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Espírito da FEB e Espírito de Caxias - 3 de 3
Inserido por: Coordenador
Em: 11-09-2006 @ 07:54 pm
 

 

Continuação... Leia antes as partes 1/3 e 2/3

 

Ainda sobre a impressão das ordens e contra-ordens, do manda e desmanda, da “última forma”, antes de seguir para a linha de frente ele traduziu em verso, com a música de “Deus Salve a América” o seu desapontamento com o “Saco A”, saco que acompanha o combatente que vai para o front:

Chegou a hora

Da cobra fumar

Saco “A”

Às costas

Ó que murro

Que a gente vai dar!

Pega o saco!

Larga o saco!

No lugar!

Chegou a hora

Da cobra fumar!

É preciso notar, entretanto, que a rigidez disciplinar decresce, naturalmente do quartel para os acampamentos de paz ou retaguarda da guerra, e desta para a frente de combate.

f) A disciplina na Frente, é mais humana.

Na guerra, os expedicionários encontraram, por entre múltiplos fatores, ambientes para a expansão da personalidade. Aquele rigor do quartel deixou de ser necessário. Em plena campanha a disciplina afrouxou as rédeas. Certas exigências – necessárias no quartel – perderam a razão de ser. Esta diferenciação disciplinar era flagrante.

Em combate, cada um está entregue ao seu destino, quanto aos deveres que deve cumprir. Um simples erro pode ser a morte. No oficial desaparece o “professor”; no soldado, acabou-se o “aluno”. Ambos eram combatentes e a teoria dava lugar à prática.

O instinto de conservação passaria a ser o disciplinador comum. Se um soldado procedesse de forma imprudente, seus próprios colegas reprová-lo-iam. Ninguém está disposto a sofrer as conseqüências de atos alheios, com sacrifício da vida.

Meditei sobre isto no deslocamento através do lindo e fértil Vale do Pó. Parecíamos perdidos. Os alemães desapareceram e nós precisávamos tomar contato com eles. Montamos os caminhões ainda com o sol bem alto. Corremos estrada afora num ambiente de desolação. Não há nada tão triste e silencioso como as ruínas recentes de um combate. Tudo o que antes representava vida palpitante de uma civilização transformava-se na figura mais completa da morte. Pelos campos, animais inertes. Galhos retorcidos, cortados, perfurados. Árvores prostradas nos rios. Ali, viadutos arqueados em destroços sobre a estrada. Barreiras derramando-se pelas estradas. Estradas desequilibrando-se em despenhadeiros. Vilarejos transformados em diabólicos e confusos depósitos de materiais de construção. Uma parede em pé guarda ainda um quadro. Por entre os montões das ruínas, estranha exteriorização de uma cozinha como uma natureza morta. As aves fugiram. Nem um cão vagabundo. Só o silêncio e uma poeira tênue e estática amortalham o espaço como se fosse, realmente, um vale de pó. De intervalo a intervalo, os agachados tanques tedescos apontam ainda os seus canhões inúteis e ostentam nas chapas de aço camufladas as queimaduras e os efeitos dos certeiros impactos. Desceu a noite e continuamos a correr atrás do que parecia um fantasma.

Tive a impressão de que estávamos passando pelo mesmo lugar. Os dez pneumáticos do meu caminhão gemiam sobre a terra revolvida das estradas carroçáveis. (Por que não íamos pelas auto-estradas? Estariam minadas? ) Aqui e ali letreiros alemães indicavam campos de minas: - MINEN. – Tê-los-iam abandonado na pressa ou as plantaram de propósito em terreno limpo para nos confundir? Depois, uma noite lívida, transparecia numa claridade de velório. Um frio penetrante e seco veio juntar-se ao da nossa inquietude. (O nosso avanço pelo Vale fôra tão rápido que constituiu um problema para a artilharia e para a aviação. Lugares tidos como ocupados pelo inimigo já estavam em nosso poder. Foi por isto, talvez, que um avião aliado bombardeou Zocca quando esta cidade já havia sido tomada por nós.)

(Neste deslocamento, escapei de um desastre, exclusivamente por ter cumprido o que julguei ser o meu dever. Na corrida um dos três caminhões do meu pelotão passou à frente. Numa rápida parada, tendo verificado este fato, desejoso de ter sempre à mão a minha tropa e como seria difícil manobrar naquela estrada carroçável, deixei o carro onde vinha e me transferi para o da frente. Alguns momentos depois, aquele caminhão que eu deixei virou desastrosamente num precipício. Morreram o motorista e os sargenteante da companhia. Os soldados ficaram todos feridos e com várias fraturas e só foram encontrados, parece-me, pelas tropas do 11o Regimento, no dia seguinte. Só o meu sargento auxiliar escapou ileso por ter saltado do caminhão, no momento exato da virada.)

Os caminhões corriam e corriam perseguindo uns aos outros como se ninguém quisesse ficar para trás. Numa encruzilhada não vi mais ninguém à minha frente. Para que lado  teriam ido? Saltei e decidi a direção a tomar, observando pelo tato as marcas dos pneus na poeira da estrada.

O inimigo poderia estar oculto. As vilas emergiam de repente como cemitérios abandonados. Disparávamos as nossas metralhadoras, jogávamos granadas. Só as detonações ecoavam ao longe.

Corríamos há bastante tempo por entre parreiras erguidos como caramanchões sem fim. De repente, uma decisão superior nos faz parar. Então, o silêncio caiu sobre nós como um ruído imprudente. Vi como os soldados permaneciam quietos, embuçados em seus capotes. Ninguém ousou minorar a frieza com um cigarro. Nenhuma palavra...

Não me agradava aquela parada. Estávamos entre bosques, expostos na claridade branca da estrada. Se o inimigo estivesse oculto ali? Bastaria destruir os caminhões das extremidades e nos varar com as suas “lurdinhas” (a metralhadora alemã MG 42) antes que, atônitos, pudéssemos tomar posição.

De repente, um lindo canto de pássaro, de dentro do bosque cortou o silêncio que nos envolvia. Os alemães tinham o costume de fazer comunicações, imitando pios de aves noturnas. Do outro lado do bosque, bem perto de nós, outra ave lançou ao ar o seu gorjeio estridente, como resposta. O sargento ao meu lado perguntou-me:

- Ouviu, tenente?

- Ouvi.

Os soldados, apesar da fadiga, mesmo parados os carros não se levantaram dos seus lugares nem fizeram ruído. Evitaram descer até para verter água, fazendo-o de cima dos caminhões, com a natural precaução das minas traiçoeiras.

É interessante observar que os combatentes, usando capacetes e field-jacquets americanos, não traziam distintivos. Mas os sentidos se multiplicavam para ver e ouvir. Nestes momentos, os homens adquirem “olhos de jeep”...

Na frente, o perigo irmana a todos. Do soldado ao sargento, do comandante do pelotão ao da companhia, a identificação é em geral completa. O instinto, polariza os homens, reunindo-os. O exemplo é decisivo.

