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A Guerrilha de Caparaó (1966-1967) e o pânico das populações residentes
Inserido por: Coordenador
Em: 05-01-2007 @ 11:56 am
 

 

Autor: Plínio Ferreira Guimarães - Mestrando em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora

A Guerrilha de Caparaó (1966-1967) e o pânico das populações residentes próximas ao Parque Nacional do Caparaó

A instalação de uma ditadura militar no Brasil após o golpe de 1964 ocasionou o surgimento de vários movimentos que pregavam a luta armada como forma de resistir ao regime instaurado no país. No entanto, muito se discute sobre a real intenção de tais movimentos, havendo trabalhos recentes que trazem uma nova interpretação: a luta armada seria, na verdade, uma tentativa de tomar o poder, o “sonho da revolução socialista”. Denise Rollemberg nos mostra que, antes mesmo da instalação de um governo ditatorial, o projeto de luta armada já era discutido, tendo ocorrido alguns contatos com o governo cubano na tentativa de apoio financeiro e treinamento, sendo as Ligas Camponesas os primeiros a buscarem tal apoio: “A relação das Ligas com Cuba evidencia a definição de uma parte da esquerda pela luta armada no Brasil, em pleno governo democrático, bem antes da implantação da ditadura civil-militar1”. A autora ainda nos lembra que a esquerda tendeu a construir a memória da luta armada como, sobretudo, uma luta de resistência à ditadura militar, mas que essa interpretação não é suficiente para entendermos tal processo de luta:

É claro que o golpe e a ditadura redefiniam o quadro político. No entanto, a interpretação da luta armada como, essencialmente, de resistência deixa à sombra aspectos centrais da experiência dos embates travados pelos movimentos sociais de esquerda no período anterior a 1964 2.

Não se pode, entretanto, deixar de destacar que a inviabilidade de participação política pelas vias institucionais durante o regime militar contribuiu para o surgimento de muitas organizações que propunham a luta armada como a principal estratégia para a derrubada dos militares. Dessa forma, a Guerrilha de Caparaó, ocorrida entre fins de 1966 e início de 1967, foi provavelmente o primeiro movimento no país de resistência armada à ditadura. O cenário de tal movimento, a região do Parque Nacional de Caparaó, localizado na divisa dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, era considerado um ponto estratégico, havendo indícios de que grupos de esquerda já haviam realizado estudos de reconhecimento para a implantação de focos guerrilheiros ainda no governo João Goulart e logo após o golpe de 1964: “Moniz Bandeira tem informações de que o local havia sido estudado para a implantação do foco com militantes das Ligas Camponesas desde de 1963 e que a POLOP tentou fazer aí em 1964, depois do golpe, com sargentos e marinheiros, mas o plano foi abortado3”. Um dos líderes da Guerrilha de Caparaó, Amadeu Rocha, também afirma que a região já havia sido explorada por outros movimentos: “A ‘POLOP’ (Política Operária) não deu apoio à Guerrilha, mas simplesmente cedeu a área, porque não tinha condições de explorá-la. Eles tinham um trabalho feito lá... 4”.

Apesar do envolvimento de alguns civis ligados a organizações de esquerda, os integrantes da Guerrilha eram em sua maioria militares, principalmente ex-sargentos e marinheiros que participaram das manifestações em favor das reformas de base no governo de João Goulart.

O movimento ainda contava com o apoio do ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, na época exilado no Uruguai. Brizola havia tentado resistir ao golpe assim que este ocorreu, mobilizando políticos e militares fiéis à Jango. Entretanto, com a desistência do presidente de resistir ao golpe de Estado, o ex-governador embarca para o país vizinho de onde passa a tramar uma reação armada ao grupo que havia se usurpado o poder. É no exílio que Brizola mantém contato com o governo cubano, conseguindo dinheiro e o envio de homens ao país no intuito de realizarem o treinamento guerrilheiro. Segundo Denise Rollemberg, cinco integrantes da Guerrilha de Caparaó teriam realizado o treinamento em Cuba5.

Apesar de todas estas circunstâncias relatadas até aqui e da importância do movimento para o período, a população residente em torno do Parque Nacional de Caparaó não guarda a memória de um grupo de pessoas que buscavam confrontar o governo militar então estabelecido no país. Algumas pessoas até demonstram saber algo a sobre os reais intuitos da Guerrilha. No entanto, a lembrança da Guerrilha diz respeito, sim, a sensação de medo e insegurança que compartilharam tais pessoas durante alguns dias e a forte presença de tropas que permaneceram na região em busca de mais guerrilheiros. Mais ainda, a partir desse momento, passaram a viver em constante angústia na expectativa de novamente se encontrarem guerrilheiros na região.

