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COLEÇÃO GRANDES LÍDERES
Inserido por: Itauna
Em: 05-06-2014 @ 05:56 am
 

 

 

Capítulo III - O Salvador

                Fundador da SOBENCO, Carlos é Salvador no nome, na cidade em que nasceu (a capital baiana) e também na postura assumida frente à instituição que criou. Embora na SOBENCO tenham trabalhado muitas pessoas, entre voluntários e empregados contratados, é na figura de seu líder, Carlos Salvador, que encontramos toda a essência do trabalho realizado, além de ter idealizado a Sociedade, é com seu soldo de militar reformado que ele paga as contas básicas da SOBENCO. Além do mais, é em sua própria casa que estão instaladas a sede da Sociedade, a escola, o "Templo Umbandista" e o local de reuniões. É dele ainda o trabalho de organizar, criar e registrar todos os movimentos.

                Como já foi dito na introdução deste trabalho, as referências pessoais de Salvador são estruturantes quanto à SOBENCO. Tanto sua ligação com a Umbanda quanto a sua formação militar vão dar corpo e características à instituição, como veremos com mais detalhes nos próximos capítulos. Além disso, as articulações realizadas por ele com outros segmentos sociais de Nilópolis, dentre os quais se incluem não só a comunidade em geral mas representantes dos governos estadual e municipal, líderes comunitários e pessoas de prestígio econômico, político e cultural, permitem que no interior da SOBENCO possamos encontrar uma forte circularidade entre grupos distintos, gerando uma multiplicidade de papéis sociais, como mostrarei mais adiante.

                Por agora, voltemos à figura de Carlos Salvador.

                Trabalhar com histórias de vida tem se apresentado como uma proposta metodológica largamente utilizada não só pela Antropologia, como por outras disciplinas sociais. A narrativa da trajetória de indivíduos dentro de grupos muitas vezes fornece elementos fundamentais para se pensar como se configura essa relação entre as partes e, principalmente, até que ponto projetos individuais podem se cruzar e resultar em projetos coletivos, caracterizando mesmo a construção de um ethos[1] para aquele grupo, produto da combinação destes projetos, ou mesmo da hegemonia do projeto de um determinado indivíduo, que por alguma combinação de fatores, acaba se impondo sobre os outros.

                Antes de falarmos exatamente sobre projetos e construção de realidade, vale insistir na importância de se utilizar uma história de vida como viés de análise. Yvone Maggie, em Guerra de Orixá (1975), destaca a importância de utilizar histórias de vida em sua análise, afirmando que

                               "A idéia de relatar histórias de vida veio quando percebi a enorme importância que era concedida ao individuo nos rituais analisados".[2]

                No caso específico da SOBENCO, a trajetória individual de Salvador e sua história de vida oferecem uma perspectiva fundamental para se compreender o modo como se estruturou a instituição e, principalmente, que relações se estabelecem entre Salvador e o grupo, Salvador e a comunidade, o grupos e a comunidade e intra-grupo. Na verdade, estou buscando afirmar que a história de vida de Salvador se apresenta não só como um importante instrumento metodológico nesse estudo, mas antes de tudo como imprescindível para se efetuá-lo. Porque a SOBENCO está totalmente embrenhada pela presença de Salvador, de seus valores e visão de mundo. Assim, embora exista um grupo social que se articula e coloca em andamento os diversos programas elaborados na instituição, é Salvador a "mola impulsionadora", o grande "centro ordenador", a peça fundamental no mecanismo de funcionamento da SOBENCO.

                Não se trata, de forma alguma, de um "grupo fantasma", onde só aparecem as figuras de Salvador e Dona Maria. Na verdade, temos um grupo articulado, que atua em diversas áreas, sendo que parte dos membros da SOBENCO já trabalham na instituição já alguns anos, como é o caso, por exemplo, dos agentes comunitários[3]. O que acontece, porém, é que perante o poder de centralização de Salvador, o grupo se dissolve em uma espécie de anonimato - e podemos aqui trabalhar com a idéia desenvolvida por Simmel[4] ao falar do anonimato nas grandes metrópoles. Na verdade, o grupo está presente e atuando sempre, mas diluído em um rodízio constante de nomes e compactado como uma corporação onde não são os indivíduos que se destacam, mas seu trabalho em prol das causas da SOBENCO e, principalmente, o reconhecimento da liderança de Carlos Salvador.

                Durante todo o meu período de campo, e mesmo antes, ao freqüentar a SOBENCO como jornalista, conversei com diversas pessoas que atuaram na instituição, recorrente ou esporadicamente. O que pude constatar dessas conversas foi um grande entusiasmo pelo trabalho e, por vezes contraditoriamente, um certo desânimo quanto à sua continuidade. Porque o que aparece claramente no discurso dos outros componentes da SOBENCO é que a Sociedade depende totalmente de Salvador. Todos temem não só o esmorecimento de seus esforços, mas principalmente o futuro da SOBENCO quando não mais sob sua liderança. Os depoimentos a seguir são bem esclarecedores a esse respeito:

                               "Este trabalho desenvolvido na SOBENCO é muito importante, preenche as necessidades da população. Mas tudo depende muito de Salvador, não sei se vai ter continuidade depois. Estou tentando ajudar,mas ele é quem realmente tem o poder de organizar tudo" (Célio, Agente Comunitário)

