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COLEÇÃO GRANDES LÍDERES
Inserido por: Itauna
Em: 05-06-2014 @ 07:24 am
 

 

 

Capítulo IV - O "modo de vida da Umbanda"[1]

"Sagrada Hierarquia da Umbanda

Tu és a portadora da luz

Teu grande manto nos protege

e Teus mensageiros nos conduz (sic)

Ao sublime e meigo Jesus.

São eles os protetores

que nos ajudam nas dores

e fazem a esperança renascer.

Ame você o seu povo

pois um dia voltarás de novo

nesse mundo viver.

E  no Templo Umbandista

iluminados pela luz

pela luz do coração

Vamos com Pedra Preta

Cultuar a Orixalá com fé e devoção.

São eles os protetores

que nos ajudam nas dores

E fazem a esperança renascer.

Ame você o seu povo

pois um dia voltarás de novo

neste mundo viver"[2]

            Hierarquia[3] é uma palavra fundamental se buscamos compreender como se elabora a doutrina da Umbanda Integral e as relações que se estabelecem entre o universo umbandista e o universo da SOBENCO. Entender como se processa, no interior da doutrina, a complexa estrutura hierárquica dos orixás e das entidades é vital para compreendermos como se organiza também a hierarquização dos membros da SOBENCO no interior da instituição. O que proponho aqui é trabalharmos com a umbanda como geradora de um "modo de vida", específico, que se reflete para além do universo religioso, contaminando as relações cotidianas.

            Em seu trabalho "Gueto cultural ou a Umbanda como modo de vida: notas sobre uma experiência de campo na Baixada Fluminense", Yvonne Maggie e Márcia Contins analisam a relação que se estabelece entre a Umbanda e os grupos sociais que dela participam. Segundo as autoras.

              "Grande parte dos terreiros, na Baixada Fluminense, centraliza um tipo específico de maneira de viver, pensar e sentir. No caso por nós estudado, percebemos como o terreiro se liga com o cotidiano do bairro. Chamamos de modo de vida da Umbanda esse tipo específico de relação social, econômica e ideológica criada a partir dos terreiros"[4].

            Neste trabalho, Maggie e Contins demonstram como a Baixada Fluminense, de um modo geral, vivencia uma situação de "isolamento social e espacial", onde "o Estado não chega lá. A escola, a rede de serviços urbanos, o jornal, etc., não atingem esse grupo"[5]. Isso faz com que algumas instituições acabem se constituindo em "guetos culturais", praticamente se responsabilizando por suprir certas deficiências locais. Neste sentido, os centros de Umbanda terminam por se tornar centralizadores desta produção cultural, por serem unidades de grande mobilização e penetração popular, gerando assim um "modo de vida" especifico. No caso da SOBENCO, não podemos falar em "gueto cultural", pois a instituição, ao desempenhar um papel de mediação entre grupos diferentes e implementar uma circularidade cultural, acaba sendo responsável por uma quebra de isolamento entre esses grupos. Mas podemos tomar a influência da umbanda na SOBENCO como geradora de um modo de vida específico, que irá, contudo, influenciar não só a instituição como os grupos por ela atingidos.

            Embora A SOBENCO seja dividida em duas áreas[6] ("Universo Esotérico" e "Universo Exotérico", sendo que somente ao primeiro ficaram delegadas as atividades relacionadas à Umbanda), não se pode falar de uma separação total entre a parte administrativa e a parte religiosa da instituição. Sem dúvida, a doutrina da "Umbanda Integral", da qual Carlos Salvador é idealizador, perpassa definitivamente todas as áreas da SOBENCO.

            Isso pôde ser visto, de modo explícito, na escolha de um orixá como guia de cada uma das sete áreas da instituição, como descrito no capítulo II. Porém, muito mais do que isso, a Umbanda é o ponto de partida de todas as atividades realizadas pela Sociedade Beneficente, pois, segundo Salvador, é ela "quem dá as diretrizes de todo o trabalho".

              "Eu tenho uma missão que é implantar, divulgar e expandir a Umbanda Integral em todo território nacional, quiçá no mundo. Não importa, para isso, o tempo que eu vou levar. A Umbanda é quem nos fornece o instrumento para trabalharmos com a comunidade. O que queremos é que as pessoas fiquem mais conscientes e unidas, pois nosso lema é Unir para Expandir". (Carlos Salvador)

            Neste sentido, todos os projetos desenvolvidos pela Sociedade Beneficente são, em última instância, fruto de uma "missão religiosa", embora possam refletir também um ideal político, social e cultural de seu líder. Apesar da parte administrativa ter uma maior visibilidade e um maior alcance em termos de público alvo, Salvador afirma que não é a SOBENCO quem sustenta a sobrevivência do Núcleo Espiritual, mas exatamente o contrário.