Aqui vale lembrar a diferenciação realizada por Jean Delumeau entre medo e angústia. O autor nos lembra que “o medo tem um objeto determinado ao qual se pode fazer frente. A angústia não o tem e é vivida como uma espera dolorosa diante de um perigo tanto mais temível quanto menos claramente identificado: é um sentimento global de insegurança6”.

Delumeau nos diz que tanto os indivíduos isolados quanto a coletividade possuem um diálogo permanente com o medo, sendo este um componente maior na experiência humana, daí a necessidade de escrever a sua história. Entretanto, o autor nos lembra que o estudo do medo pela História não pode perder sua ligação com o contexto histórico em que ela se relaciona7. Para ele, “o medo é o hábito que se tem, em um grupo humano, de temer tal ou tal ameaça (real ou imaginária)


 

 

É dessa forma que, para compreender o medo sentido pelos moradores da região em torno do Pico da Bandeira quando souberam da presença de guerrilheiros, devemos analisar primeiramente todo o contexto histórico do país e, conseqüentemente, da região, e depois partirmos para uma compreensão daquilo que se teme, a imagem criada do perigo.

O período que antecede ao golpe militar de 1964 é o momento de maior radicalização política no país, havendo uma ampla mobilização dos setores de direita e esquerda. É nesse contexto que se amplia a propaganda anticomunista divulgada por parte dos setores conservadores. Há uma verdadeira “demonização” do comunismo. O próprio discurso do grupo que tomou o poder através do golpe militar de 1964 enveredava para “a salvação do país do perigo do bolchevismo”. Dessa forma, mesmo não tendo acesso ainda a TV e aos jornais mais lidos no Brasil, os moradores da região em torno ao Parque Nacional de Caparaó tinham contato com tal tipo de propaganda. Mais ainda, como se tratava de uma população que vivia em sua maioria na zona rural e sem instrução, estavam aptos a aderirem mais facilmente a tal discurso, sofrendo a figura do comunista maiores deformações no imaginário de tais pessoas. No entanto, até então o comunismo era uma ameaça distante, coisa para ser discutida nas grandes cidades, nas capitais. Imaginavam, pelo menos momentaneamente, estarem livres de tal perigo.

O medo, dessa forma, ocorre quando a população se dá conta de que o “perigo comunista” estava muito próximo e que poderiam ser dominados a qualquer momento. Mas aqui deve-se analisar com muito cuidado que comunismo tais pessoas temiam. Para tanto, caminha-se em direção a uma discussão sobre cultura política. Partimos neste trabalho da opinião de que todos somos portadores de uma cultura política e de que esta se encontra interiorizada pelo indivíduo. Assim, a cultura política de cada um se forma através do contato com os canais de “socialização política tradicional9”, ou seja, a família, a escola, a igreja, o convívio social, o trabalho, a mídia, entre outros. O receio em relação ao comunismo já era existente entre tais pessoas. Estes adquiriram uma posição anticomunista através de toda a pregação realizada por religiosos, políticos locais, mídia e até mesmo escolas.

Entretanto, não se pode deixar de relatar a visão deturpada do comunismo que era compartilhada pela população: “O mito político é fabulação, deformação ou interpretação objetivamente recusável do real10”. Podemos, assim, dizer que o “mito do comunista mau” se fazia presente entre os moradores da região. O “guerrilheiro comunista” vinha para subverter a ordem e a moral. Encaixa-se aqui a mitologia da conspiração desenvolvida por Raoul Girardet onde o autor diz que a visão construída dos homens do complô são a daquele que se utiliza das estratégias “da corrupção, do aviltamento dos costumes, da desagregação sistemática das tradições sociais e dos valores morais11”. Estes se utilizam da noite para agir e fogem completamente dos padrões da normalidade social: “os fanáticos da conspiração encarnam o estrangeiro no sentido pleno do termo12”.


