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COLEÇÃO GRANDES LÍDERES
Inserido por: Itauna
Em: 05-06-2014 @ 05:08 am
 

 

CAPÍTULO  I - INTRODUÇÃO

                Antes de dizer a que se propõe esta dissertação, é preciso que eu diga o que é a SOBENCO.  Mais ainda: é preciso justificar o porquê da escolha de uma instituição praticamente desconhecida para ser objetivo de um estudo de caso que demandou, no mínimo, investimentos consideráveis em termos de tempo e dedicação.

                Sediada em Nilópolis, a SOBENCO - na verdade, Sociedade Beneficente Nuclear Comunitária - é uma instituição civil, fundada há vinte anos por aquele que ainda hoje é seu dirigente principal, Carlos Salvador da Silva. Criada a princípio como um "núcleo espiritualista" para sediar encontros, cursos e sessões umbandistas, a SOBENCO foi inicialmente batizada como NEXPP (Núcleo Espiritualista Xangô da Pedra Preta). Além de servir à umbanda, o Núcleo tinha a função de prestar serviços à comunidade, através de diversas áreas de atuação. A pouca aceitação do nome de batismo fez com que se criasse a sigla SOBENCO, que foi anexada ao nome original. Porém, embora oficialmente o nome da instituição seja NEXPP- SOBENCO (figurando, inclusive, em estatutos e documentos), na prática todos se referem a ela somente como SOBENCO, procedimento que também adotei.

                Meus primeiros contatos com a SOBENCO se deram durante os dois anos em que trabalhei como repórter do Jornal O Globo da região (1990/91). Na época, o caderno Globo-Baixada estava sendo fundado e conhecer a área foi uma espécie de "Desbravamento" para a equipe, fazendo com que estreitássemos muito nosso contato com as "fontes"[1]. Como fui destinada a ser setorista exatamente de Nilópolis, mantive com a SOBENCO um convívio contínuo que gerou um tipo de relação mais cotidiana, de certa forma pouco usual no meio jornalístico, caracterizado pelo imediatismo e pela mobilidade com que o profissional transita pelas notícias. O fato é que, dadas as circunstâncias, pude visitá-la em muitas ocasiões, conversando com diversas pessoas, acompanhando suas atividades e, evidentemente, divulgando seu trabalho através do veículo em que eu trabalhava.

                Desse convívio surgiu um grande interesse pela instituição, que poderia ser explicada por três fatores principais: a) o alcance do trabalho empreendido por uma entidade civil, mantida basicamente com recursos próprios, que segundo cálculos obtidos nos registros da própria SOBENCO já atendeu a pelo menos um terço da população total de Nilópolis; b) a possibilidade de, através da SOBENCO, compreender como se estrutura a rede de relações[2]  dos indivíduos e grupos sociais que a compõem ou a tangenciam; c) e, finalmente, a figura carismática de Carlos Salvador, seu fundador e líder.

                A escolha de um determinado objeto de estudo, a partir de impressões primeiras, obtidas em contextos distintos deste que agora norteia o olhar do pesquisador, sempre resulta em surpresas. O que antes parecia obvio se revela inovador, e o que soava diferente acaba nem sendo tão diferente assim. Acredito que passe também por aí o processo de estranhar o familiar e tornar familiar o exótico[3]  tão fundamental a quem pretende trabalhar com sociedades urbanas, onde se apresentam relações distintas das estabelecidas entre os antropólogos e os chamados "povos primitivos". E neste intento de estranhar o que antes parecia tão simples, o pesquisador, muitas vezes, acaba por se deparar com uma rede complexa inimaginável. Da mesma forma, o convívio sistemático com o grupo estudado leva muitas vezes à quebra de pré-conceitos e idéias pré-concebidas que, na maior parte das vezes, conduzem a uma idealização do objeto, seja ela positiva ou não[4].