                               "Este trabalho da SOBENCO é muito bonito. Salvador procura deixar pessoas para dar continuidade. Mas acho difícil alguém dar conta. Ele é o primeiro em tudo. Sem ele, acho difícil continuar". (Dona Maria)

                               "Eu sempre gostei da Ordem dos Guardiões, acho bacana mesmo. Mas acho que só funciona se o seu Carlos está atuando firme. Ele é que impulsiona tudo". (João, antigo membro da OGP)

                               "Acho a SOBENCO muito organizada, tudo funciona bem. Está sempre tendo alguma coisa, algum evento. A figura de Salvador influi muito, ele dá apoio, o pessoal dá crédito. A SOBENCO morre se ele abandonar". (Meny, ex-estagiária da SOBENCO)

 

                É neste sentido que estou afirmando que, embora constituída por um grupo de atuação, a SOBENCO está vinculada profundamente ao seu fundador. Neste caso, delinear a trajetória de Salvador e a maneira como sua vida pessoal se entrelaça com a estrutura da Sociedade que criou, não se configura como uma simples opção de análise, e sim como o caminho a se trilhar quando se quer realmente compreender o que faz dela uma entidade em funcionamento há mais de vinte e um anos, de forte penetração comunitária e capaz de combinar, em seu interior, referências singulares como a formação religiosa e a formação militar.

                Dito isso, passemos à história de vida de Salvador, para dela extrairmos alguns elementos de análise sobre a relação entre o líder, o grupo e a instituição.

O relato de Salvador

                Nascido em Salvador, Bahia, no dia primeiro de janeiro de 1937[5], Carlos Salvador foi criado com muitas dificuldades pelo pai, o tipógrafo Manoel Ângelo da Silva e sua esposa Carmem Assis da Silva. Além dele, o casal teve mais seis filhos, cinco homens e uma mulher. Devido às necessidades que atravessava a família, muitas vezes passando até fome, o casal resolveu deixar que os filhos fossem criados por "padrinhos", que se encarregavam de educar e alimentar o "afilhado", para depois encaminhá-lo ao primeiro emprego.

                               "Meu padrinho era um espanhol, que tinha um grande armazém, a "Casa Oriental", na Fonte Nova. Tinha um outro comércio também, um secos e molhados na Cidade Baixa de Salvador. Esse meu padrinho, justamente com minha madrinha, me proporcionou uma educação de primeiro mundo, realmente me orientando muito bem. Eu morei lá desde pequeno, sempre estudei, ouvia falar de muitas coisas diferentes, sempre procurei me informar. Daí, quando eu ia visitar meus pais verdadeiros, que moravam em um lugar muito pobre, meus irmãos diziam: "lá vem o nosso irmão rico". Eu não era rico nada, não tinha nada, só tive mais sorte que eles, tive condições de estudar". (Carlos Salvador)

                Aos doze anos, Salvador começou a trabalhar com o padrinho, na Casa Oriental, onde conheceu aquele que seria responsável por sua transferência para o Rio de Janeiro.

 

"Na Casa Oriental tinha um empregado, o seu Lealdino Menezes que depois ia criar uma empresa de transporte de carga, a Transportadora Rio-Bahia, que tinha um símbolo bacana, um Pão-de-Açúcar ligado ao Elevador Lacerda, me lembro bem. Dos trezes aos dezessete anos trabalhei nessa empresa, e aos dezoito fui para São Paulo, era o responsável por um depósito enorme, passava até trem dentro dele. Fiquei em São Paulo até os vinte anos, quando vim para o Rio como gerente da filial da empresa que ficava na Avenida Brasil. Trouxe comigo Dona Joaquina, minha madrinha, que eu considero como se fosse minha mãe[6], e trabalhei na empresa até que ela entrasse em falência". (Carlos Salvador)

 

                Foi ainda como gerente da empresa, morando em São Cristovão, que Salvador teve seu primeiro contato com o Exército, o que será contado com detalhes no capítulo V. Assim, quando a empresa faliu, Salvador ingressou nas Forças Armadas, aos 21 anos, na condição de refratário, e em menos de dois anos já havia sido promovido a Terceiro Sargento.

                Até então, Salvador não havia desenvolvido nenhum trabalho com a comunidade. Foi também por esta época, porém, que se deu sua iniciação na umbanda. Tanto os pais quanto os padrinhos, segundo seu depoimento, não eram praticantes de nenhuma religião, e seu primeiro contato com a umbanda acabou se dando por indicação de terceiros, quando Salvador buscava resolver problemas de ordem sentimental[7].

                               "Tanto minha entrada no Exército quanto na Umbanda se deram meio por acaso. Nunca tinha me passado pela cabeça nem uma coisa nem outra. Aconteceu meio sem querer". (Carlos Salvador)[8]

 

                Já como membro do Exército e freqüentando regularmente um centro umbandista localizado no Rio Comprido, Salvador iniciou seu trabalho com a comunidade, se voltando, primeiramente, para atender ao público infantil. Nessa época, os trabalhos se resumiam a organizar atividades de lazer e esportes com as crianças, bem como em fazer palestras sobre disciplina, boa conduta e moral. E a iniciativa não se dava de forma articulada, sendo fruto único de uma ação isolada de Salvador, que ainda não pensava em fundar uma sociedade com fins assistenciais.