 

 

Essa é a imagem feita em relação aos guerrilheiros. Vistos como comunistas, passaram a desempenhar uma ameaça à representação de sociedade que possuíam os residentes em torno do Parque Nacional do Caparaó. Na sua visão, uma sociedade comunista era atéia, as famílias eram corrompidas, os filhos seriam educados pelo Estado, a prostituição seria comum entre eles, as terras seriam tomadas e todos os moradores escravizados e obrigados a trabalhar em favor dos planos bolchevistas. O temor da população dizia respeito a esse comunismo que habitava a sua imaginação. “Assim deturpada, a representação transforma-se em máquina de fabrico de respeito e submissão, num instrumento que produz constrangimento interiorizado, que é necessário onde quer que falte o possível recurso a uma violência imediata13”.

Dessa forma, assim como também nos mostra Carlo Ginzburg, existem mentiras que são construídas visando a sua utilização política para o controle social. “Essa mentira destinada ao bem comum são os mitos14”. O mito criado em torno do comunismo por aqueles que viam nele realmente uma ameaça foi o produtor do pânico que tomou conta da serra de Caparaó durante o cerco ao grupo guerrilheiro.

Mas em que momento o medo teria sido maior por parte dessa população? Com certeza, quando da chegada das tropas do Exército. A movimentação de um grande número de militares, armamentos pesados, a utilização de aviões e helicópteros nas buscas, enfim, todo um aparato até então nunca visto por tais pessoas os levou a uma situação de pânico generalizado. A chegada do Exército demonstrava que a presença de guerrilheiros na região era um “perigo real” como demonstra o depoimento de padre Demerval Alves Botelho, residente no município de Espera Feliz quando ocorreu a Guerrilha: “Então chega aquele aparato militar do Exército, não é: ‘o que é que é isso? O negócio é sério!’ E cercaram aquilo tudo ali, toda a serra do Caparaó15”.

O Sr. Dalbino José dos Santos, residente em Alto Caparaó no período da Guerrilha, também relata a apreensão gerada pela chegada do Exército: “Teve uma prima minha mesmo que desmaiou (...) Desmaiou de ver aquela chegada daquele policiamento. E se fosse uma polícia comum, né? Mas, assim, parece que dá pavor um pouco. É o Exército chegando, e caminhão e mais caminhão, ônibus...16”

Devemos lembrar, ainda, que todos os integrantes do movimento haviam sido presos pela própria Polícia Militar de Minas Gerais alguns dias antes da chegada das Forças Armadas à região, num total de 16 homens. Assim sendo, quando da vinda do Exército e de todo o aparato que o acompanhava não restavam, ou não foram encontrados, nenhum outro integrante da Guerrilha.

Mesmo assim, foi a presença das Forças Armadas a geradora de comportamentos exagerados diversos: além de desmaios, existem relatos de fugas para cidades mais distantes do cerco, e o mais comum, pessoas que ficaram presas nas próprias casas sem


 

 

abrir janelas ou portas, como demonstra o Sr. Welton Ferreira Lima: “A gente nem abria a janela direito (...) nem janela, muito menos a porta, nós ficamos com muito medo mesmo 17”. Poucos se arriscavam a sair à noite.

Delumeau afirma que, “coletivo, o medo pode ainda conduzir a comportamentos aberrantes e suicidas, dos quais a apreciação correta da realidade desapareceu18”. Percebe-se no caso da Guerrilha de Caparaó que esse medo coletivo realmente encobriu toda a visão da realidade. Porém, o mesmo autor nos lembra que o medo coletivo proporciona emoções-choque diferentes em cada pessoa, ou seja, nem todos apresentam o mesmo comportamento. Mas no geral, “os comportamentos de multidão exageram, complicam e transformam os excessos individuais19”. Assim, mesmo constatando que nem todos os moradores relatam terem sentido medo ou apresentam o mesmo constrangimento ao falar do período, percebe-se que o pânico não tomou conta apenas de alguns indivíduos isolados e sim da grande maioria da população.

Mas seria o comunismo o único agente causador do medo na população? Pelos relatos ouvidos, percebe-se o temor se dava também pelos boatos de que a região seria bombardeada. Além disso, havia o medo da própria força de repressão ao movimento, principalmente do Exército. Esse medo talvez se justifique pelo grande número de prisões e buscas dadas em pessoas da própria região. “Eles chegavam e davam busca numa pessoa às vezes até do lugar. Então eu tinha que ir para lá para explicar quem era aquela pessoa20”, é o que relata o Sr. Juvercy Emerick, ex-funcionário do Parque Nacional do Caparaó e que guiou as tropas da PM mineira e do Exército na busca por guerrilheiros.