                Quando ingressei no mestrado em antropologia, não tinha nenhum projeto de retornar à SOBENCO muito menos de transformá-la em tema desta dissertação. Foi durante meu primeiro semestre no Museu Nacional, como aluna do curso de Antropologia Urbana, coordenado pelo professor Gilberto Velho, que questões relacionadas a cultura e política, indivíduo e sociedade, projeto e visão de mundo, entre outras, acabaram por me remeter diretamente à SOBENCO que, por suas características específicas, se apresentava como uma excelente opção de análise.

                A escolha da SOBENCO como objetivo de estudo pode ser explicada tanto por seu caráter singular quanto por sua exemplaridade. Durante meu período como repórter na Baixada (onde fiz matérias também em outras cidades, como Duque de Caxias, São João de Meriti, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados e Japeri, embora tenha ficado cerca de um ano trabalhando diretamente em Nilópolis), pude perceber que há, em toda a região, uma incidência de instituições civis que vão atuar junto à comunidade, muitas vezes cumprindo parte do papel do Estado e em outras se aliando a ele em sua atuação. A SOBENCO foi escolhida para ilustrar um estudo de caso deste movimento para o qual estou chamando atenção. A proporção que ele vem tomando na Baixada me revela que não estou tratando de um objeto óbvio, ou mesmo previsível. A força e a penetração dessas instituições ainda não foram severamente analisadas, bem como o surgimento de novas agremiações deste tipo a cada ano. Preferi me centrar na SOBENCO pelas características especiais da instituição e também por certos aspectos particulares de Nilópolis. Mas este estudo poderia ser feito com outras instituições, como a Casa de Cultura Donana, em Nova Iguaçu; a Biblioteca Comunitária Oscar Romero, em Mesquita; a Fundação Cultural de Paracambi[5]; o Grupo Preservar, de Japeri, entre muitos outros.

                Assim, por um lado, a SOBENCO faz parte de um movimento de maior escala dentro da Baixada Fluminense, funcionando como um paradigma deste processo, o que, por si só, já justificaria parte de meu interesse por realizar um estudo de caso em que pudesse pensar, paralelamente, uma realidade redimensionada.

                Por outro lado, posso dizer que a SOBENCO reúne características especiais para que fosse a escolhida, e não uma das tantas outras que conheci na Baixada. E é exatamente a singularidade da SOBENCO que com o trabalho de campo realizado sistematicamente acabou por se confirmar plenamente, o motivo principal desta escolha.

                A SOBENCO funciona como uma associação beneficente[6], regida por um estatuto e presidida, sob uma forte hierarquia, por Carlos Salvador. Dividida em sete áreas que administram as atividades e projetos (áreas: espiritual, filosófica, beneficente, cultural, desportiva, filantrópica e recreativa), em tudo a instituição reflete a história de vida de seu fundador. A trajetória pessoal de Salvador se cruza todo o tempo com a Sociedade que preside, o que, em muitos momentos, gera uma fusão da instituição e do líder, fazendo com que, em certa medida, Salvador seja não só o dirigente maior da SOBENCO mas a própria representação desta[7]. Neste sentido, algumas de suas referências pessoais, como a umbanda, a vida militar e a atuação no Rotary Club de Nilópolis acabam por se refletir na composição da própria SOBENCO gerando resultados bastante interessantes, que serão discutidos nos capítulos seguintes.

                Como já foi dito acima, em seus vinte anos de existência, a SOBENCO calcula ter atendido cerca de 1/3 da população de Nilópolis através de suas sete áreas de atuação[8]. Ao longo de minha convivência com a SOBENCO seja durante meu trabalho como jornalista ou depois como pesquisadora, assisti a diversos eventos promovidos pela Sociedade, como torneios, festas, campanhas beneficentes e palestras, que aconteciam regularmente. Além desses eventos, pude acompanhar também uma série de outras atividades, de caráter mais permanente, como o funcionamento do jardim de infância mantido pela instituição, as reuniões dos "guardiões da pátria" e os encontros religiosos, entre outros. Através desse acompanhamento e dos depoimentos colhidos nas conversas e entrevistas com colaboradores da SOBENCO e membros da comunidade, pude, de certa forma, mapear como se articula a relação entre a SOBENCO e a comunidade.