                No final da década de 60, dois acontecimentos vão ser decisivos em sua trajetória. O primeiro foi o casamento com Dona Maria, que conheceu na Praça Saenz Peña, na Tijuca. Os dois resolveram se casar em 1965, e foram morar em Nilópolis após a transferência de Salvador, do CPOR / RJ para o B Es MB, em Magalhães Bastos,  na Vila Militar. Em sua residência, Salvador e Dona Maria resolveram criar o Jardim de Infância Nuclear, atendendo crianças carentes da região, que não conseguiam vagas ou não tinham condições de estudar nas escolas oficiais. Esse jardim foi o embrião de grande parte das atividades implementadas pela SOBENCO e funcionou, como já citado no capítulo anterior, até o ano de 1994.

                               "Quando conheci Salvador, ele já estava começando a trabalhar com a comunidade; eu conheci ele assim, dedicado, dando a vida pela comunidade. Fundamos primeiro o Jardim, que me deu muitas alegrias. Depois surgiu a SOBENCO e o trabalho foi crescendo cada vez mais". (Dona Maria)

 

                Paralelamente a este passo inicial de atendimento à comunidade, através do Jardim de Infância, que funcionava na própria residência do casal, Salvador iniciou seus estudos na OM-AUM (Organização Mística de Aspiração Universal ao Mestrado), sagrando-se, após sete anos de estudos  Sacerdote em Ciências Esotéricas[9]. Durante seus anos de aprendizado, foi amadurecendo a idéia de desenvolver um trabalho de implementação da Umbanda, com a conjunção de atividades na área espiritual e na da assistência social. Deste projeto, nasceu a SOBENCO, que viria a ser fundada em 1º de maio de 1972 (como NEXPP/SOBENCO), já na nova residência, onde até hoje está funcionando, como já descrito anteriormente.

                Nos últimos vinte e um anos, a dedicação de Salvador à SOBENCO tem sido total. Não só o fundador investe cerca de 40% de seus rendimentos na manutenção da Sociedade, como a estimativa da dedicação se multiplica se pensarmos o quando ele investe em termos de tempo e interesse. Apesar do apoio de Dona Maria, responsável pelo trabalho com as crianças, esta doação em tempo quase integral aos trabalhos da SOBENCO resultou em alguns conflitos e atritos familiares, não só entre o casal, mas também entre Salvador e suas duas filhas, ambas adotadas, Nilda, de 26 anos, e Valéria, de 22 anos.

                Durante alguns anos, Nilda participou ativamente das atividades da SOBENCO. Segundo Dona Maria, a filha auxiliava bastante na parte administrativa, organizando os arquivos e funcionando como uma espécie de "Secretária-Geral" da Sociedade. Além de trabalhar na organização, Nilda gostava também de trabalhar com algumas das áreas de atuação da SOBENCO, especialmente a Ordem dos Guardiões da Pátria. Após o casamento, há cerca de três anos, ela acabou por se afastar dos trabalhos desenvolvidos[10].

                Já Valéria, segundo Dona Maria e o próprio Salvador, nunca se conformou com a dedicação exclusiva do pai em relação à SOBENCO, infelizmente, em todo o período de campo, nunca tive oportunidade de conhecer as duas filhas de Salvador, e embora algumas vezes tenha sugerido a possibilidade de ser marcado algum encontro, nem Salvador nem Dona Maria estimularam a idéia, respondendo com evasivas. Portanto, a relação estabelecida entre as filhas, Salvador e a SOBENCO foi apreendida nas falas de Salvador e, principalmente, de Dona Maria.

                               "Dona Maria se adaptou realmente bem a mim, a gente se dá muito bem, ela não me atrapalha nada. Há um pouco de ciumeira da família, mas eu tento lidar. Elas podiam, inclusive, estar aqui comigo, mas não querem. Eu não imponho, elas não são disso. Reclamam que dou mais atenção à comunidade. Mas nunca faltou nada para elas, só se for um conforto maior, se considerarmos que conforto é ter bem material. Mas nunca deixei faltar nada e acredito que temos o bastante". (Carlos Salvador)

                               "Eu participo muito pouco, minha maior participação é deixar ele à vontade, fazendo sempre o que quer. Mas as minhas filhas não tinham reações iguais. A mais velha participava, mas a mais nova não gosta e não participa. Criamos as duas com liberdade de escolha. Valéria nunca gostou, não ajuda porque não gosta. Ela acha que vivemos sempre com muito sacrifício, sem carro, sem telefone, sem casa própria. A minha filha mais nova não se conforma com o que ela chama de maior dedicação à comunidade em vez da família. Eu aceito porque conheci ele assim, não é qualquer mulher que aceitaria. Se consegui chegar aos trinta anos de casada, é porque aceitei. Mas não é fácil, pois não temos conforto, só o suficiente para viver". (Dona Maria)

                É Interessante observar que, para alguns dos colaboradores eventuais da SOBENCO, a ausência da família atuando mais diretamente com Salvador na manutenção da instituição é motivo de crítica. Em diversas ocasiões, membros do grupo comentavam que "Dona Maria era muito ausento", "a família deveria apoiar mais", às pessoas da casa não compreendem o trabalho dele", entre outras observações no mesmo sentido. E geralmente esses comentários não foram provocados por nenhuma pergunta ou indicação minha, mas apareciam espontaneamente quando as pessoas começavam a falar sobre a impressão - generalizada - de que a SOBENCO terminará quando Salvador desistir ou morrer.