Conta-se que a um aspirante recém-chegado ao front fôra entregue o comando de uma posição avançada e perigosa. As provisões só podiam chegar até lá, em mulas e assim mesmo à noite, por causa da interceptação do inimigo. (Entregar um comando destes a um aspirante, sem antes promovê-lo à tenente, parece-me um erro de efeito psicológico desastroso para os comandados veteranos. A uma tropa é aborrecido a chegada de outro tenente. Todos desejam saber quem será. E se vem logo um aspirante...) Mas, como ia dizendo, logo na primeira ou segunda noite, os tedescos deram um “golpe de mão” vigoroso sobre aquele posto avançado. O pobre aspirante não pôde conter a sua tropa e, com ela, bateu em retirada. Entretanto, um cabo que estava em um dos flancos comandando um grupo, aferrou-se ao terreno e repeliu o ataque. Foi um sucesso! Já lhe haviam destinado uma condecoração. Quando o cabo chegou à companhia receberam-no chamando-o de herói.

- “Herói coisa alguma”, replicou o cabo, “se eu soubesse que estava sozinho, eu tinha é caído fora, também!...”

Ante esta declaração, não levaram mais em conta a realidade e desistiram da condecoração ao cabo...

Quando chega a hora decisiva, não se escolhem lugares especiais.

É conhecido o fato de um coronel, homem de coragem notória, que antes do bombardeio destruidor de Montese, estimulara os seus comandados, considerando-os afiados, dizendo-lhes:

- O meu batalhão está uma navalha!

No momento do combate, ele fôra examinar a situação realmente perigosa dos seus homens ante o bombardeio inimigo e tivera de repente que mergulhar na terra, é lógico. E o interessante é que, no meio daquela confusão, um soldado teve a presença de espírito de gritar:

- Aí, navalha!...

Mas, voltando à disciplina instintiva, imposta pelo medo, ante aqueles soldados quietos, silenciosos, sentados nos caminhões depois de mais de dez horas de viagem, recordei as nossas manobras no Brasil.

Nos combates simulados, o soldado sabe que o inimigo é uma ficção. Sabe também que os tiros e as explosões não têm outra conseqüência a não ser o ruído. Não há minas escondidas, nem perigo de vida. A disciplina neste caso, é muito mais difícil. O soldado cava um abrigo, sem entusiasmo. Não se protege devidamente. Expõe-se, escolhe lugares pouco apropriados para se deitar, etc.

Nas marchas de aproximação ou nas patrulhas noturnas, fazem-se ruídos incríveis, acendem-se as lanternas, quebram-se galhos de árvores. Era comum, ouvir-se bem longe, diálogos como este:

- João! Ó João!? Onde está você!?

- Tô aqui!

- Espera por mim!!

E era aquele zunzum, aquela conversa, uma praga, um palavrão...

Na guerra, porém, o perigo real é um disciplinador que está presente e vigilante. O homem não precisa que se lhe recomende silêncio. Ele mesmo gostaria de ter os pés tão leves, que nem tocassem o chão. Já não digo para  evitar a explosão de uma mina oculta, mas para não estalar uma folha. O soldado que no Brasil, durante os exercícios, usava a sua picareta sem o menor entusiasmo, sob um bombardeio gostaria que a sua cabeça fosse uma perfuratriz que fizesse o seu corpo penetrar na terra como um arado... Ele cava com ardor desconhecido. Será capaz de cavar até com os dedos e as unhas, se não tiver ferramenta.

O tenente e o sargento, neste ponto, sentem um grande alívio. E os soldados mais autonomia. Por eles mesmos, terão mais cuidado com as armas automáticas, com os fuzis, funcionamentos e lubrificação. Não se esquecem das suas rações alimentares, da ferramenta de sapa, acompanham com maior vivacidade os movimentos dos seus comandantes.

Dão e recebem igual consideração.

Em compensação, os comandantes (cabos, sargentos, tenentes e capitães) vêem aumentar outras responsabilidades, surgir outras preocupações. Sim, porque o mesmo medo que disciplina e coordena, o mesmo instinto de conservação desenvolvendo a vivacidade do homem, pode criar, também, inibições e recalques, variando de pessoa, de conformidade com seu temperamento.

Conheci um soldado que se  apegara à religião. Homem respeitador e querido pelas senhoras italianas que dele se despediam quase com lágrimas nos olhos e não se acanhavam de beijar maternalmente as suas faces de “mouro”. De uma feita, ao ouvir um ruído intermitente de avião, de aparência tedesca, corri ao celeiro para ordenar que se apagasse uma luz tênue que transparecia. Ao chegar ali, encontrei uma vela acesa e este soldado de joelhos, tirando o terço que outros também de joelhos, respondiam religiosamente.

Qual não foi a porém, a minha surpresa, ao terminar a guerra, ao verificar que este mesmo soldado, devoto e sério, transformara-se num verdadeiro mulherengo, e vivia desfiando um rosário de safadezas...

Outros podem dar-se às perversões de caráter, ao saque, à brutalidade e à embriaguez ou mesmo à covardia absoluta e incapacidade para o combate. Felizmente, estes casos mais graves, constituíam exceção, pois em geral somos um povo de boa índole, mormente se tivermos em conta, o abandono educacional em que vivem os nossos patrícios.

Durante os avanços, ao chegar a um determinado ponto, têm a tendência natural para se espalharem, por curiosidade de ouvir dos habitantes locais informações sobre os inimigo, de ver e observar os costumes, as coisas que os cercam. Se o estacionamento é mais prolongado, surgem as namoradas, as amantes...

Houve um soldado no meu pelotão, que por duas vezes desapareceu por uma das casas que pontilham os campos italianos, sem comunicar previamente ao sargento. Era um sertanejo nordestino, contador de histórias, que fazia todo o mundo rir nos momentos mais sérios. Por duas vezes, na hora de deslocar, faltava-me este soldado. Adverti-o seriamente de que o abandonaria desarmado onde estivesse, se repetisse a falta. Precisamente, quando do cerco da 148a Divisão de Granadeiros alemã, quando íamos deslocar em marcha, ele não estava presente. Por causa de um homem, não poderia retardar o deslocamento do pelotão. Só na madrugada seguinte, este homem me apareceu. Quando foi levado à minha presença, disse com uma espontaneidade que lhe revelava o estado de espírito:

- “Virge Maria, seu Tenente!”

Embora fingisse indiferença pela sua chegada e o incumbisse de uma missão, sem levar em conta seu cansaço, senti um grande alívio ao vê-lo de volta. Não sei como nos encontrou. Penso que não f6ora ele um sertanejo, ter-se-ia perdido. Mas era necessário dar o exemplo que, aliás, o corrigiu. Após a guerra, jamais repetiu a falta. Nos momentos de deslocar, vi-o sempre equipado e pronto. Era o primeiro...

Em geral, porém, o pelotão, a companhia, vive como família. Depois dos combates, como o de Montese, vi-os em repouso, reunidos, irradiando toda aquele pressão psicológica de um dos maiores bombardeios já vistos na Itália. Ora riam nervosamente comentando um fato, uma passagem perigosa, o aperto de um camarada:

- Puxa, fulano passou como uma listra!

Às vezes, reproduziam a aproximação das granadas em onomatopéias que mais pareciam a buzina de um Ford primitivo: fon-fon, fon-fon... É só pena que voa...