                Se, por um lado, a Sociedade faz parte de um movimento que pode ser localizado em toda a Baixada Fluminense, o fato de estar sediada em Nilópolis é um fator decisivo para caracterizar a atuação da SOBENCO. Nilópolis é o menor município da Baixada Fluminense, com apenas nove quilômetros quadrados (sem contar os 14 quilômetros quadrados que fazem parte da área  de Gericinó, sob  a  administração do Exercito, onde  nada  pode  ser  construído  e  mesmo a  simples entrada é proibida). O município faz limites com Anchieta (Rio de Janeiro), Mesquita (Nova Iguaçu) e Eden (São João de Meriti).[9]

                Externamente, a cidade é conhecida pelos seus dois elementos mais famosos: a violência e a Escola de Samba Beija-Flor. Mas pra seus habitantes a história cotidiana inclui falta de saneamento básico, lixo espalhado nas esquinas, enchentes em época de chuva forte, péssimas condições de transporte para as principais áreas de trabalho (Nova Iguaçu e Rio de Janeiro), inexistência de opções de lazer, descaso administrativo com locais públicos (o parque municipal, por exemplo, uma área mínima de cerca de 200 metros quadrados, há anos foi relegado ao abandono), e uma lista interminável de queixas e reclamações.

                A prefeitura, que durante vinte anos esteve nas mãos das poderosas famílias David e Sessim, que controlam o Samba, o futebol e o jogo do bicho na cidade, foi recentemente ocupada por uma coligação de partidos oposicionistas (tendo à frente o PDT e o PT), vencedora das últimas eleições municipais. Até agora, ainda não foi cogitada a criação de uma Secretaria de Bem Estar Social, que, na prática, teria que arcar exatamente com parte das atribuições que vêm sendo desempenhadas pela SOBENCO e outras instituições.

                É neste contexto que o papel desempenhado por uma entidade civil, mantida potencialmente por um só homem e, pingado aqui e lá, por algumas doações, tem de ser analisada. É expressivo o poder de uma instituição que já atendeu a mais de 1/3 da população total de Nilópolis. Mais importante ainda é observar que o descrédito em relação à política oficial é tão grande que Carlos Salvador candidatou-se pelo Partido Verde nas eleições municipais e não foi eleito vereador, mas, em todas as eleições de associações do município, a chapa vitoriosa é sempre a apoiada pela SOBENCO. A penetração da Sociedade, portanto, não se dá tanto no que consideramos escalas maiores do campo político. Mas ela não deixa de atuar politicamente se tomarmos em consideração sua interferência em questões de micro-políticas, como eleições para associações de moradores, composições de chapas de clubes e agremiações esportivas, engajamento em campanhas de cidadania, entre outras.

                Porém, se a SOBENCO se mantém e atua distante do poder instituído, ao mesmo tempo tem o reconhecimento pelos serviços prestados à comunidade. A representação  que  a população  de  Nilópolis  tem  da   SOBENCO pode  ser explicada através de uma análise detalhada da figura do fundador Carlos Salvador e do modo como este líder moldou uma estrutura interna solidamente entrelaçada.

                Dono de personalidade forte, Carlos Salvador, de 58 anos, fez da SOBENCO uma extensão de seu caráter e de sua formação. Dois eixos fundamentais em sua vida, a umbanda e o Exército, serviram de base para a constituição da estrutura da SOBENCO No que diz respeito à umbanda, o primeiro nome da instituição, Núcleo Espiritualista Xangô da Pedra Preta, já fazia referência à sua opção religiosa. Mas a influência da umbanda aparece também na divisão da SOBENCO em sete áreas, revelando a preferência dos umbandistas por esse algarismo, que possui força cabalística[10]. Além disso, a estrutura hierárquica do templo umbandista se reflete na construção de uma hierarquia social, vivenciada nas relações cotidianas de Salvador e dos que o cercam. Duas das áreas da SOBENCO, a Filosófica e a Espiritual, denotam uma grande orientação doutrinária, apesar da Sociedade se auto-proclamar um "espaço ecumênico"[11].