A apreensão em relação às tropas pode ser percebida nos artigos de jornais da época também:

Nos municípios que circundam a serra do Caparaó, o ambiente é de intranqüilidade e apreensão desde que o comando das tropas regulares resolveu prender homens velhos e jovens, políticos e apolíticos. Até a última segunda-feira, quando as prisões de civis eram poucas, falava-se da guerrilha com ar de troça e muitas risadas. Agora os semblantes estão fechados, os bate-papos acabaram, os informantes sumiram. Qualquer estranho é recebido com reserva. Nas cidades mais adiantadas, que contam com escolas, prefeitos e Câmaras Municipais, a ocupação pelas forças regulares teve efeitos desfavoráveis junto à opinião pública. Os soldados chegaram, tomaram conta das escolas, das melhores casas, das ruas, dos rios, dos matos e até das igrejas; locais pacatos, e até monótonos, foram dominados por uma agitação febril. Jipes corriam a 100 quilômetros por hora, ordens eram dadas aos gritos, soldados limpavam metralhadoras, aviões e helicópteros – engenhos desconhecidos de muitos – passaram a cruzar os ares. Tanto aparato causou susto.

Com o decorrer dos dias, viu-se que a apitação a nada conduzia. As tropas subiam e desciam a serra, ouviam-se tiros pela madrugada, a situação ficou tensa – mas não se via nenhum guerrilheiro, vivo ou morto, aprisionado. Segundo os mais argutos, a prisão de civis foi como que uma satisfação à opinião pública, para mostrar o êxito da operação antiguerrilha21.

Mas, se por um lado a chegada do Exército havia proporcionado o aumento do medo, por outro, com o passar do tempo, a população desenvolveu uma profunda simpatia pelas tropas que estavam ali presentes, sendo este um dos aspectos mais vivos na memória dos moradores da região. A conquista do apoio popular se deu através da promoção de


 

 

políticas assistencialistas e de diversão pública. Assim, as tropas realizaram a vacinação em massa da população, consultas médicas e dentárias, extração de dentes, distribuição de remédios e alimentos. No município de Espera Feliz, foram promovidos bailes, apresentação da banda do 11.o Batalhão de Polícia Militar e sessões de cinema em praça pública.

A simpatia pelas tropas pode ser percebida pelo depoimento da Sra. Nadir Tavares de Oliveira:

Eles (Exército) organizaram consultórios médico, odontológico, extraíram os dentes da população, consultas, vacinas, inclusive para a meningite que eu me lembro (...) o povo na época teve medo quando começou a chegar os policiais, mas quando os policiais entrosaram com a população, foi acabando o medo e não teve nada que amedrontasse a cidade. (...) até mesmo gente de fora da cidade vinha para consultar, pois não existia posto de saúde aqui, não existia dentista, médico era um só. 22

Os jornais da época também relatam as táticas do exército na busca do apoio popular:

O trabalho de amaciamento (da população) estende-se ao campo, onde veterinários se oferecem aos fazendeiros, inclusive para distribuição de vacinas e remédios. No setor urbano os moradores – pela primeira vez em sua vida – receberam doações de alimentos, leite em pó, víveres, medicamentos, especialmente vermífugos e até mesmo brinquedos para as crianças.23

As crianças tiveram atenção especial dos militares nesse processo. Em Espera Feliz, os alunos da escola local foram agraciados com passeios de avião sobrevoando a região. Em Alto Caparaó e Caparaó, foram realizadas diversas brincadeiras e distribuição de balas e doces. O Sr. Ismael Gripp de Oliveira afirma que, como o medo das tropas foi grande, os militares começaram a “chamar as crianças para brincadeiras, adulavam para as pessoas verem que não tem nada a ver, que a polícia é para dar apoio à população e dar segurança24”.

O “perigo que o comunismo representava ao país” era o tema preferido de palestras que ocorreram em escolas, igrejas e praças públicas, como demonstra o artigo de jornal da época: “Entre uma bala de chupar e uma canção, fazem-se conferências sobre o papel das Forças Armadas e das Polícias Militares e sobre a ação nefasta do comunismo25”. O depoimento da professora Maria do Carmo Rocha, residente na cidade de Espera Feliz, confirma o acontecimento de tais palestras:

eles iam (na escola), falavam o que era a guerrilha, porque eles estavam aqui (...) os oficiais explicavam o que era guerrilha, o que era o comunismo, a questão do Che Guevara, falava na época até da União Soviética, do presidente da época (na União Soviética), não me lembro. (...) perguntavam se aqui em Espera Feliz tinha alguém que era comunista 26.