                Podemos agora voltar ao nosso ponto de partida. Reconhecidamente, é Salvador quem anima, quem dá alma à instituição. Está presente no discurso e mesmo na relação que se estabelece entre ele e os demais membros da SOBENCO - que o consultam para tudo - de que, sem ele, a instituição não funciona. Podemos dizer, sem dúvida, que Salvador é a representação máxima dos objetivos da SOBENCO[11]. Ao comparecer fardado com o uniforme da Ordem dos Guardiões da Pátria[12] a todos os eventos promovidos pela entidade, se portando como um exemplo a ser seguido em termos de retidão de caráter, honestidade, dedicação às causas sociais, respeito pela ordem estabelecida e amor ao trabalho, Salvador toma para si a responsabilidade de encarnar os princípios fundamentais da SOBENCO. De certa forma, ele funciona como um ícone desses valores, sendo visto pelo público que convive diariamente com as áreas de atuação da SOBENCO não como um líder ou como uma espécie de "presidente-fundador", mas como a própria SOBENCO. Nesse sentido, Salvador não faz parte da SOBENCO, ele é a SOBENCO. A idéia do líder como um ícone é retirada de GEERTZ (1991), quando ele se refere ao rei como um ícone. Diz Geerts:

                               "Centro exemplar dentro do centro exemplar, o rei retratava exteriormente para os seus súditos o que retratava interiormente para si mesmo (...)". Neste caso, ele era um objeto ritual"[13].

 

                Sem a sua liderança e dedicação, a entidade não sobreviveria, pois, conforme dito acima, de seu próprio bolso sai parte da verba para manter as atividades da SOBENCO. Mas, mais do que garantir a sobrevivência material da Sociedade, a figura de Salvador garante sua perpetuação em todos os níveis. Em primeiro lugar, ele é uma garantia de que a SOBENCO não se destina a fins inescrupulosos, legitimando de tal maneira a instituição que pessoas de baixo poder aquisitivo fazem um grande esforço para doar um quilo de arroz para ajudar na campanha contra a fome por confiarem em seu trabalho. Além disso, sua postura sempre firme frente à direção da SOBENCO, procurando manter a rotina da Sociedade intocada, sem desvirtuar os princípios básicos da filosofia umbandista e da disciplina militar, funciona como um paradigma. É neste sentido que podemos afirmar que a figura de Carlos Salvador funciona, dentro da estrutura da SOBENCO, como um centro ordenador, no sentido empregado ao termo por Geerts, por exemplo. Ele é o líder carismático, entendendo-se carisma não como um sinal, um apelo popular ou um modismo, mas uma característica "do que está próximo ao coração das coisas", ou seja, o que é central. Em GEERTZ (1983) encontramos a noção de carisma como centro perfeito e ordenador. Ele afirma que:

"(...) se carisma é um sinal de envolvimento com centros animados da sociedade e se tais centros são fenômenos culturais e assim historicamente construídos, investigações quanto aos aspectos simbólicos do poder e quanto à sua natureza são bem similares."[14]

                Explicando melhor o que está afirmando acima, podemos dizer que Salvador é a base de todo o funcionamento da SOBENCO. Dele partem todas as iniciativas de funcionamento das sete áreas, embora cada uma delas conte com um grupo específico de trabalho.

                Sua presença é certa em torneios, festas, reuniões, assembléias, sessões de umbanda, enfim, em todos os eventos promovidos pela SOBENCO. Nesses eventos, o fundador da SOBENCO executa sempre um papel ritualizado, através do uso de um uniforme[15], de participação efetiva em todos os acontecimentos e da preocupação de fazer sempre discursos em nome da SOBENCO, os quais obedecem sempre a um estilo padronizado, onde Salvador agradece o apoio dos presentes, elogia o evento, fala do trabalho da SOBENCO e termina reafirmando a necessidade de não deixar este trabalho esmorecer[16]. Estes procedimentos aparecem, então, como "ritos de instituição", no sentido de que o rito é o elemento que consagra, que diferencia, que traz a identidade, como afirma Bourdieu[17].

                Portando-se sempre como o paradigma da ordem e da retidão de caráter, Salvador se vê em plenos direitos de exigir o mesmo de todos os segmentos da SOBENCO. Disso resulta o fato de que alguns colaboradores não ficam muito tempo na Sociedade, por não conseguirem se adaptar à presença dominante do líder. As exigências não encontram espaço de negociação, e isto pode ser percebido claramente não só nos discurso dos membros da SOBENCO, mas na observação das atitudes de Salvador e do grupo. A hierarquia de cada uma das sete áreas, totalmente pautadas por estatutos devidamente arquivados na secretária da entidade, deve ser impreterivelmente obedecida. Para Salvador, e conseqüentemente para todos os que aceitam trabalhar com ele, o que faz a SOBENCO funcionar é a rigidez de sua estrutura interna. E o que faz esta rigidez ser mantida é o modelo oferecido pelo seu líder. Dessa forma, o projeto individual de Carlos Salvador se cruza com a configuração da SOBENCO, fazendo com que a "visão de mundo" do líder passe a ser vivenciada como a "visão de mundo" de todo um grupo social que se encontra de alguma forma conectado à SOBENCO[18].