Falavam sem parar. Riam a valer. A pretexto de recordar um camarada que não voltou, que morreu (o próprio Capitão que fôra ferido por uma chuva de estilhaços) comentavam os fatos com sentimento, fisionomias abatidas e caíam num silêncio de pedra, angustiante. Nós todos estávamos sentados ali. O Capitão subcomandante da companhia, que assumira o comando em pleno combate, também. Os soldados interrogavam-no, nas conversas, pedindo o testemunho deste ou daquela comentário. Jamais tinha eu visto tamanha simplicidade, tamanha camaradagem. Aquilo era um desabafo. Segundo me contaram houve quem vomitasse sangue com o deslocamento de ar provocado pelas explosões. Realmente, o ruído era um só. O bombardeio extraordinário da nossa artilharia e se não me engano dos norte-americanos e ingleses juntavam-se ao do alemão, transformando aquela zona num verdadeiro inferno. (Eu vi no meio do campo, como que abandonada, uma bateria de poderosos holofotes aparentemente antiaéreos, colocados por trás de um monte e visando o lado inimigo. Pelo que me disseram, tinham por objetivo clarear as cristas dos morros ocupados pelos tedescos.)

Aquela vida em comum, vinculada pela ansiedade, sobrepôs-se às emoções humanas, às posições sociais, aos postos hierárquicos e proporcionou ao soldado brasileiro as balizas de um grande diferenciação entre a vida militar na paz e na guerra, entre o quartel e a campanha, fazendo-os distinguir o Exército Nacional, o Exército de Caxias, da FEB.

g) A falsa disciplina afasta a compreensão dos soldados.

Uma das coisas por que os praças em geral tinham antipatia, era o rigor disciplinar que os divorciava dos oficiais. Já não me refiro à diversificação dos ranchos, alojamentos, dos chamados “círculos”, mas à maneira de falar, à rigidez das atitudes e principalmente à continência em toda parte, a cada canto, a todo o momento, mesmo na rua. A obrigação de ceder o lugar no bonde, no ônibus, no cinema, o que constrange, principalmente quando o soldado, cabo ou sargento vai acompanhado de sua esposa. Observei, aqui no Brasil, que muitas vezes o praça se humilha mais fingindo que não vê o superior hierárquico, parando para ver uma vitrina, tomando direção diferente, por exemplo, do que se cumprisse logo seu dever fazendo a continência. Na Itália, começaram todos a imitar o norte-americano, em cujo Exército não existem estas exigências, pelo menos na prática. Na rua, vi cruzarem-se oficiais e soldados cada um para seu lado, sem se saudarem a todo o momento. Na fila do teatro ou cinema, a vez era do primeiro que chegasse. Nos ônibus e transportes, o lugar era de quem o encontrasse vazio. Isto, a princípio, me deu a impressão de que os norte-americanos eram “apaisanados”. Mas é um engano. Quando o soldado, sargento ou oficial tem que se dirigir a um oficial superior ou se é por este interpelado para um consulta, uma informação qualquer, em plena rua, perfila-se, faz a continência com vigor militar, numa atitude correta e respeitosa como um cidadão educado trata em público um desconhecido. Eu os vi, também, nos quartéis, quando se dirigem a um superior. Em serviço, o soldado norte-americano é “mil por cento” soldado. Recordo que tive que ir certa vez a um quartel americano em Florença. Quando para lá caminhava observei a atitude da sentinela, que em passadas marciais ia e vinha na calçada do quartel. Todos os seus movimentos se repetiam com precisão matemática. Chegava até à extremidade, parava, olhava de um lado e outro, fazia meia-volta (diferente da nossa) e assim de um lado para o outro, sempre na mesma atitude, sempre do mesmo jeito, como determinava o seu regulamento. Quando cheguei à altura da entrada do quartel, encontrei-me com ele. Parou, fez um movimento para mim desconhecido e só quando percebi que ele me apresentava armas e respondi à continência, foi que ele fez “ombro-arma” e prosseguiu impassível a sua caminhada...

Tive a oportunidade de verificar em fotografias e noticiários cinematográficos de expedições científicas e civis que o sistema é o mesmo: cientistas e mecânicos, ajudantes, auxiliares, entram na mesma fila pra a “bóia”, sentam-se nos mesmos bancos. É o resultado de uma nação organizada, disciplinada em que cada um sabe quais as suas obrigações, os seus deveres, sem que a camaradagem quebre o respeito que todos devem ter reciprocamente. Contaram-me, também, que nas fábricas e oficinas norte-americanas, operários, gerentes, mestres, técnicos andam de macacão ou em maga de camisa, sendo difícil para o visitante distinguir, à primeira vista, o mestre artífice, o técnico, o engenheiro ou químico do operário comum. À noite, numa “boate”, num “night-club” metido em seu “smoking” pode estar o engenheiro ao lado da mesa do simples operário, jantando, rindo, divertindo-se... Esta educação e esta disciplina da vida civil de padrão elevado não poderiam sofrer, dentro dos limites da organização militar, solução de continuidade.

No front, assim vivia o praça brasileiro com os seus oficiais, por força das circunstâncias da guerra, já analisadas acima. Já haviam observado o sistema norte-americano e, naturalmente, tomaram aquela modificação como sendo própria à FEB, e não como uma conseqüência do combate da guerra.

Tudo isto distanciava muito a Força Expedicionária do sistema disciplinar vivido no Brasil, acentuando cada vez mais os traços diferenciais daquilo que o pracinha chamava o “Exército de Caxias” e a FEB.

h) A rotina, mal aplicada.

Lá mesmo na Itália existia o Depósito do Pessoal, que relembrava ao soldado da frente a vida militar no Brasil. É que o Depósito, como retaguarda, tinha que manter maior disciplina, como se fosse um acampamento de paz onde os efeitos da guerra, o medo, o instinto de conservação e a camaradagem não criaram o clima mais solidário da frente.

E o homem do front sentiu isto de tal forma que consideraria um castigo se o enviassem para o Depósito. Por sua vez, os veteranos não eram bem vistos ali... A nós – oficiais recém-chegados, em aulas cheias de teorias (uma das quais afirmava que “o soldado alemão em defensiva não vestia a pela do inimigo” – princípio clássico que havíamos aprendido e que averiguei não ter caído em desuso) nos foi recomendado muitas vezes:

- Não dêem ouvidos às “histórias do front”.

O soldado da frente que batesse ali, estava frito. Não poderia sair, a não ser fugindo; tinha que ficar naquela favela feita de pinheiros abatidos, sem contato com mulheres, sem distração, deslocado do ambiente dos seus camaradas do front. Acordava com a alvorada. Tinha que entrar em forma para os exercícios de ordem unida e combates simulados... E se quisesse sair por ali apenas com o elegante e confortável gorrinho de lã ao invés do capacete de aço, caiam-lhe em cima como vespas. Não fizesse continência aos duzentos oficiais que por ali viviam para ver uma coisa! O seu descanso era o ruído das metralhadoras e das explosões das “bazookas”. Entretanto, parece-me que somente um ou outro ia bater lá. A frente precisava de soldados. Aliás, até hoje não compreendi porque as companhias viviam desfalcadas no front enquanto o Depósito mantinha milhares de soldados. No front, soldados ocupavam postos de cabo, cabos de sargento, sargentos de tenente e lá no Depósito aquele pessoal todo...

O Depósito era para os veteranos da frente a lembrança mais viva do Brasil, do quartel, no que ele tivesse de desagradável.

Quando terminou a guerra, um sargento meu foi até lá, conseguir um meio de receber os seus vencimentos. (Eu também passei três meses sem receber.) Quando o sargento voltou eu perguntei:

- Como vai o Depósito?