"O Núcleo Espiritualista é que dá sustentação à SOBENCO. Atualmente, tenho feito um ritual diariamente para poder me estruturar e fazer a SOBENCO crescer novamente, depois de um período de estagnação. A Umbanda é a parte mágica do processo. Nada aqui acontece por acaso, o fim é sempre servir à Umbanda". (Carlos Salvador)

            Portanto, mesmo naquelas áreas de atuação da SOBENCO (como a desportiva e a recreativa, por exemplo) onde a presença da Umbanda não pode ser diretamente percebida, há uma motivação espiritualista gerenciando todos os trabalhos. A umbanda aparece não só como "a mãe" geradora de tudo o que acontece na SOBENCO, mas fundamentalmente como o elo de ligação entre os diversos projetos, funcionando, destra forma, como unificadora da instituição.

            A importância que a crença umbandista assume na estruturação da SOBENCO, porém, não impede que haja uma orientação ecumênica, visando a que pessoas de religiões distintas não se sintam constrangidas de participarem das atividades promovidas pela instituição[7]. Para consolidar mais este propósito, foi criado o GAME (Grupo de Amigos Místicos e Esotéricos), com objetivo de reunir adeptos de credos diversos, que pudessem articular uma ação conjunta de pessoas interessadas em trabalhar em prol da humanidade, independentemente da religião professada. Diz Salvador que "a religião visa a atingir um fim somente, que é religar o homem a Deus, mas para que vários pudessem ser chefes, o homem criou várias divisões, mas, no fundo, elas se completam". Foram realizadas cerca de seis reuniões do GAME, sempre aos domingos, até que as atividades fossem interrompidas para uma reestruturação do Grupo.

              "Esta iniciativa é muito importante para consolidar um trabalho coordenado por todas as religiões. A nossa luta contra o mal é tão difícil que precisamos nos fortalecer. Acredito que o GAME seja um bom caminho". (Arlindo Freitas[8])

            Mesmo com a fundação do GAME e uma abertura às diversas religiões, não se pode deixar de sentir o quanto a Umbanda está presente na organização da SOBENCO. Para entendermos como isso se dá, é preciso conhecer o que fala a doutrina da Umbanda Integral, para depois analisarmos de que forma ela se viabiliza no interior do NEXPP e da própria SOBENCO.

A UMBANDA INTEGRAL

            O termo "integral" já nos remete à principal orientação desta corrente umbandista: todos os universos, os ligados ao mundo espiritual e ao mundo terreno, devem trabalhar unidos tendo em vista a integração dos elementos. A Umbanda é integral por ser total, por ser inteira. E para que ela realmente alcance seus objetivos, é preciso que a Lei da Sagrada Hierarquia da Umbanda seja sempre obedecida, de modo que não haja nenhuma divisão no movimento.

            O termo "integral" foi "revelado" no NEXPP/SOBENCO para indicar o tipo de Umbanda a ser praticada no Núcleo Espiritualista. Assim, a Umbanda Integral nasce na SOBENCO e não podemos encontrá-la, ao menos com essa nomenclatura, em nenhum outro local de prática umbandista. Apesar disso, a teoria que dá corpo à doutrina da Umbanda Integral (que será descrita nos parágrafos que se seguem) não é restrita à SOBENCO. Muitos outros centros a seguem, principalmente os que têm como referência teórica fundamental as obras dos médiuns Matta e Silva e Rivas Netto[9]. Assim, embora a Umbanda Integral seja uma revelação de Salvador, a prática da doutrina é amplamente divulgada[10]. A idéia da nomeação diferente remete à preocupação do grupo que atua na SOBENCO de iniciar e organizar um novo movimento umbandista, que se firme, antes de mais nada, como diferente do que senso comum considera a "umbanda popular", que teria ligações com a "magia negra" e a "macumba".