                As configurações da umbanda vão se cruzar, no interior da SOBENCO, com traços característicos de uma corporação militar, como, por exemplo, na elaboração de uma hierarquia extremamente rígida, onde Salvador aparece não só como o fundador e líder, mas como uma espécie de chefe supremo. A militarização aparece ainda na estruturação da Ordem dos Guardiões da Pátria (OGP), uma organização criada por Salvador tendo o escotismo por inspiração, cuja estrutura se baseia no funcionamento de uma colméia, e que será objeto de análise no capítulo V.

                A conjunção de elementos retirados não só da umbanda e da experiência militar, mas também da rede de relações estabelecidas por Salvador, faz com que as representações da SOBENCO se configurem como representações da identidade buscada e construída, que dessa forma é absorvida pelos que participam da instituição. Ao se confundir com a própria trajetória da SOBENCO, Salvador passa a desempenhar um papel de mediador político e cultural não só entre grupos sociais de Nilópolis, mas em uma esfera redimensionada. Dessa forma, além de presidente da SOBENCO, ele atualmente desempenha as seguintes funções: administrador geral do Esporte Clube Nova Cidade, diretor de patrimônio e tesoureiro do Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos de Nilópolis, presidente da Avenida de Serviços à comunidade do Rotary Clube de Nilópolis, conselheiro do PROEPER - Programa de Estudos Religiosos da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Supervisor do Comitê da Ação da Cidadania de Nilópolis, Suplente de Delegado do Conselho Municipal de Saúde de Nilópolis e Delegado do Comitê de Acompanhamento da SERLA (Superintendência Estadual de Rios e Lagoas). Podemos destacar como esta mediação se dá ao citarmos o exemplo da atuação de Salvador dentro do Rotary Club de Nilópolis, uma agremiação que reúne, de um modo geral, a "elite"[12] política e econômica do município, e que relutou em aceitar entre seus membros um homem de origem humilde, sem uma patente de destaque no meio militar, negro e umbandista. Nesse sentido, a liderança exibida por ele frente à SOBENCO o reconhecimento popular da seriedade de seu trabalho, os convites para desempenhar outros papéis sociais (como os enumerados acima) e, principalmente, sua estratégia de trabalho dentro do próprio Rotary, permitiram sua aceitação, embora não sem conflitos. Hoje, além de membro atuante no meio rotariano, Salvador acabou por desempenhar a função de mediador entre a SOBENCO e o Rotary, que realizaram diversas atividades em parceria[13].

                Já como aluna regular do PPGAS, retornei à SOBENCO em meados de 1993. Durante todo esse ano, mantive contatos regulares com Carlos Salvador, já articulando a possibilidade de realizar um trabalho de campo de maior duração. Este se iniciou em agosto de 94, prosseguindo até maio de 95, sendo intensificado em determinados períodos. Durante esses meses, realizei entrevistas longas com Salvador e uma série de outras menores com membros da SOBENCO. Presenciei atividades, festas, solenidades e reuniões. Durante vários dias, pude acompanhar Salvador em sua rotina diária. Além disso, conversei com autoridades do município, com membros da comunidade e com personalidades da cidade. Os dados por mim coletados, neste período, me permitiram ter uma dimensão maior do que realmente seria a SOBENCO e geraram dois trabalhos finais para cursos realizados no Mestrado do PPGAS[14].