- Ah! Tenente, lá, a guerra não terminou ainda! Eu ia entrando calmamente e de repente quase me atiro no chão. Foi um tiroteio tão forte que eu pensei que os tedescos tinham voltado à guerra outra vez....

CONCLUSÕES.

a) problema da assistência psicológica.

É meu desejo chamar a atenção dos oficiais da ativa estudiosos e de visão larga, para este ponto, visto que apenas contribuo com o meu depoimento despretensioso, enquanto eles muito poderão fazer com os seus conhecimentos especializados em prol de um assunto de alta relevância no campo da disciplina e bem-estar do homem durante a guerra – de efeito psicológico imprevisível na formação e sustentáculo do moral da tropa.

A pressão de cima para baixo numa guerra é enorme. Toda a tropa da frente recebe o impacto de duas forças contrárias: a do inimigo que procura barrá-la por todos os meios materiais e a do Comando que a arremete contra o inimigo, usando de todos os meios materiais e psicológicos.

O homem do front tem assim o seu consciente terrivelmente comprimido pelo instinto de conservação e pelo cumprimento do dever, do que podem advir recalques e complexos incalculáveis, capazes de provocar profundos desequilíbrios físicos e mentais. Seria de mister, por conseguinte, a bem da saúde do homem que voltará à vida civilizada e da própria sociedade, que esses recalques fossem de momento em momento, sublimados por um repouso longe do front, onde o homem pudesse tomar contato com a vida civilizada de cujos hábitos e ambientes, a servidão do combate o afastara. Este é um ponto conhecido. Preciso é, pois, que seja levado em consideração como uma das teses mais importantes no planejamento da vitória sobre o inimigo.

A pressão exercida pelo Comando brasileiro foi bem acentuada. Pareceu-me, todavia, que esta rigidez decorreu da grande responsabilidade dos nossos comandantes que, apenas com uma divisão, representavam o Brasil na Segunda Guerra Mundial. Os brasileiros não podiam falhar, custasse o que custasse. Naturalmente, se se deixasse uma tropa à vontade, quase não haveria avanços... Mas, nós éramos apenas uma divisão. Se fracassássemos, seria o descrédito para a Força Expedicionária Brasileira. Daí a pressão ter sido tremenda e por vezes exaltada.

Isto criou uma mentalidade de indiferença e até de desestima pelo Alto Comando.

Surgiu um fatalismo displicente e irônico na Frente de Combate, que poderia ser traduzido nestas expressões: “Já vai tarde”, “O azar é seu”, etc. Sim, quem morresse ali, já ia tarde, envolto no saco branco dos mortos...

A FEB foi uma das divisões mais “sugadas”  e uma das que mais produziram no âmbito do 5o Exército americano. Isto já passou. É preciso, entretanto, aprender para o futuro.

O soldado brasileiro, apesar dos pesares, não teve uma assistência psicológica e mesmo material como a dos norte-americanos. (Basta observar que até oficiais feridos, quando tiveram alta do hospital, estavam sem farda brasileira, sem dinheiro, etc. Houve quem tivesse que sair com farda americana e quem se viu sujeito à contribuição de colegas e soldados numa “vaquinha”.)

Os homens saíam da frente numa proporção que talvez atinja a metade da tropa em combate. Destarte, a metade ou quase a metade não soube o que era um descanso num hotel, em cidade da retaguarda onde se distraísse e sublimasse as emoções recalcadas pelas duas pressões opostas.

Na Itália, depois de vários dias de acampamento, passei a noite numa vila às escuras e tive um deseja súbito de bater à porta de uma das casas. Parecia um absurdo. Não fui porque o italiano não iria compreender o meu gesto. Há dias, porém, que eu não via uma simples cadeira, um objeto familiar, um prato de louça ou um copo de vidro. Tive vontade de estar numa sala de visitas, sentir as quatro paredes de uma casa e todo um ambiente doméstico, enfim um recanto familiar

É realmente duro para um homem civilizado, passar dias e meses dentro do mato, comendo em marmitas, sentando-se em bancos de madeira, sem encosto ou no chão, comendo com as mãos sujas ou as lavando muito mal no capacete de aço, longe de uma infinidade de coisas a que nos acostumamos desde crianças... É quando sentimos quando valem objetos de que nos utilizávamos sem lhes dar maior importância.

b)A displicência dos serviços da retaguarda.

Os chamados serviços de retaguarda organizam-se em vilas e cidades, pela maior facilidade de instalações. Aí é que começam os perigos do que chamarei – instalação doméstica da retaguarda. O homem procura familiarizar-se com o ambiente, instalar-se domesticamente.

Ora, numa guerra, a população local sofre as conseqüências mais variadas. Na Itália, grande parte dos homens ausentes, deslocados, prisioneiros, aumentou ainda mais a desproporção entre o número de pessoas do sexo feminino geralmente maior e o do sexo masculino, acentuadamente entre os vinte e trinta e cinco anos. Havia falta de certos gêneros essenciais como gorduras, chocolates, doces, etc., sabão, açúcar, café couros e sapatos, tecidos, gasolina e outros produtos não virtuais, mas de que os povos civilizados sentem a falta no conforto cotidiano, principalmente as mulheres, como perfumarias (batom, pós, sabonetes, talco, etc.). O combatente começa por se aproximar das casas, pela curiosidade humana de conhecer aquela gente, saber o que houve, como agiu o inimigo, quais os seus hábitos, etc. Conversa com os velhos mais acessíveis, alisa a cabeça das crianças (o combatente torna-se sentimental. Hajam vista as fotografias que leva consigo. Os prisioneiros alemães, tinham em seus bolsos inúmeras fotografias de suas famílias. O mesmo acontecia com os americanos e em ponto menor com os brasileiros). Oferece caramelos e chocolates ou conservas de suas rações. Surge, então, a mulher desejada. Daí por diante, as visitas se repetem, desanuviam-se as dúvidas, nasce a intimidade, e familiaridade. O combatente torna-se amável, dá presentes: caramelos, doces, chocolates, gêneros outros mais desejados. Entra-se, assim, na fase da “escatolagem” (quanto maior o posto, maior a generosidade, principalmente se é o pessoal que lida com os provimentos) e aí começa a história. Era uma vez...

Ora, enquanto o combatente do front está empenhado em salvar a pele e sustentar o terreno conquistado, o militar da retaguarda é tentado a uma vida doméstica, principalmente quando o inimigo não conta com superioridade aérea, como aconteceu na Itália. (Mesmo com a superioridade aérea do inimigo, é preciso notar que os ataques à retaguarda visam, em última análise, a frente de combate. A área desta é incomparavelmente inferior à daquela; esta é quem vai suportar o peso dos impactos inimigos, agravados pela irregularidade dos suprimentos pela perturbação ou desorganização da retaguarda.)

A vaidade tem mil formas. A concupiscência duas mil. O combatente da retaguarda vai amolecendo o espírito e o corpo e o resultado só pode ser prejudicial para a frente de combate, seja pela desídia, pela indiferença egoísta, seja pela utilização desonesta (sexual ou venal) dos provimentos para o regalo, volúpias e bem-estar da instalação doméstica da retaguarda. No mesmo local onde esteve o Depósito do Pessoal, instalaram-se antes os alemães, que deixaram uma cantina, aliás muito bem acabada (de madeira, pré-fabricada, e que servia para nós como Sala de Instrução), pois bem: soube que naquele mesmo local, fôra preso e fuzilado um oficial alemão por estar vendendo gasolina no câmbio negro. Quem conhece o rigor e a disciplina germânicas, pode imaginar o quanto fôra tentado este militar em vender um produto precioso de que tanto careciam os tedescos...  Nada há a acrescentar, pois...