            Na teoria que sustenta, portanto, a Umbanda Integral, o mundo está dividido em dois planos, o "Cosmo Espiritual" e o "Universo Astral", que são regidos por um único deus, chamado de "Supremo Espírito", "Tupan", "o Eterno" e "o Indivisível", entre outras denominações. Para reger estes mundos, criou-se uma "Hierarquia Divina", que supõe os seguintes planos: um Deus está no topo da "Hierarquia Constituída Virginal", que irá orientar os trabalhos de um "colegiado galáctico", criando a "Hierarquia Constituída Galáctica". Esta seria formada por divindades que existiriam em cada galáxia, ainda no interior do "Cosmo Espiritual". A "Hierarquia Galáctica", por sua vez, supervisiona as "Hierarquias Solares", ou seja, a dos sistemas planetários como um todo.

"No sistema solar, tomado isoladamente, temos a Divindade Solar ou o Verbo Divino, o qual promove Hierarquias afins nos sistemas solares de uma galáxia"[11]

            Dentro do sistema solar, vamos encontrar duas Hierarquias Planetárias: a Superior e a Inferior. A primeira é "composta de todos os Seres Espirituais ligados diretamente, em vibrações, com a Divindade Planetária"[12]. Já a Inferior é formada por "Seres Espirituais que se encontram em planos superiores do planeta, mas fizeram parte desta coletividade planetária"[13], os chamados "Espíritos Ancestrais". Cada planeta, portanto, vai refletir essas duas hierarquias. No nosso caso, do planeta Terra, a Divindade Máxima seria o Cristo Jesus, que corresponde à figura de Oxalá. É ele o "Senhor do Planeta Terra", aquele que vai promover a existência dos demais níveis hierárquicos. Os Orixás vão aparecer como "Senhores Refletores da Luz Divina". Segundo a Umbanda Integral, são sete as linhas ou vibrações de Orixás que estão no patamar da Hierarquia Planetária terrestre: Ogum, Oxossi, Xangô, Yorimá, Yóri, Yemanjá e Oxalá[14]. Cada uma destas linhas é responsável por uma fase, sendo que"o movimento umbandista passará por sete fases e cada uma foi entregue pelo governo oculto do Mundo a um Orixá Ancestral ou Linha Vibratória Original, a qual tem uma função kármica definida sobre a coletividade, hoje umbandista, amanhã universal"[15]. As sete fases do movimento Umbandista serão responsáveis pelas transformações que ocorrerão no planeta, convergindo para uma "Era de Paz, Trabalho e Cooperação". São fases consecutivas e entrelaçadas, e atualmente estaríamos atravessando a primeira fase, que é a de Ogum. Exatamente por seu papel de reestruturadora do Planeta Terra, a partir de valores morais e éticos, a Umbanda Integral é também chamada de "Umbanda Ética".

            As sete vibrações ou linhas principais da Umbanda são relacionadas com três "bandas" de entidades com poderes de incorporação. Assim:

            - Banda dos Caboclos - representa a simplicidade e a fortaleza, estando relacionada às linhas de Oxalá, Ogum, Oxossi, Xangô e Yemanjá.

            - Bandas das Crianças - representa a pureza e a alegria, estando relacionada com a linha de Yori.

            - Bandas dos Pretos-Velhos - representa a humildade e a sabedoria, estando relacionada com a linha de Yorimá.

            No quadro abaixo, podemos ver a correspondência de cada uma das sete linhas da Umbanda Integral com seus principais elementos:

Vibração Original

Signo

Dia da Semana

Cor Vibratória

Elemental

Ponto Cardeal

Oxalá[16]

Leão

domingo

branco

fogo

sul

Ogum

Áries

Escorpião

terça-feira

 

laranja

fogo

água

sul

oeste

Oxossi

Touro

Libra

sexta-feira

azul

terra

ar

norte

leste

Xangô

Sagitário

Peixes

quinta-feira

verde

fogo

sul

oeste

Yorimá

Capricornio

aquário

sábado

lilás

terra

ar

norte

leste

Yóri

Gêmeos

Virgem

quarta-feira

vermelho

ar

terra

leste

norte

Yemanjá

Câncer

segunda

amarelo

água

oeste

               

 

            Cada uma dessas sete linhas se sub-divide em sete legiões, que, por sua vez, se dividem em sete falanges. Na Hierarquia da Umbanda Integral, abaixo dos sete Orixás Maiores estão sete Orixás Menores, que são "os que representam, aqui no planeta Terra, em seu plano físico e astral, o Orixá Ancestral"[17]. Estes serão responsáveis por sete guias (cada Orixá), e os guias coordenam, sucessivamente, os protetores. Para permitir uma visualização maior do que está sendo descrito, vale reproduzir a Hierarquia da Linha vibratória de Oxalá como exemplo:

            - Linha de Oxalá (Orixá Maior) - gera sete Orixás Menores, que são: Caboclo Urubatão da Guia, Caboclo Guaracy, Caboclo Guarany, Caboclo Aymoré, Caboclo Tupy, Caboclo Ubiratan e Caboclo Ubirajara - abaixo dessas entidades, temos os Guias: Caboclo Águia Branca, Caboclo Itinguçu, Caboclo Girassol, etc. Logo abaixo, temos os Protetores, que são: Caboclo Guaraná, Caboclo Malembá, Caboclo Água Branca, etc.

            Assim, são os Orixás Menores, os Guias e os Protetores que têm o poder de "baixar" no médium, fazendo a ligação do planeta terrestre com o Astral. Os Exus, que, embora não ocupem uma linha específica, trabalham dentro de cada uma das linhas vibratórias da Umbanda Integral, funcionam também como elemento de ligação entre os dois mundos. São entidades "guardiães", velando pelo bom funcionamento da Casas Espiritual.

            Segundo a Hierarquia da Umbanda Integral, os espíritos evoluem seguindo uma relação de "causa e efeito", que se manifesta através do karma. Da mesma forma, o planeta Terra também vem evoluindo, cumprindo seu próprio karma. O mundo teria passado várias Raças, desde o seu surgimento, que seriam:

 

RAÇAS

            1) 1º Raça: A Pré-Adâmica;

            2) 2º Raça A Adâmica;

            3) 3º Raça A Lemuriana (quando teria surgido a Umbanda);

            4) 4º Raça A Atlântiana (onde os conhecimentos foram velados para evitar os abusos de poder que estavam sendo cometidos);

            5) 5º Raça A Ariana (que está sendo vivida atualmente, a caminho da 6º Raça   A de Aquário).

              "Temos consciência de que a Umbanda foi implantada na Era Lemuriana justamente quando houve a necessidade do homem começar a voltar-se para o Divino. Foi enviado, portanto,  pelo Pai um Ser de grande luz denominado de SUMÉ com seus prepostos, para orientar os seres humanos aqui radicados, nos princípios básicos da sobrevivência da existência espiritual e material. Não acreditamos que sua origem tenha sido oriental ou africana. O que sabemos é que as leis da Umbanda ficaram veladas durante muito tempo, até que em 1908, através de Zelio Fernandino de Moraes[18], a Umbanda começou a ser revelada novamente. As Leis da Umbanda com toda a sua plenitude estão contidas em tábuas de nefrita, que foram enterradas pelos Sacerdotes da Atlântida no Planalto Central brasileiro. É por isso que diversas seitas e grupos religiosos se encaminham para lá. No devido momento, o conteúdo dessas tábuas será revelado". (Carlos Salvador)

            Portanto, segundo as diretrizes da Umbanda Integral, a origem da doutrina seria aqui no Brasil, de onde ela se espalharia para o resto do mundo, buscando uma universidade. Seus ensinamentos seriam passados de duas formas: através de uma Umbanda Esotérica, voltada para dentro, para o estudo de suas Leis. e através de uma Umbanda Popular, Exotérica, voltada para o exterior, trabalhando com assuntos externos cuja prática pudesse ser revelada sem prejudicar nem a doutrina nem a ninguém. Esta é, basicamente, a estrutura pela qual a SOBENCO foi organizada em dois universos.

Um Universo Esotérico e um  Universo Exotérico.

Fundação do NEXPP

            A ligação de Salvador com a Umbanda surgiu quando ele estava em seus primeiros anos no Exército, de uma maneira inesperada[19]. Segundo ele mesmo conta, naquela época estava passando por uma fase difícil em na vida, onde nada dava certo, e foi aconselhado por amigos a procurar uma orientação espiritual, pois era certo que "as dificuldades estavam surgindo porque algumas ex-namoradas estavam fazendo "trabalhos" para prejudicá-lo".