                Vamos falar sobre isso com mais vagar. Evidentemente, não estou dizendo que todos os que fazem parte da SOBENCO são um mero reflexo de Salvador, espelhos de suas vontades e aspirações. Prova em contrário são exatamente os desligamentos que ocorrem regularmente. Assisti, durante o período de campo, a pessoa que iniciavam entusiasmadas o trabalho em alguma das sete áreas da SOBENCO desistirem poucos meses depois, sempre alegando incompatibilidade com o modo de Salvador", "o jeito dele de fazer as coisas", sua "mania de mandar". Se as dissidências são visíveis, porém, também o são as incorporações. Dessa forma, aqueles que ficam na SOBENCO, como atestam os depoimentos abaixo, o fazem aceitando totalmente o modelo indicado por Salvador, que inclui não só uma obediência total às normas, mas fundamentalmente uma crença coletiva no que se refere à validade do trabalho realizado. Crença aqui, evidentemente, não se refere à questão religiosa, pois muitos dos colaboradores da SOBENCO não são umbandistas, mas no sentido de uma motivação comum em torno de um mesmo objetivo.

                               "Acredito no trabalho da SOBENCO e me empenho para fazer o melhor. A SOBENCO é muito organizada, e só assim é que pode funcionar uma entidade como ela. Não dá para fazer nada sem disciplina e isso eu aprendi com a SOBENCO" (Segirslan, vice-presidente da Associação de Moradores do Cabral)

                               "A pessoa, para trabalhar na SOBENCO, tem de se portar muito bem, seguir as regras. A gente tem feito um grande trabalho com a comunidade, mas é preciso ter liderança e controle. Se não, vira bagunça" (Célio, Agente Comunitário)

 

                               "Para participar das atividades da umbanda, não pode ser qualquer um. Queremos pessoas sérias, a pessoa tem de entrar no esquema, participar mesmo. Somos muito rígidos com isso". (Dona Maria).

                O que estou dizendo, realmente, é que a SOBENCO é fruto de um projeto de Carlos Salvador, um projeto individual, traçado e planejado durante grande parte de sua vida. Entendo projeto como proposto por VELHO (1981) e (1994), que afirma:

                               "A noção de que os indivíduos escolhem ou podem escolher é a base, o ponto de partida para se pensar em projeto"[19].

E ainda:

                               "Um dos conceitos que considero fértil para lidar com casos como o que estamos examinando é o de projeto. Beneficiei-me dos obras de diversos autores mas vem principalmente de A. Shutz a influência principal nessa direção. Projeto, nos termos deste autor, é a conduta organizada para atingir finalidades específicas[20].

                Evidentemente, Salvador, como indivíduo, está sujeito a idiossincrasias. De certa forma, a construção da SOBENCO não é uma reprodução literal do que foi planejado por Salvador na elaboração de seus objetivos de vida. Ele, em muitos momentos, está respondendo ao que o grupo apresenta em termos de prioridades e construção de realidade. Não se pode pensar a construção de um projeto individual sem contextualizá-lo dentro de um campo social, onde os diversos projetos se cruzam e se interpenetram.

                               "O projeto, enquanto conjunto de idéias, e a conduta estão sempre referidos a outros projetos e condutas localizáveis no tempo e no espaço. Por isso é fundamental entender a natureza e o grau maior ou menor de abertura ou fechamento das redes sociais em que se movem os atores. Posso me inspirar em um varão de Plutarco, mas tenho de levar basicamente em conta os meus contemporâneos com quem terei de lidar para procurar atingir meus objetivos. Serão aliados, inimigos ou indiferentes, mas serão seus projetos e condutas que darão os limites dos meus. Uns serão mais importantes do que outros, mais relevantes e significativos. Por mais esotérico e particular que seja, um projeto tem de se basear em um nível de racionalidade cotidiana em que expectativas mínimas sejam cumpridas.[21]"

                Assim, as atitudes, os valores, a própria visão de mundo de Salvador são um somatório de sua trajetória como indivíduo e de sua articulação dentro de diversos grupos, que vão caracterizar networks[22] por onde Salvador transita e desempenha múltiplos papéis.

                Gilberto Velho utiliza o conceito de campo de possibilidades para indicar como pode o indivíduo se movimentar frente ao social e como, de certa forma, ele pode adequar seus projetos individuais dentro de projetos sociais, que englobam outros indivíduos.

                               "Os projetos individuais sempre interagem com outros dentro de um campo de possibilidades. Não operam num vácuo, mas sim a partir de premissas e paradigmas culturais compartilhados por universos específicos. Por isso mesmo são complexos e os indivíduos, em princípio, podem ser portadores de projetos diferentes, até contraditórios."[23]

                Dessa forma, a SOBENCO, que é, fundamentalmente, um projeto de vida de Salvador (que afirma, inclusive, que "esta é a sua missão"), em alguma medida passa a ser um projeto coletivo, que engloba outras pessoas, fazendo com que Salvador muitas vezes desempenhe uma mediação entre projetos distintos que acabam por se unificar dentro da SOBENCO. Sua preocupação com o caráter dos participantes, com a lisura de todos os procedimentos da Sociedade, com o respeito à hierarquia e à ordem dentro da instituição, que são fundamentais em seu repertório individual, acabam sendo incorporados e reproduzidos pelos demais membros do grupo. Estamos falando aqui na possibilidade de um projeto individual se transformar em projeto coletivo, gerando uma visão de mundo e um estilo de vida também coletivos.