Estas considerações não têm, é óbvio, intuitos de generalizar.  Nem todo combatente da retaguarda é assim. Mas o ambiente é propício ao desfalecimento moral, à quebra, pelo egoísmo, da solidariedade aos camaradas da frente, operando-se até, um movimento inconsciente de despeito e inveja àqueles que, na verdade são os verdadeiros combatentes. O aparecimento na retaguarda do combatente do front, eclipsa, naturalmente, qualquer militar não combatente, porque o fato de enfrentar o perigo e andar ileso pelas veredas da morte, dá ao homem um traço de masculinidade, uma auréola de respeito, que vêm desde os tempos mais remotos, pois os caciques, os chefes, sempre foram os mais fortes, os que lutavam e destruíam os inimigos com mais denodo e maiores riscos. Este mesmo mecanismo psicológico emergente das profundezas do inconsciente humano, operou-se em proporções muito maiores, no Brasil, quando há se havia apagado o ruído das palmas e das ovações com que o povo recebeu os expedicionários. Antes da partida, muitos se consideraram felizes em não seguir. Depois, estes homens que voltaram com uma história  a contar, ostentando o mais relevante serviço que um cidadão pode prestar à Pátria, constituem sempre uma pedra no sapato de quem não foi. E um movimento surdo, talvez inconsciente, de tantos que não foram, contra tão poucos que seguiram, dissimula-se na mais velada ironia, na mais fingida indiferença e despeito. Este fato, foi agravado pelas histórias entusiásticas que os combatentes trouxeram da Itália. Fato natural, porque, passados os perigos e vicissitudes, o homem que deles emergiu os transforma em momentos de gratas recordações, acentuando sempre os mais favoráveis, mais alegres, mais agradáveis. Por isto, muitos no Brasil, consideram a ida da Força Expedicionária Brasileira, simples viagem de turismo pela Itália... e com isto, fazem o jogo inconsciente de despeito e da ironia.

O perigo maior está no aparecimento de uma casta da retaguarda. Verdade é que, para o bom andamento e desempenho da frente, faz-se mister elementos especializados na retaguarda. Pessoas que se tornam tão aplicáveis, tão práticas que substituí-las seria um transtorno prejudicial. Porém, a certeza de não ir para o front é mais um estímulo à domesticidade.

Numa guerra, por ser justamente um delírio, um surto de barbárie da civilização, devem prepondera os elevados padrões. Na retaguarda os princípios de honradez devem ser invioláveis, sob pena de desmoronar-se a estrutura combativa do povo e dos soldados.

c) A Campanha da Itália não foi um teste perfeito.

Nós, brasileiros, não podemos contar com o exemplo da campanha italiana. Nossas vitórias foram legítimas, indiscutíveis e honrariam qualquer força armada de qualquer parte do mundo. Não as tomemos, porém, como perfeita organização e eficiência nossa. A Itália não foi um teste perfeito, completo para o nosso espírito de organização e sob este prisma, para o Alto Comando, se bem que o tenha sido para os conhecimentos militares dos nossos oficiais e para o valor combativo e audaz dos nossos cidadãos. Incorreremos em grave erro e até em perigo para o nosso futuro, se pensarmos de forma diferente. Lá tínhamos excelentes vias de comunicações, os extraordinários meios do poderio industrial dos Estados Unidos, e uma quantidade de suprimentos de toda ordem, jamais vista por nenhum outro exército do mundo, em tempo algum. Soldado algum jamais combateu com tamanho conforto como o soldado americano. O Comando Brasileiro, sob este prisma material, agiu encaixado dentro dos quadros do IV Corpo do 5o Exército dos Estados Unidos, esquadrinhado pela sua organização e serviços. E apesar disto, o soldado brasileiro não gozou do mesmo conforto do soldado americano. E onde estaria, então, a eficiência? É que o homem brasileiro sofre privações permanentes. O homem, quando mais rústico, mais suporta os contratempos de uma guerra que é por natureza rastejante, primitiva e brutal. Demais disto, acostumados à frugalidade, à carência e à deficiência que a nossa pobreza reflete no Exército, o expedicionário experimentou uma sensação de melhoria tal, com os provimentos e organizações americanos que chegou até a diferenciar o “Exército de Caxias” da FEB.

Numa guerra que por desgraça tivesse como palco a nossa querida América do Sul, numa vastidão destas (basta imaginar que a Itália é comparável, em superfície ao Estado de Santa Catarina), sem vias de comunicações terrestres, com estes aranhóis ziguezagueantes em plena terra, sem asfalto ou cimento, sem transportes, sem aquelas catadupas de material de uma indústria portentosa, e que teríamos, à medida da nossa organização, veríamos quanto somos primários na intensidade da vida atual, quanto os soldados haveriam de sofrer e quanto se faria necessário uma retaguarda sólida, honesta, rígida, capaz de suportar e suprir os impactos sofridos na frente.

Somos um país pobre. Uma nação reduzida, carregando, como um caracol, uma concha tão grande que nos imobiliza. Não poderíamos nos dar ao luxo dos desperdícios. Basta considerar quanto nos custam as nossas manobras, em locais preestabelecidos, acessíveis por estradas regulares e num terreno por demais identificados pelos oficiais e sargentos. Após as manobras, os nossos homens estão ressentidos, abatidos, pelos contratempos naturais de um simples combate simulado.

d) A Importância dos Serviços Especiais.

E quanto mais pobres e mais carentes somos, mais teremos necessidade de assistir o combatente, confortá-lo pelo carinho de toda a nação. E por esse motivo é preciso que as forças armadas em seus estudos, em suas observações, analisem este ponto – o dos Serviços Especiais – da Assistência Psicológica, experimentando-os desde já como um assunto tão importante como os que servem de tese nas manobras.

Os americanos levavam isto muito a sério. Nas grandes cidades italianas, requisitaram grandes hotéis e restaurantes, destinando-os aos oficiais e soldados. Havia estações de cura e campos de repouso. Os dias que o homem passava na retaguarda, eram de felicidades. Estava só como um viajante. O preço da estada, no hotel, era apenas “pro forma”, tal a modicidade da quantia. O combatente podia levar uma companheira para as refeições, pagando um pouco mais. O Hotel Excelsior, um dos mais importantes de Roma, era um deles, variando apenas a qualidade dos hóspedes. É possível que o Excelsior não tivesse conhecido dantes tamanha animação, pois as danças americanas enchiam o ambiente de uma alegria incontida. As refeições eram feitas ao som de boas orquestras. Havia flores nas mesas. E enquanto os casais se serviam como gente civilizada, um violinista vinha para junto, passeando pelo amplo salão e arrancando das cordas do seu violino acordes plangentes de belas canções.

Os restaurantes, destinados apenas aos que passavam pela cidade, tinham, também, flores e músicas regionais. Não faltavam locais para divertimento dos homens. Night–clubs (musical box), cinemas, estádios esportivos onde lutadores se exibiam, cantinas onde se vendia de tudo e do melhor pelo preço de custo, além das distrações naturais da própria cidade.