 

                Durante o trabalho de campo, minha relação com Salvador se tornou bem próxima[15]. Sempre gentil, ao lado de sua esposa, Dona Maria, Salvador permitiu que eu participasse de todas as atividades e as longas horas de conversas foram não só extremamente ricas, como bastante agradáveis. Estabeleceu-se entre nós uma necessidade de tentar conhecer o universo do outro, para que o entendimento fosse facilitado. Assim, quando disse a Salvador, em nosso primeiro encontro, que pretendia fazer um trabalho sobre a SOBENCO para o mestrado de Antropologia, ele procurou ler sobre a disciplina, Pediu-me, inclusive, para ficar um tempo com algumas teses que eu havia levado comigo para que ele pudesse visualizar o tipo de trabalho que eu pretendia fazer[16]. É interessante notar que nas primeiras vezes que fui à SOBENCO Salvador me apresentava como jornalista e dizia que eu estava "fazendo um trabalho com a SOBENCO ". Com o passar do tempo, ele começou a me apresentar como antropóloga e dizia que eu "estava escrevendo uma tese sobre a SOBENCO ". Nas últimas vezes, já me apresentava como "nossa antropóloga". Da mesma forma, no decorrer do trabalho emprestou-me publicações sobre Umbanda e sobre o Rotary, e procurou sempre facilitar minhas consultas aos arquivos da SOBENCO. Exatamente por nossa relação ter sido contínua e intensa, algumas declarações foram feitas em teor confidencial e, embora tenham sido de extrema utilidade para compor um quadro de sua personalidade e de sua trajetória, são de caráter pessoal e me reservo aqui o direito de não revelá-las, por considerar este o comportamento adequado que se deve ter em relação a uma certa ética de trabalho. De qualquer forma, acredito que os dados obtidos na etnografia, seja via observação ou através de entrevistas, já possibilitam uma análise suficientemente rica da SOBENCO e do próprio Salvador.

                Para atender à finalidades desta dissertação, algumas questões tiveram de ser privilegiadas em detrimento de outras, que poderão ser abordadas em um trabalho futuro. Assim, a análise da SOBENCO voltou-se preferencialmente para sua estrutura interna, em uma perspectiva de abordagem intra-instituição. Uma visão "para fora" da SOBENCO, ou melhor, uma análise mais aprofundada de como se dá a contra-mão da relação SOBENCO / Comunidade, que privilegiasse o olhar da comunidade, não foi buscada por inadequação de tempo e propósito. Da mesma forma, uma comparação com outras entidades da Baixada com projetos similares à SOBENCO, fundamental para consolidar a hipótese de que esta faz parte de um fenômeno geral, sem ser um caso isolado, será viabilizada somente em futuras pesquisas.

                Após esta apresentação da SOBENCO e de algumas breves considerações sobre o campo, indico a seguir as principais questões que pretendo desenvolver nesta dissertação, bem como algumas pistas sobre a ordenação e o conteúdo dos capítulos que se seguem:

                - Estou sugerindo que a representação que a sociedade possui da SOBENCO é uma representação cuidadosamente construída, tendo o líder Carlos Salvador como ícone, e que esta representação visa à constituição de uma identidade específica, positiva, que incide não só sobre Salvador como sobre todo o grupo que participa da instituição.

                - Procuro demonstrar de que forma a trajetória de vida de um indivíduo, ou melhor, o seu "projeto", pode se cruzar com a própria instituição por ele dirigida, fazendo com que sua "visão do mundo" passe a se constituir numa "visão de mundo" legitimada por um grupo extenso.

                - Busco analisar de que forma se processa o trânsito de um indivíduo por grupos sociais diferentes, especialmente em um centro urbano, como se elabora o seu network e como este indivíduo pode ocupar a posição de mediador a partir do desempenho de papéis diferentes. E de que maneira esta mediação assemelha-se a uma bricolage[17] de elementos retirados de seus contextos originais para a construção/invenção de uma realidade.

                - Destaco a importância da umbanda na criação de um "modo de vida" e de uma "visão de mundo" que irão ser fundamentais para a configuração da SOBENCO              - Tento demonstrar a exemplaridade da SOBENCO paradigma de um fenômeno que vem acontecendo em maior escala da Baixada Fluminense, onde instituições civis passam a constituir uma alternativa de mobilização popular, ligada geralmente a movimentos específicos (negros, mulheres, umbandistas, etc.) que vão trabalhar a questão da identidade, viabilizando ações políticas pelo viés da cultura.

