apanhá-los, passar um pano úmido sobre o encerado, forrar as camas, limpar as pias e os espelhos e deixar à porta a lata do lixo para ser recolhida. Se na inspeção o camarote não estava “very well”, ou pelo menos “well”, a conseqüência era a cadeia.

Por obrigação acompanhei o subcomandante americano nestas inspeções e só não consegui entrar no frigorífico, porque o frio era demais... Da porta vi, porém, a ordem, arrumação notável das caixas de ovos, de frutas, de conservas. Que limpeza! De lá não emanava nenhum odor desagradável, que eu esperei encontrar em tão grande frigorífico, em meio de tão variado sortimento.

Ora, diante de uma inspeção real, assim, permanente, constante, honesta, o homem, qualquer que ele seja, compreende que é inútil deixar de fazer as coisas como devem ser feitas. A ordem, a obrigação, torna-se a rotina. E como o hábito é a repetição de um ato, os homens ao fazerem, todo dia, às mesmas coisas, habituam-se por si mesmos, dispensando que se lhes dêem ordens a cada passo, que se lhes dêem instruções a cada momento,  que ocasionariam má vontade, atritos, vexames, gritos, sermões, relaxamento da autoridade, insensibilidade de caráter e confusão.

Em lugar dessa vigilância permanente (não sobre os homens, porém sobre as tarefas), imagine-se uma inspeção assim: um dia a tropa toma conhecimento de que um general ou outro oficial superior, no dia tal visitará o quartel. Um frenesi apodera-se de todos. Os soldados exercitam-se para uma apresentação exemplar. É um corre-corre, um limpa-limpa, um esfrega-esfrega, um lava-lava medonho. Bronze e metais ficam espelhando. O pátio do quartel, as privadas, banheiros e a cozinha são objetos de atenções especiais. Os detritos desaparecem. Os desinfetantes entram em ação. As moscas são apanhadas de surpresa numa guerra mortal. As coisas são arrumadas e o que sobre é empurrado para dentro das gavetas e gavetões. Ao chegar a autoridade, tudo está perfeito! Uma ordem do dia traduzirá a satisfação do general e todos terão uma folga justa e merecida após aquela azáfama terrível.

Mas o dia seguinte é um Deus nos acuda, pois muita coisa não será encontrada. A poeira, volta. As moscas, indecisas e descrentes, também. O mau cheiro... onde haveria de estar o mau cheiro, se não no seu lugar lógico e natural? E a cozinha? Um mercadinho de detritos, folhas, carnes expostas, panos sujos, o diabo!

Uma inspeção dessas é uma escola de ilegalidade, de fraude à lei regulamentar. É a indisciplina comandada porque ensina o soldado a ludibriar o seu superior.

Nós possuímos unidades modelos. Os nossos quartéis são, em geral, bem construídos. É fácil, por conseguinte, manter a limpeza. Onde existe vassoura e água corrente não pode haver mau cheiro. Se não existem detritos e se as latas ou depósitos de lixo estão bem fechadas, não pode haver moscas. É verdade que ao nosso homem falta, infelizmente, os princípios elementares de higiene. Não sabiam forrar as camas direito, o que constituía vexame para as enfermeiras. Presenciei isto no 7o Hospital em Livorno. Entretanto, apesar de ter passado ali alguns dias, as ligeiras palestras que mantive com eles,  surtiram o efeito desejado. O elemento humano é bom, amoldável. O que lhe falta é educação. Aulas bem orientadas com utilização do cinema educativo mostrando o certo e o errado, seria o remédio. Alias, nós temos o Instituto Nacional do Cinema Educativo que poderia prestar ótimos serviços. As organizações cinematográficas que fazem filmes medíocres poderiam contribuir para a educação do povo pelo cinema, desde que o Governo incremente a produção de películas desta natureza, concedendo prêmios anuais que as estimulem. Para os cozinheiros, copeiros, ajudantes de cozinha, etc., só mesmo um microscópio... No dia em que se apanhar a água aparentemente limpa, os alimentos, aparentemente bons, e se fizer este pessoal ver pelo microscópio os “bichos” em movimento, neste dia acreditarão no micróbio e terão certeza de que “nem tudo que brilha é ouro”...

A disciplina americana parece diferir da nossa, precisamente porque ela não se exerce sobre os homens, individualmente, acompanhando-os como uma sombra feitora, porém sobre os resultados, os atos, as obrigações que deles se esperam. O regulamento manda que se faça assim. Cada um sabe como deve fazer. Então que se cumpra. Se o resultado não está de acordo com os preceitos regulamentares, com as determinações superiores, pune-se imediatamente. Este processo de dar autonomia ao homem, empolgando-o pela responsabilidade, pode ser exercido em qualquer circunstância e sobre qualquer elemento. Durante as oportunidades que tive de comandar, inclusive centenas de soldados descontentes, retirados de vários pelotões e que ficaram no acampamento em Francolise, fiz experiências que me parecem satisfatórias. Orientar o homem pela doutrinação; deixá-lo livremente e sob sua responsabilidade executar a ordem; puni-lo ou distingui-lo no final, se deixou ou não de cumprir o dever. Depois que a ordem, o asseio e tudo o mais se tornarem verdadeira rotina, o homem adquiriu o bom hábito e dificilmente o perderá.

e) Existe uma disciplina própria da Linha de Frente.

Já vimos acima, mais ou menos, a pressão que a vida de quartel imprime no conscrito, acrescida dos complexos da nossa formação nacional.

Outrora, as elites se dividiam entre os que permaneciam nas profissões liberais e os que seguiam a carreira das armas. Destarte, os seus filhos não se encontravam no quartel porque a tropa era formada pela massa comum e desfavorecida. O civil que ia ter no quartel era o “homem do povo”, que saía do “comando paisano” para o “comando militar”.

Se observarmos bem este aspecto da nossa formação encontraremos conclusões interessantes quando à estrutura mental das chamadas “Classes Armadas” e das “Classes Liberais” – militares e “paisanos”.

A proporção que nos democratizamos, estes sintomas vão desaparecendo. Houve, também, a grande influência da simplicidade e civilismo do Exército dos Estados Unidos. Acontece, todavia, que o militar em contato permanente com a grande proporção de soldados incultos, no esforço de fazer do nada – um homem respeitador da lei do quartel, um disciplinado, absorve grande parte daquela rusticidade. A falta de formação educacional e legal do soldado prejudica bastante a disciplina consciente. O inculto não pode transformar-se de uma hora para outra, senão pelo grito, pelo medo, pelo receio do comandante. A sua mentalidade não pode ter a noção do comportamento pelo dever, pelo direito, o que deveria ser moldado desde o berço no equilíbrio jurídico e legal de toda a nação. Em geral, a força é a condição primária que respeita. Desta forma o comandante, o militar corre o risco de influenciar o espírito pela autoridade, pela indiscutibilidade dos seus princípios, de suas ordens. Se isto ocorrer, pode ele caminhar para a intolerância.

Quando a disciplina não é consciente, o soldado despersonaliza-se, inibe-se, anula-se na inconstância, não adquire um ritmo racional no cumprimento de suas obrigações.

Ao pisarem na Itália ao som das bandas militares americanas, os soldados começariam a perceber cada vez mais a diferenciação disciplinar entre a sua vida no Brasil e na guerra, entre o que ele chamaria o “Exército de Caxias” e o “Exército da FEB”. Haveria de dar o seu “murro”, porém, sentindo o prazer da camaradagem, o valor da sua personalidade, a importância da sua “maioridade militar”.

Leia a parte 3/3
 


Última alteração em 11-09-2006 @ 07:50 pm

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