                               "As trajetórias dos indivíduos ganham consistência a partir do delineamento mais ou menos elaborado de projetos com objetivos específicos. A viabilidade de suas realizações vai depender do jogo e interação com outros projetos individuais ou coletivos, da natureza e da dinâmica do campo de possibilidades.[24]"

                Por isso, a importância não só de conhecer a trajetória de Salvador, sua história de vida, mas de perceber de que modo suas referências pessoais funcionam como fundamentais para a estruturação da SOBENCO. Ou seja, sem compreender as principais referências da vida de Salvador, que são exatamente sua formação umbandista e militar, é impossível entender a singularidade da SOBENCO e sua penetração na comunidade. Afinal de contas, a SOBENCO, como já foi assinalado na introdução, é paradigma de um fenômeno que se repete na Baixada Fluminense, em que instituições assistencialistas, que atuam paralelas ao poder oficial, desempenham uma importante função na configuração da identidade e da representação dos grupos que são por elas atendidos. Nesse sentido, a SOBENCO é um exemplo a ser pinçado de uma rede bem mais ampla. O que a faz se destacar, e merecer, a meu ver, um olhar mais demorado e cuidadoso, são os indicativos de que temos, neste caso, um grupo inteiro funcionando há muitos anos sob a orientação de uma liderança muito forte, que não só imprime seus traços na conduta dos componentes da instituição, mas é a representação personificada dessa instituição.

                               "Coloquialmente, identificamos a idéia de pessoa ou personalidade como aquilo que é apresentado na relação com os demais, no sentido mesmo de máscara. (...) O sentido de hipóstase, desenvolvido com variação em toda a história da filosofia, é o de realidade abaixo da aparência. É o ato de suportar, de dar fundamento e o que está no fundo; é o sujeito da ação e da fala, e a realidade oposto à fantasia. Podemos assim entender que a máscara não oculta, mas revela; ela própria traduz algo da intimidade. Não se fala através da máscara, mas por ela.[25]"

                Salvador toma para si este papel, de ser a personificação da SOBENCO, dentre outros que vem representando na construção e execução de seu  projeto. Através de códigos comuns, que são acionados tanto por ele quanto pelo grupo, suas atitudes têm lugar dentro de "províncias de significados"[26]. Sua postura é a de funcionar como ícone da SOBENCO, e esta representação é apreendida facilmente pelo grupo. Alguns exemplos podem ser dados para ilustrar o que se afirma até aqui. Todos os eventos presenciados por mim, durante o período de campo, só se iniciam com a sua presença. Mesmo que as responsabilidades estejam distribuídas e os papéis delegados, Salvador é consultado para tudo, o tempo todo. Sua figura, paramentado com o uniforme de apicultor chefe da Ordem dos Guardiões da Pátria, impressiona os que o vêem pela primeira vez. Durante os eventos, fala sempre em nome da SOBENCO, mas os outros membros, ao falarem da SOBENCO, falam muitas vezes em Salvador, mesmo quando querem se referir à instituição.

                               "A SOBENCO é uma instituição pioneira, que tem desenvolvido um grande trabalho na comunidade, se mantendo através da ordem e da disciplina. A SOBENCO quer trabalhar pela construção de um mundo melhor e esta é a sua missão". (Carlos Salvador)

                               "O Salvador é muito ativo, ele atua em várias áreas, mantém escola, dá cursos, promove grandes eventos. Sua atuação é grande". (Gilton Sarmento, colaborador da SOBENCO)

                               "De todas as associações que trabalham em Nilópolis, o Salvador é o mais organizado. Todas as outras acabam sendo federadas a ele, de uma certa forma". (Nildo Faustino, líder comunitário)

               

                A diluição da instituição na figura de seu líder alcança sua visualização máxima quando, durante algumas entrevistas com pessoas que entravam em contato com a SOBENCO (por exemplo, alunos do curso de Evangelização, idosos atendidos na área voltada para a terceira idade, inscritos para os sopões, etc.), muitos declaram não saber o que é a SOBENCO, muitas vezes até mesmo desconhecendo esse nome, mas todos afirmaram conhecer Salvador e o trabalho que faz dentro de uma instituição. É interessante notar que a instituição, em si, não é desconhecida, mas sua associação não se dá com o nome "SOBENCO" mas com a figura de Salvador.

                Isto poderia se apresentar como um empecilho para o bom funcionamento das atividades, colocando em xeque mesmo a credibilidade da instituição no que se refere ao seu alcance dentro da comunidade. Mas isso, na verdade, não ocorre. A concentração da liderança nas mãos de Salvador, a personificação da SOBENCO como sendo uma extensão sua e o reconhecimento que isso tem por parte da população, na prática, não alteram os resultados expressivos obtidos pela instituição nesses anos de atuação no município de Nilópolis.

                De certa forma, a postura centralizadora de Salvador não anula a SOBENCO, ao contrário, acaba por impulsioná-la, já que as pessoas identificam Salvador e SOBENCO, e essa correlação rende bons frutos porque Salvador é tido, conforme pude perceber durante as entrevistas, como um 'sujeito sério", "um cara que não visa o interesse", "trabalhador, interessado, muito prestativo", "muito preocupado com as pessoas", "durão, mas muito atuante", enfim, como alguém que merece crédito e respeito. Não é difícil constatar que isso gera, em Salvador, um sentimento de visível orgulho. Embora afirme que não busca ser reconhecido pelo trabalho que faz, é nitidamente uma pessoa vaidosa. Algumas das afirmações abaixo, surgidas durante nossas muitas conversas, evidenciam o que esta sendo dito.