 

                O capítulo 2, "Conhecendo a SOBENCO ", comporta uma etnografia detalhada da Sociedade, com dados sobre suas áreas de atuação, sua história, sua estrutura e sua organização espacial.

                No capítulo 3, "O Salvador", a análise recai sobre a figura de Carlos Salvador, onde, através de sua história de vida, procuro demonstrar a relação entre indivíduo e grupo, bem como entre projeto e visão de mundo. Nesta análise, trabalho com conceitos de carisma e centro ordenador, que me parecem muito adequados para analisar a figura do líder da SOBENCO.

                Nos capítulos 4, 5 e 6, apresento, respectivamente, aquelas que considero as três principais referências na trajetória de Salvador, que acabam por se cruzar na configuração da SOBENCO: a Umbanda, a formação militar e o Rotary Club.

                No cap. 4, dedicado à Umbanda, exponho primeiramente uma etnografia do "Templo Umbandista", com explicações sobre a doutrina da Umbanda Integral, praticada por Carlos Salvador, bem como as teorias e conceitos que a apóiam, para finalizar com uma análise sobre a hierarquia na Umbanda e sua relação com a hierarquia da própria SOBENCO. No capítulo 5, analiso a Ordem dos Guardiões da Pátria, cuja estrutura aponta diretamente para a influência de sua formação militar. No cap. 6, apresento uma etnografia do Rotary de Nilópolis e da relação desenvolvida entre Rotary/Salvador, bem como entre Rotary/ SOBENCO, procurando indicar o papel de mediador desempenhado por Salvador entre diversos grupos.

                Finalmente, no capítulo 7, dedicado às conclusões, procuro demonstrar a relação política/cultura que se engendra através da SOBENCO e da performance de Salvador. Neste capítulo, indico as ligações da SOBENCO com o movimento popular em Nilópolis, em especial, e na Baixada como um todo, e sua relação com as associações de moradores, buscando situá-la dentro de um processo recorrente já citado nesta introdução, definido como uma atuação específica de entidades civis no campo político, com características comuns em toda a Baixada Fluminense.

 

 

 



[1] Conhecer melhor a Baixada Fluminense foi uma grande experiência profissional e pessoal. A idéia que eu fazia, então, da região, formulada a partir das informações articuladas pela imprensa, era a de uma "terra de ninguém", um local onde a violência e o extermínio predominavam. O contato com as cidades e seus moradores gerou outro quadro, onde o que se via era uma região repleta de dificuldades (tais como falta de saneamento básico, ruas sem calçamento, transporte precário, etc.), porém muito mais calma do que eu poderia imaginar e voltada para a construção de uma identidade positiva, que visava exatamente fazer frente ao preconceito recorrente. Posso dizer que a minha ligação com a Baixada se articula não só por interesse acadêmico, mas por uma certa afetividade que faz com que minha atenção sempre se volte para a área.

 

[2]  O conceito foi retirado do proposto por EPSTEIN, in MITCHELL (1969), ao falar dos networks.

[3]  Sobre a relação entre o exótico e o familiar, conferir o texto "Estranhando o familiar", in: VELHO (1981).

[4]  Sobre o estudo da cidade pela antropologia e as dificuldades inerentes conferir especialmente O Desafio da Cidade, organizado por VELHO (1986). E também MITCHELL (1969).

[5] É preciso indicar que a Fundação Cultural de Paracambi, embora tenha nascido por iniciativa civil, funciona como uma parceria entre a comunidade e a prefeitura municipal.

[6] Leilah Landim (1993) afirma que as "associações beneficentes" pertencem a um "conjunto que contém as entidades mais antigas e tradicionais, sempre presentes numa sociedade de políticas sociais ineficientes e de muita religiosidade: são as que se dedicam à prestação de serviços de natureza diversa a  grupos  fragilizados   da   população   como   crianças  pequenas  ou  abandonadas,  nutrizes,  idosos, deficientes físicos e mentais, alcoólatras, desempregados, os que se encontram na linha da pobreza absoluta". Não poderia ser enquadrada no conceito de ONG (apesar da definição de "Ong como um termo que evoca o mundo da política, da militância, da cidadania, da modernidade (...)", o que, de certa forma, também remete à SOBENCO pois, segundo Landim, já uma oposição forte entre ONGS e associações beneficentes no que diz respeito ao assistencialismo. Ver LANDIM (1993), págs. 34 e 35.