Contaram-me que os norte-americanos, transferiram do front uma divisão completa para Monte Cattini, a fim de que repousasse nesta estação de cura.

Estas distrações e comodidades distribuídas religiosamente aos combatentes, destinavam-se a todos. É verdade que se mantinha a separação entre pretos e brancos. (Vi unidade completa constituída exclusivamente de nipo-americanos que, aliás lutaram bravamente na Itália.) (NC: O Regimento de Infantaria 442) Todos, entretanto, eram tratados com o mesmo desvelo, as mesmas atenções, da mesma forma que não havia diferenças entre o tecido, as peças de roupa e as botinas de combate, os alimentos e os cigarros dos oficiais e dos soldados. Cada um, por uma necessidade disciplinar, tinha os seus lugares: hotel dos sargentos, dos oficiais e dos soldados. O conforto e os meios, eram praticamente os mesmos.

Vi em Roma, enormes caminhões cheios de soldados, percorrendo os pontos mais importantes da cidade. Por um alto-falante, o guia dava explicações interessantes sobre os locais visitados, os fatos históricos, os monumentos, as obras de arte, etc.

Penetramos muitas vezes nestes ambientes americanos e fomos sempre muito bem acolhidos por eles. Só não podíamos dormir nos hotéis, porque não tínhamos autorização especial do nosso comando. Dormíamos nas casas dos italianos onde pagávamos um preço extraordinário. Nestas condições, uma simples refeição da manhã, custava muito mais do que a hospedagem e as refeições nos excelentes hotéis dos americanos. Os que trabalhavam em serviços na retaguarda, não estavam sujeitos à pressão do perigo do combate a cada passo. Localizados perto de boas cidades, podiam visitá-las constantemente.

À par da pressão do Comando que por si criou uma mentalidade de indiferença e ironia na frente, como já acentuei acima, havia esta má distribuição nos descansos, quando o soldado não fosse bater no Depósito do Pessoal, também mencionado supra.

Em revide, o soldado do front apelidou o soldado da retaguarda, se “Saco B”, saco guardado na retaguarda, enquanto o “A” seguia com o combatente.

Diversas modinhas, surgiram, então, traduzindo humoristicamente esta diferença psicológica entre o front e uma retaguarda, em grande parte “instalada domesticamente”.

Recordo-me, por exemplo, desta: (Música de Vida Apertada):

“Ai, ai, meu Deus

Como é bom viver

Na retaguarda

Como um saco B

... (Descrevia as comodidades da retaguarda para terminar dizendo que ela vivia...)

Sem tedesco ver...”

Vi certa vez um boletim reservado em que se punia um capitão muito popular em sua tropa e que suportara pesados bombardeios e andara até em duelos de pistola com o tedesco, por ser encontrada a sua companhia “alongada perigosamente” na estrada e os soldados carregando sacos às costas.

Eu já havia observado isto e procurara por todos os meios evitar este fato no meu pelotão. A causa, porém, estava em que o soldado não tinha confiança. O infante conduzia objetos adquiridos, coisas sem valor real, porém de valor de estimação, recordações que desejava levar para a Pátria. Era comum desaparecerem essas coisas, rasgando-se os sacos, ou pelo extravio dos mesmos, durante os transportes. (Eu mesmo sofri isto.)  O homem era obrigado a separar o que julgava mais valioso e carregá-lo consigo. De quem a culpa? Como resultado a nossa tropa não tinha boa apresentação. As fardas bem sujas, eram lavadas pelas italianas nos estacionamentos. Até na retaguarda as lavadeiras entravam, muitas em suas bicicletas, nos acampamentos para apanharem as roupas dos soldados. (Mesmo quando, como em Francolise, os americanos puseram uma lavanderia com capacidade para cinco mil peças, à nossa disposição.)

E se não fossem os field-jacquets americanos, a nossa apresentação seria ainda pior. Depois os soldados não andavam rigorosamente equipados como julguei que acontecesse, talvez por falta de resistência física dos nossos homens.

Quando se rendeu a 148a Divisão de Granadeiros, cercada por nós, e que eu vi passarem ante os meus olhos milhares de soldados alemães, foi que eu observei como estavam eles equipados, bem fardados e apresentáveis.

Contava-se, não sei se por pilhéria, que um dos oficiais prisioneiros solicitara receoso que não lhe entregassem “àquele partigiano”, dirigindo-se a um nosso camarada. (os partigiani eram os maquis ou patriotas italianos, homens da resistência subterrânea., vestidos com blusões que os americanos jogaram de pára-quedas nas montanhas. Traziam um lenço em geral colorido amarrado no pescoço, e pareciam mais bandoleiros. No final da guerra, entravam nas cidades em caminhões e fizeram uma bruta confusão. Muitas vezes tive receio, porque não sabia se eram mesmo “partigiani” ou simples alemães disfarçados em fuga.)

Mas os soldados brasileiros não sentiram esta diferença de tratamento entre a retaguarda e o front, esta falta de descanso decente, daquelas distrações e que naturalmente teriam direito como participantes de um exército americano. Não sentiram, porque, vinham do desconforto e da pobreza brasileiros, e souberam defender-se de uma forma que os comandantes toleraram, mas que não deixava de ser uma burla necessária à disciplina de uma tropa.

As provisões, os agasalhos, os transportes americanos, como foi dito, por si mesmos já lhes davam um tratamento que eles jamais experimentaram no Exército brasileiro. E além disto, estavam na Itália, país pontilhado de cidades e vilas pitorescas onde a gente encontra a cada passo um marco histórico e pisa a terra com receio de topar com o crânio de algum César...

Depois da guerra, surgiram as “tochas” que eram passeios não autorizados e simplesmente tolerados pelos comandantes imediatos, no âmbito da companhia, batalhão, etc.

Se fossem pegos pelo pessoal da retaguarda, o azar seria deles... Assim, de acordo com o posto, as viagens eram mais longas. Oficiais, e às vezes sargentos, saíam de jeeps. Economizava-se a gasolina da cozinha e dos dois jeeps da companhia, e com ela um dos jeeps poderia sair estrada afora por uma semana ou menos, de acordo com as circunstâncias. Os soldados se arranjavam pedindo carona aos milhares de automóveis americanos e brasileiros que cruzavam as extraordinárias autovias italianas. Assim, “acendia-se a tocha”, expressão cuja origem não sei. Houve quem fosse até Paris.

Não é de admirar que assim se tivesse procedido. Se muitos e muitos da retaguarda inclusive do Depósito do Pessoal, foram autorizadamente à Paris? Se eles iam à Roma e à Florença e outros lugares onde eram hospedados em hotéis americanos, e mesmo andavam acima e abaixo bem apresentáveis e bem servidos, bem transportados, por que haveriam os comandantes do front de negar àqueles homens que arriscaram a pele e lutaram tão bravamente, um passeio e uma folga? A “tocha” foi uma justiça irregular, mas, foi uma justiça. Quando os homens descrêem da justiça, fazem-na pelas próprias mãos. O cuidado está, em que ela não falte, e em que os homens não percam as esperanças de que ela se fará.