"Eu tenho um ideal, não trabalho por ego ou vaidade, mas a verdade é que venci muitas barreiras".

                               "Sou emérito auto-didata, só freqüentei os bancos escolares até a segunda série do segundo grau, mas confesso que não me fez falta esse ensino regular porque as circunstâncias sempre me colocaram em posição de destaque pela facilidade com que eu me desenvolvi nas missões que recebi".

                               "Estou juntando material para escrever a minha história, um livro com a minha vida. Tenho memória prodigiosa e estou anotando tudo. Acho que isso será de grande contribuição para o movimento". (Carlos Salvador)

                Assim, se Salvador imprime sua marca sobre a SOBENCO, fazendo com que suas referências pessoais sejam fundamentais para se pensar como se estrutura a instituição, é inegável, também, que a SOBENCO é uma referência fundamental para se pensar a própria figura de Salvador. A situação é claramente de mão-dupla. A SOBENCO precisa tanto de Salvador para se manter quanto este precisa da instituição para consolidar seu projeto individual e marcar sua identidade positivamente, até mesmo para anular uma série de preconceitos e estigmas[27] que poderiam ser acionados se levarmos em conta outras dimensões de sua vida, como, por exemplo, a origem humilde, o fato de ser negro, a condição de umbandista e de morador da Baixada Fluminense. Todas as categorias acima são recorrentemente motivo de preconceito generalizado, sendo que aqueles que delas participam muitas vezes se encontram em posições marginalizadas dentro de determinados contextos, atravessando freqüentes processos de exclusão.

                O que procuro demonstrar aqui é que Salvador, de certa forma, enfrenta e escapa deste processo excludente, através do reconhecimento de seu trabalho comunitário. Dessa forma, foi aceito no Rotary Club de Nilópolis, uma associação de caráter exclusivista, que, em geral, reúne um seleto grupo, içado entre os "expoentes" políticos e econômicos da localidade. Além disso, Salvador foi agraciado, há alguns anos, com o título  de cidadão honorário de Nilópolis, em razão dos serviços prestados ao município. Mais ainda: sua casa é freqüentada por representantes de grupos sociais bem distintos, sejam presidentes de associações de moradores, políticos influentes, produtores culturais, líderes de movimentos de cidadania, pessoas comuns, desportistas, etc. E são constantes os convites para que ocupe cargos diversos na comunidade, como já foi citado na introdução. Seu nome, portanto, é respeitado e prestigiado. E o que permite essa inversão, fazendo com que não só os mecanismos de exclusão sociais sejam estancados mas seu nome passe a ser sinônimo de prestígio e respeito, é a sua ligação com a SOBENCO. Podemos dizer que é Salvador (e sua trajetória individual) que lhe confere identidade. Mas é evidente que é também a SOBENCO quem permite a Salvador a construção de uma identidade positiva.

                Se o seu trabalho assistencial é fruto de uma vocação e mesmo uma "missão" orientada pelos valores da doutrina umbandista, é inegável também que através dele Salvador consegue ascender socialmente. E esta ascensão envolve não só a aquisição de um prestígio frente à comunidade, mas a consolidação de um poder. Podemos dizer, portanto, que ao investir na comunidade, Salvador está almejando também a realização de um projeto individual onde a busca de prestígio e poder, relacionados diretamente com a possibilidade de ascensão social, é vital.

                Ao transformar o projeto individual de Salvador em projeto coletivo, o grupo, de certa forma, também se beneficia com a inversão acima explicada. É interessante poder observar, por exemplo, que pessoas que não teriam acesso ao Rotary, ou chance de estabelecer contato e conviver com determinados grupos sociais, graças ao trabalho desenvolvido na SOBENCO, passam a circular por esses espaços e grupos, sendo aceitos. Neste sentido, a SOBENCO fornece uma identidade positiva não só a Salvador, nas a todo o grupo. O trabalho comunitário é fator de legitimação social e, na maioria das vezes, funciona como uma restrição à instalação dos processos excludentes.

                Voltaremos a este ponto no final desta dissertação. Nos próximos capítulos, examinaremos com detalhes de que forma as referências fundamentais da vida de Salvador se cruzam no interior da SOBENCO, configurando e estruturando a instituição.



[1] Sobre o conceito de ethos como "estilo de vida", ver VELHO (1981) e (1994); BATESON (1967); e GEERTZ (1989).

[2] MAGGIE (1975), página, 93

[3] Os Agentes Comunitários são os colaboradores mais atuantes da SOBENCO. Eles fazem a ligação direta entre a comunidade e a instituição, estando presentes na maioria dos eventos. Entre os mais atuantes, estão Valter e Célio, que sempre procuraram destacar, em nossas conversas, a validade do trabalho empreendido.

[4] Sobre o anonimato nas grandes metrópoles, conferir SIMMEL (1971 e 1973) e também a abordagem de VELHO (1981) e (1994).

[5] Sobre seu nascimento, Salvador afirma com freqüência: "Sou de personalidade forte pois sou de capricórnio. Isso já explica muita coisa". A referência ao signo zoodiacal como explicação para sua conduta remete à importância que a astrologia tem para a Umbanda Integral, onde as datas de nascimento e os signos determinan qual o Orixá de cada pessoa.