 

[7] Os conceitos de "representação", "liderança", "projeto" e "visão do mundo" serão analisados no decorrer deste trabalho.

[8] Há algumas controvérsias sobre a população total de Nilópolis. Segundo dados do Boletim Estatístico da Baixada Fluminense (1994), ela estaria estimada em 157.936 moradores (dados relativos ao censo de 90/91). A prefeitura municipal argumenta que este dado está completamente equivocado, subestimando o número real, que funcionários locais afirmam beirar cerca de 300 mil pessoas. Particularmente, embora eu não tenha subsídios para afirmar qualquer número como verdadeiro, acredito que a estimativa do Boletim realmente esteja incorreta. Segundo dados do censo de 1980, a população estava estimada, na época, em 151.588 habitantes. Um crescimento, em dez anos, de apenas 0,4%, o que contradiz a realidade local, onde os problemas relativos ao aumento populacional têm crescido nos últimos anos. De qualquer forma, estou trabalhando na dissertação com os dados do Boletim quando afirma que, na SOBENCO já foi atendido um terço da população da cidade.

[9] Há, no final desta dissertação, uma pequena bibliografia sobre Nilópolis, que fornece dados mais completos sobre o município.

[10] Esta é uma explicação do próprio Salvador.

[11] Recentemente, foi criado na SOBENCO o grupo ecumênico GAME (Grupo de Amigos Místicos e Esotéricos) para realizar uma maior integração entre as diversas religiões. Falarei mais sobre isso no capítulo referente à umbanda.

[12] Procuro trabalhar aqui com o conceito de elite apresentado por Vilfredo Pareto, que afirma que em qualquer grupo ou sociedade sempre haverá uma "elite", na verdade um grupo que se mantém hegemonicamente no poder utilizando-se de diversos mecanismos, da coerção à persuasão. Assim, podermos falar da existência de uma elite econômica, uma elite política, uma elite intelectual, etc. Diz Pareto: "Fazemos uma classe com aqueles que possuem os índices mais elevados no seu setor de atividade, e aí lhe daremos o nome de classe eleita (elite)". Citado por ALBERTONI (1990), pág. 18. Para melhor compreensão do conceito de elite em Pareto, conferir também GRYNZPAN (1994).

[13] Volta a frisar que estes conceitos serão apresentados com mais vagar no decorrer da dissertação.

[14] A SOBENCO foi tema dos trabalhos finais dos cursos de Antropologia Urbana (prof. Gilberto Velho, MN, primeiro semestre de 1993) e Antropologia Política (prof. Moacir Palmeira, MN, primeiro semestre de 1994).

[15] A ponto de Salvador me convidar para, caso eu quisesse, montar algum trabalho conjunto com a SOBENCO. Em diversas ocasiões me fez convites para trabalhar com ele, seja me oferecendo "uma sala para que eu pudesse montar um trabalho de antropologia com a população" ou perguntando se eu "não gostaria de escrever as publicações da SOBENCO ", o que, diplomaticamente, recusei.

[16] As teses que eu havia levado: Balão no céu, alegria na terra, de Sandra Carneiro (1982) e A Máquina e a Revolta de Alba Zaluar (1985). Ele as leu e fez alguns comentários posteriormente, como o fato de conhecer baloeiros que tinham o perfil dos descritos por Sandra Carneiro, além de ter achado "todas as duas muito interessantes".

[17]  As referências aos conceitos de bricolage e bricoleur foram retiradas de LÉVI-STRAUSS (1976), especialmente do capítulo "A ciência do concreto".

 


Última alteração em 05-06-2014 @ 05:08 am

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