Esta foi a razão por que os combatentes do front não estranharam. Visitaram as cidades e os  pitorescos vilarejos peninsulares, alimentando-se das bem empacotadas e até camufladas rações de combate ou pagando altos preços nas “tratórias”. Penetravam nas distrações americanas ou nos bailes e saraus familiares improvisados pelos italianos, gozaram, enfim, do que lhes ofereceram.

e) E o Comando?

Apesar do respeito que devo ao Marechal, seria fantasia dizer que tenha havido afeição pelo nosso Comandante-Chefe. O Alto Comando não podia ser bem visto na frente. Nem na retaguarda. Os comentários, os apelidos, as críticas que se faziam, eram uma demonstração do que afirmo. Reconheço, como já disse acima, que esses comentários em grande parte, resultavam da pressão que todo o comando exerce sobre a linha de frente. A FEB deu um “murro” medonho. Era a primeira vez em que o Exército Nacional atravessava o Atlântico para lutar em terras da Europa. Constituíamos, apenas, uma divisão e sobre ela, sobre os Comandantes pesavam grandes responsabilidades. Embora encaixada no 5o Exército americano, tivera de adaptar-se ao complexo mecanismo militar, ianque. Os Comandantes, por amor próprio e por patriotismo, quiseram mostrar suas habilidades, a capacidade militar, e o espírito combativo dos brasileiros, ao apresentar o melhor rendimento possível e o menor incômodo aos americanos. E “vamos pras cabeceiras!”... De forma que a pressão foi grande. Na própria FEB, o pessoal do 6o Regimento se queixava de ter sido o mais “sugado”, o menos condecorado, o menos falado... Vemos, por conseguinte, que nestas condições espinhosas, o nome do Marechal Mascarenhas não seria utilizado por afeição, por estima dos soldados.

Pelo que pude observar e pelo que escutei, a estima real dos combatentes vai decrescendo da companhia até o Comandante do Regimento. Eles prezam realmente os oficiais e o comandante da companhia com quem vivem, com quem lutam, com quem sofrem. Depois, em grau menor, os comandantes dos batalhões. E assim, até o do Regimento.

Distanciados do Alto Comando, os combatentes não têm conhecimento das altas indagações e dos planejamentos dele. O que sabem é que a pressão é séria, que o Alto Comando não quer conversa, que eles, inclusive o seu Capitão, estão arriscados a ser considerados covardes por “dá cá aquela palha”... Que a missão tem de ser cumprida, custe o que custar.

Entretanto, se o pessoal do Alto comando participou de um banquete, se foi condecorado, se fez isto ou aquilo, aí sim, todos sabem logo. E os comentários são insopitáveis,  incontroláveis. Mas, como o inimigo está no outro lado, e não pode “dar sopa”, o combatente descarrega a sua insatisfação no inimigo e faz blague da retaguarda... Ouvi muitos comentários, por exemplo, sobre um oficial do Estado-Maior, que surpreendera um major da Tropa prestando informações na terminologia do front, ao dizer que “as bombas estão caindo muito”. E como não perdoasse aquela falta de precisão terminológica, aparteou com ar técnico: “Bombas que o senhor quer dizer, são granadas, não é?...”

O nome mais usado na frente, pelo que ouvi, era o do General Zenóbio. Porém, a impressão não era de simpatia, pois o General Zenóbio era considerado como intratável. Ouvi contar, que o tedesco tinha conhecimento de sua visita ao front, porque, nessas ocasiões, era sempre provocado por nossos elementos. O azar, porém, é que só quando o General saía, era que a “pena voava...”

Muito conhecida foi esta modinha cantada com o samba “Atire a primeira pedra”:

Covarde sei que me podem chamar

Mas, eu em Castello não hei de voltar...

Atire a primeira “bomba” tedesco

Que eu quer ver Zenóbio avançar...

Daí as minhas conclusões ao encontrar na Diferenciação Técnica, na Diferenciação Geográfica e na Diferenciação Disciplinar entre a vida de  paz, de quartel no Brasil e a vida de guerra na Itália, o motivos materiais e psicológicos pelos quais os pracinhas distinguiram o Exército Territorial do Exército Expedicionário; o Exército de Caxias, como sempre ouviram denominar o Exército no Brasil, distinguia-se daquele “Exército” diferente em técnica, sistemas, transportes, provisões, etc., vivendo em outros ambientes geográficos e lutando dentro de princípios disciplinares bem outros que os do quartel.

Na realidade, a FEB era o próprio Exército de Caxias (como não poderia deixar de ser) usando os field-jacquets, os capacetes, os agasalhos, os cigarros, as comidas, a gasolina, os transportes e as comodidades americanas, e avançando pelas terras da Itália unido pela confraternização dos filhos de uma mesma Pátria, aproximados pela solidariedade do sofrimento, da luta e do perigo comuns. Cobertos pela mesma bandeira – “Auri-verde pendão da minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança.”

Estas são as minhas impressões.

f) Considerações finais.

As conclusões que poderemos recolher do que foi exposto, são as de que a maior garantia de uma nação repousa no bem-estar, na educação, na capacidade de produzir riquezas, no desenvolvimento industrial e agrícola dos seus filhos. Quem não tem saúde nem educação nem disciplina civil, nem é capaz de produzir alimentos e utensílios para viver dignamente em tempos de paz, está vinculado ao fracasso e à derrota ao sobrevir uma guerra.

Veja-se o exemplo dos EUA: em menos de três anos, a poderosa nação do norte transformou-se no “Arsenal das Democracias” enviando mantimentos, armas de todos os tipos, máquinas leves e pesadas a dezenas de povos e mobilizou, instruiu equipou milhões de soldados que combateram bravamente em todas as frentes do conflito. Observe-se que foi precisamente nesta época de trabalhos hercúleos e responsabilidades tremendas que os Estados Unidos construíram para nós a poderosa usina siderúrgica de Volta Redonda.

Por que conseguiram isto? Porque os Estados Unidos eram o maior parque industrial do mundo. As terras habitadas, os homens educados na visão prática do trabalho metódico, racional, padronizado; fábricas e organizações gigantescas levantadas pelo espírito empreendedor dos seus cidadãos; comunicações de todas as espécies, rápidas, confortáveis.

Estas considerações, eu as faço com o pensamento voltado para a América Latina e especialmente para o Brasil.

Atualmente, atravessamos um período sem ameaças de invasão ou de guerra de conquista. O único país que, se quisesse, poderia conquistar-nos, seriam os Estados Unidos. Mesmo sem falar na “bomba atômica”, eles desbaratariam todos os exércitos sul-americanos reunidos, antes de podermos tomar fôlego. Felizmente, o povo americano do norte não tem idéias de conquistas territoriais, pois como todo povo amante da liberdade, respeita a liberdade alheia. O exemplo das Filipinas a quem os Estados Unidos concederam a independência é decisivo.

Entretanto, o mundo é cada vez menor e não somente as populações crescem como necessitam um padrão de vida mais elevado. Hoje, ninguém cobiça as nossas terras imensas, que nós não conseguimos, ainda, habitar, aproveitar, desenvolver e civilizar. Quem pode prever as reviravoltas do mundo dentro de um  século? Mesmo que não haja nenhum perigo de agressão futura, precisamos agir em benefício desses milhões de patrícios que vivem a era do barro em pleno século atômico e prover o essencialmente necessário afim de que os nossos filhos e netos possam manter uma vida realmente civilizada.