Adotando tal estratégia, as tropas formadas pelo Exército e Polícia Militar conseguiram manter um certo controle sobre o pânico da população e conquistaram, dessa forma, a simpatia dos moradores da região. Com isso, não faltaram colaboradores para ajudarem nas buscas por guerrilheiros. O jornal Correio da Manhã relata tal apoio:

Se o êxito de uma guerrilha, como afirma os manuais, dependesse da capacidade de se obter, até mesmo em pequena escala, a boa vontade e o auxílio das populações locais, Caparaó certamente seria o local menos indicado para tal tipo de operação subterrânea.

O comportamento dos moradores da região em relação aos acontecimentos é um fato que possivelmente deve ter agradado às autoridades militares 27.

E após o fim da movimentação de tropas na região, também teria chegado ao fim o sentimento de medo da população? Tudo indica que não. Para alguns talvez tenha ocorrido o contrário. Obrigados a retomarem sua vida normal e sem a “proteção” do Exército ou da PM, muitas pessoas passaram a viver em constante sensação de insegurança. Os que ainda eram jovens na época relatam que por muito tempo deixaram de brincar em áreas mais distantes próximos a matas ou mesmo evitavam em ir para os rios. Quando iam, qualquer movimentação de animais ou o vento na vegetação era motivo de fugas com medo da presença de guerrilheiros.

A molecada nem no campo não ia jogar bola, porque o nosso campo é um pouco mais no alto da serra ali (...) os túneis, as cavernas que a gente brincava por aqui na região, a gente ficava com medo de chegar e ter guerrilheiro lá dentro das cavernas (...) tomar banho nos rios, a gente tinha medo de guerrilheiro tá na beira do rio. (...) Depois mesmo que foi concretizado a prisão dos guerrilheiros, é que aí sim, nós resolvemos e voltamos a brincar, mas com muito medo. Ainda com medo, qualquer barulho de bicho, era guerrilheiro 28.

A desconfiança com as pessoas estranhas aumentou, principalmente se estas tivessem cabelos compridos, barba e carregassem mochilas, características um tanto fácil de se encontrar em uma região que recebe turistas dos locais mais distantes possíveis e onde se pratica o montanhismo e se realizam acampamentos.

Se aparecesse um barbudo aqui todo mundo ficava com medo. Nós ficamos com esse trauma por muito tempo. (...) eu acredito, pra ser bem sincero, que até hoje, eu não digo que dentro de Caparaó, mas na região por aí, eu acredito que esse povo ainda se ver um pessoal estranho com essa característica que eu disse agora pouco, barba grande, com a mochila nas costas, essas coisas toda aí, e se for um grupo bem grande, ainda fica meio cabreiro, é capaz de não deixar as portas e as janelas muito abertas29

O depoimento da professora Maria do Carmo demonstra a apreensão da população:

Em “oitenta e poucos” isso era perseguido. Em Espera Feliz ficou essa coisa, porque guerrilha em Espera Feliz, em Caparaó, prendeu em Espera Feliz, então era possível que aqui tinha guerrilheiro, que aqui a população escondesse guerrilheiro, sabe? Se você falasse, assim, não a favor, mas se você deixasse transparecer que não tinha que ficar atrás de guerrilheiro, essas coisas assim, você era visto com maus olhos 30.

O receio em se falar da Guerrilha ainda pode ser vista entre muitos. Alguns, inclusive, se negam em falar sobre o assunto. Outros, no entanto, narram a sua valentia ao não sentirem medo dos guerrilheiros” enquanto toda a população se encontrava apreensiva.

A figura do comunista que habitava o imaginário de tais pessoas proporcionou então um sentimento de angústia nos moldes definidos por Delumeau: “porque a imaginação desempenha um papel importante na angústia, esta tem sua causa mais no indivíduo do que na realidade que o cerca e sua duração não está, como a do medo, limitada ao desaparecimento das ameaças31”. Assim, a ameaça comunista ainda se fez presente durante muito tempo, mesmo esta não representando, na verdade, um perigo para o modo de vida de tais pessoas.

 


Última alteração em 05-01-2007 @ 11:56 am

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