[6] Na verdade, Salvador se refere a sua madrinha, que o criou, como sua "mãe". Sua mãe consangüínea faleceu muito nova, aos 28 anos.

[7] A entrada de Salvador para a Umbanda será descrita com detalhes no próximo capítulo.

[8] Embora regularmente Salvador se refira à sua entrada na umbanda e no Exército como se fosse obra do "acaso", há, paralelamente, uma forte crença pessoal no seu "destino". O fato de se chamar "Salvador", segundo ele, não é "por acaso", tanto quanto não são "por acaso" todas as escolhas que fez durante sua vida. Na verdade, Salvador acredita que todo o seu caminho foi traçado de forma alheia à sua vontade, pois toda a sua vida foi dedicada somente a cumprir sua "missão". Sobre o conceito de "destino", conferir VELHO (1994) e VELHO, in: PRADO (1988). "Passo a considerar a noção de destino, procurando indagar os seus possíveis significados na sociedade moderno-contemporâneo, particularmente no que se relaciona com a problemática de indivíduo e sujeito". Conferir VELHO (1994), pág.. 116.

[9] Uma análise mais detalhada da formação religiosa de Salvador será feita no próximo capítulo.

[10] O casamento de Nilda (Maninha) gerou uma crise sem precedentes na história da SOBENCO. Essa crise e suas conseqüências serão explicadas no capítulo seguinte, referente à Umbanda.

[11] Sobre o conceito de representação, ver BURKE (1994) e ELIAS (1987). Este último, ao analisar o uso da etiqueta na Corte, afirma que "os actores desempenhavam o papel de suportes dessas situações de prestígio. Tornavam assim visível a relação que marcava as distâncias, que unia e afastava, punham à prova a hierarquia sempre presente na mente de todos e de cada um, a cotação que cada um atribuía aos outros e que todos atribuíam a um. A etiqueta"em acção" é portanto uma "auto-representação" da corte. Cada um - a começar pelo rei - se certifica, através dos outros, do seu prestígio e da sua posição de força relativa". Conferir ELIAS (1987), pág. 75

[12] Vale aqui descrever este uniforme, com o qual Salvador comparece às atividades mais importantes e que corresponde ao seu traje de apicultor chefe da OGP. Trata-se de calça de brim, com blusa cinza-chumbo (tipo "aeronáutica"), sapato preto de passeio e boina preta. Existe também uma camisa de malha branca, par uso em dias de atividades mais informais. O uniforme é ornamentado com símbolos e indicações da "patente" do membro da OGP e deve ser usado, obrigatoriamente, por todos os guardiões. Em algumas ocasiões Salvador me aguardava totalmente uniformizado, geralmente quando nós combinávamos entrevistas mais longas ou no dia em que tiraríamos fotografias. Isso parece apontar para um certo grau de importância dado por ele aos eventos. Nos outros dias, ele vestia roupas comuns, mas com um detalhe: apesar da cor de seu Orixá e protetor espiritual ser violeta, Salvador tem um predileção pela cor azul, vestindo quase que diariamente roupas dessa cor.

[13] Conferir GEERTZ (1991), págs. 164 e 165.

[14] GEERTZ (1983), pág. 124. Sobre carisma, conferir também WEBER (1991)

[15] BRYANT (1986) aponta para importância do vestuário dentro do simbolismo de um ritual. Através de trajes distintos, cores diferentes, etc., os grupos/indivíduos marcam as suas posições.

[16] BAUMAN (1990) chama a atenção para o discurso como performance e a utilização de determinados códigos que garantem a comunicação pretendida com a platéia.

[17] Conferir BOURDIEU (1982).

[18] Para melhor compreensão dos conceitos de "projeto" e "visão de mundo", ver VELHO (1981), (1982) e (1994) e também SCHUTZ (1979).

[19] VELHO (1981), pág. 24. Os grifos são do autor

[20] VELHO (1994), pág. 40. Os grifos são do autor. Neste trecho, Gilberto Velho, ao se referir a "casos como o que estamos examinando" remete ao seu estudo sobre imigrantes de origem portuguesa nos Estados Unidos, realizado em 1971. Em nota ao pé da mesma página, o autor explicita ainda quais as obras de Schultz que servem de referência ao que está sendo dito. Assim: "Vewr de Schutz, Alfred. The problem of social reality", in Collected Papers. The Hague, Martius Nijhoff, v. 1, 1970-1971; e Fenomenologia e relações sociais. Rio de Janeiro, Zahar, 1979."

[21] VELHO (1981), pág. 28.

[22] Conferir, sobre "networks", o que diz EPSTEIN, in : MITCHELL (1969)

[23] VELHO (1994), pág. 46. Os grifos são do autor.

[24] Idem, pág. 47. Os grifos são do autor.

[25] EKSTERMAN, in: PERESTRELLO (1989).

[26] Sobre o conceito de "províncias de significado", ver especialmente VELHO (1994).

[27] Sobre o conceito de "estigma", conferir GOFFMAN (1988), que afirma: "O termo estigma, portanto, será usado em referência a um atributo profundamente depreciativo(...)". Ver pág. 13.

 


Última alteração em 05-06-2014 @ 05:56 am

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