A América Latina está com um atraso de mais de cem anos e precisa correr para apanhar em tempo o comboio da civilização e do progresso, que já passou, que já se perde de vista, lá adiante...

Pois bem: em lugar de nos unirmos em prol dos nossos povos, gastamos uma fortuna colossal em armamentos de guerra. Ora, se o Chile compra armas, a Argentina não pensará que ele se prepara para combater o Japão. Se a Argentina emprega milhões e milhões, adquiridos durante o regime democrático, em tanques, canhões e aviões a jato, o Brasil não pode imaginar que os nossos irmão do sul estejam em preparativos para atacar seres de Marte... E toda a América do Sul se atira numa corrida armazenista, na qual se esgotam as nossas enfraquecidas economias e disponibilidades.

As grandes divergências que separam o mundo oriental do ocidental, serão solucionadas pela paz ou pelo conflito armado entre os grandes. Teremos pela frente grandes dificuldades a resolver. Não será com a nossa fraqueza, com a nossa mortalidade infantil, com esta falta de gêneros de primeira necessidade, com esta carestia, com o pauperismo, enfim, que haveremos de influir nos problemas de paz ou de guerra que agitam o mundo.

Os Estados Unidos só se envolveram em questões internacionais na Grande Guerra de 1914. Até então, preocupavam-se com os problemas internos, montando o extraordinário poderio econômico que ostentam hoje. Em 1914, eles eram, já, um peso respeitável na balança internacional. Não porque possuíssem grandes exércitos, o que não ocorria, e sim porque já haviam edificado uma indústria colossal, uma agricultura racional e sólida num país cortado por vias de comunicações de primeira ordem. Sua marinha mercante era das primeiras. Eram eles capazes de construir desde a bicicleta até o couraçado, os altos fornos siderúrgicos, as máquinas que fazem máquinas.

È o que somos nos nesta era atômica? Não fabricamos bicicletas. As máquinas que usamos, desde o ventilador elétrico, são importadas. A base da nossa agricultura é a enxada, o processo rotineiro e a fome, aliada às moléstias, espreita o nosso povo.

Penso, portanto, que seria este um interessante trabalho para os homens de prestígio e inteligência das Américas: lançar as bases de um planejamento para a América Latina, a fim de que possamos desviar grande parte dos nossos recursos em obras de real contribuição ao desenvolvimento dos nossos povos. Em lugar de tanques – tratores, niveladoras de estradas, escavadeiras. Em lugar de canhões e metralhadoras – arados e utensílios agrícolas e industriais.

Se fosse absolutamente impossível reduzir o exército territorial, talvez fosse viável uma organização em que, substituindo outras tropas, surgissem mais unidades de engenharia, inclusive engenharia sanitária, de forma que se pudesse empregar grandes contingentes no trabalho de construções de estradas, pontes, saneamento dos campos e de cidades do interior, etc...

Dir-se-á que a função do Exército é bem outra. Direi, todavia, que a situação do Brasil é de emergência e o problema do povoamento do campo e da fixação do agricultor deve ser atacado de rijo, sem perda de tempo. Um serviço desta ordem prestado pelo cidadão convocado seria mais valioso à segurança e fortalecimento nacional do que a simples instrução militar.

Porque é preciso deslocar o eixo de equilíbrio do litoral para o interior. Todo o mundo o afirma, todo o  mundo o proclama. Mas não é com palavras e discursos, que os agricultores ficarão nos campos e os habitantes do litoral deixarão as cidades.

Esses problemas que vêm de longa data não se resolvem com decretos, carimbos e portarias.

Os Estados Unidos têm, também, os seus problemas. Roosevelt, ao se referir às quinhentas mil pessoas de vida incerta, fazia graves advertências, embora este número fosse insignificante para a população dos Estados Unidos, de cerca de cento e trinta milhões de habitantes. Dizia o grande estadista:

“As famílias migratórias, a situação de suas crianças, crianças que não têm lar e famílias que não podem deitar raízes, que não podem viver numa comunidade... Isso exige uma consideração especial. Mas estou tentando achar um lugar para elas. Isto significa, nos termos mais simples, um programa para o repovoamento permanente de pelo menos um milhão de pessoas na bacia de Colúmbia e numa porção de outros lugares. E lembrai-vos que o dinheiro gasto com isso, depois de um projeto cuidadoso, será devolvido ao governo dos Estados Unidos em somas muitas vezes maiores, num tempo relativamente curto”.

“Não há dúvida de que nosso futuro está em perigo quando aproximadamente um milhão de crianças em idade de freqüentar um colégio elementar não estão na escola, quando centenas de distritos escolares e mesmo alguns Estados inteiros não tem verbas para boas escolas. O que quero dizer realmente é isto: gostaria de imprimir na primeira página de todos os jornais dos Estados Unidos uma lista dos mais atrasados distritos escolares e dos Estados mais atrasados em matéria de instrução nos Estados Unidos. Este tratamento seria rude, mas toda gente nos Estados Unidos poderia ficar sabendo onde havia as piores condições de saúde e de educação.”

E mais estas palavras lapidares que deveriam pesar nas consciências de todos os brasileiros:

“Pelos olhos da criança é que devemos olhar a nossa civilização. Se pudermos apresentar em linguagem simples algumas das necessidades básicas da infância, veremos mais claramente as questões que desafiam a nossa inteligência.”

“Supomos que, para ser feliz, uma criança  tem de viver num lar em que encontre calor, alimento e afeição, que seus pais cuidem dela quando ela adoeça; que encontre na escola os professores e os elementos necessários a uma educação, que quando cresça haja para ela um emprego e que um belo dia possa estabelecer seu próprio lar.”

“Quando considerarmos estes elementos essenciais para uma infância feliz, sentimo-nos entristecidos por saber que há muitas crianças que não podem ter o que acabamos de supor.”

“Preocupa-nos o futuro da nossa democracia quando as crianças não podem ter as coisas que se reconhece significarem segurança e felicidade.”

*

A Segurança Nacional está em povoarmos a terra imensa deste país. Não somente povoá-la, porém, dar ao povo os meios educacionais e técnicos indispensáveis ao trabalho compensador de extrair da terra e das máquinas os meios de uma subsistência decente, compatível com a civilização que o mundo já conquistou. Pois, se no presente, não paira sobre nós a ameaça de invasão e conquista deste patrimônio colossal que os nossos antepassados nos legaram, devemos aproveitar a oportunidade de alcançar o comboio do progresso e preparar o corpo e o espírito para as surpresas do porvir.

Roosevelt ao definir os deveres da democracia, apontava, com felicidade, os rumos que o futuro nos reserva:

“A democracia deve inculcar em seus filhos a capacidade para viver e assegurar as oportunidades para o exercício dessa capacidade. O êxito das instituições democráticas não é medido pela extensão do território, pelo poder financeiro, máquinas ou armamentos, mas pelos desejos, esperanças e satisfações profundas dos indivíduos, homens, mulheres e crianças, que formam a sua cidadania.”

“Nossa segurança não é unicamente uma questão de armas. Forte tem de ser o braço que as brandir, clara a visão que as guie; insubjugável a vontade que as comande.”

Extraído de “Depoimento de Oficiais da Reserva Sobre a FEB”. 2a Ed. 1950

Autor:Guillhaume

 

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Última alteração em 11-09-2006 @ 07:54 pm

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