              "Eu não tinha noção de que era umbandista até cerca de 23 anos. Minha madrinha (mãe adotiva) era católica, embora não praticante, e foi essa a minha formação religiosa. Eu já era sargento do Exército, estava ganhando um pouco mais de dinheiro, comecei a ter problemas com algumas namoradas, que fizeram uns trabalhinhos. Essas namoradas apelaram espiritualmente, então me recomendaram a entidade Maria do Balaio, que atendia no Rio Comprido. Foi mais ou menos em 61, 62. Fui muito bem atendido por essa entidade durante muito tempo, até mais ou menos 72. Hoje em dia eu não iria, acho que foi bobagem, acho que a culpa era minha mesmo. Mas foi o que me motivou a procurar a Umbanda". (Carlos Salvador)

            Após esses primeiros contatos, o interesse de Salvador pela doutrina foi aumentando gradativamente, o que o levou a buscar um aperfeiçoamento nos estudos sobre a umbanda. No período de 1965 até 1972, fez um curso iniciático na OM-AUM (Organização Mística de Aspiração Universal ao Mestrado), que funciona, até hoje, na Tijuca. Criada há muitos anos por um general do Exército brasileiro, já falecido, a OM-AUM transforma o aluno em mestre de iniciação, fazendo com que ele seja Sagrado após sete anos de estudos, como  Sacerdote em Ciências Esotéricas.

 

"Quando terminei, em 72, tinha de escolher uma linha para seguir e acabei escolhendo trabalhar na Umbanda, por acreditar que eu poderia ser útil para a organização da Umbanda Integral. Eu estudei oitenta e quatro meses para me tornar Sacerdote, porque eu procurei esse curso para entender e me aprofundar. Tudo o que hoje faço, devido à minha preparação, é para melhorar a Umbanda neste plano". (Carlos Salvador)

            Antes mesmo de terminar o curso e ser sagrado Sacerdote, Salvador já trabalhava com a comunidade, como, por exemplo, através do Jardim Escola Nuclear, que havia sido fundado em 1965. Após terminar o curso e com a mudança de residência para a atual, onde funciona a sede da SOBENCO, Salvador resolveu criar então um núcleo espiritualista, batizado de Xangô da Pedra Preta (NEXPP)[20].

            Seguindo as diretrizes da Umbanda Integral, o NEXPP também seria dividido em sete áreas, cada uma orientada por um orixá, como já foi dito acima. Com a divisão da SOBENCO em dois universos distintos (o Esotérico e o Exotérico), coube ao NEXPP lidar com as áreas Espiritual e Filosófica, que seriam as encarregadas diretamente pela divulgação e implantação da doutrina, assim como pela realização dos trabalhos de atendimento ao público, que seriam feitos por médiuns preparados para receber as entidades e prestar caridade gratuita. Dessa forma, a área espiritual trataria da prática do culto umbandista e a área filosófica seria responsável pelos cursos pré-iniciáticos e iniciáticos.

            Assim foi criado o "TU -Templo Umbandista"[21], situado na parte de trás da casa que abriga a SOBENCO. A seguir, uma breve descrição da área destinada às atividades do NEXPP[22] (ver figura 2):

            1) área da SOBENCO (descrita no capítulo II).

            2) Hall - uma escada serve de acesso à área da Umbanda, que fica em um nível abaixo ao da casa principal (reservado à parte administrativa).

            3) Cantina - atualmente está desativada. Em dias de festa, porém, serve água, refrigerante, café e salgados para os participantes.

            4) Sala de Espera - funciona como uma ante-sala, onde os médiuns circulam antes dos serviços começarem e conversam informalmente com os consulentes. No local encontra-se um balcão e uma pequena biblioteca (cerca de 30 livros) com obras sobre Umbanda e Esoterismo. Nas paredes, quadros com motivos religiosos e outros relacionados às atividades da SOBENCO, como realização de campanhas e palestras. É o local de passagem[23] tanto para o templo de serviço como para os outros aposentos.

            5) Casa de Força (Exu) - localizado logo na entrada do templo, por ser Exu o "guardião da casa". Embora em geral não se trabalhe com essa entidade durante as sessões, sua presença é cultuada como sinônimo de proteção aos trabalhos. Na porta da "Casa de Exu", uma cortina de cetim vermelho impede a visibilidade. Ao lado da porta, há uma cadeira vermelha, onde uma corrente de ferro impede que alguma pessoa desavisada se sente no assento reservado à entidade.

            6) Área residencial (descrita no capítulo II).

            7) Hall - nas paredes, mais quadros com pensamentos e mensagens religiosas.

            8) Vestiário masculino - local onde os médiuns masculinos se preparam para iniciar os trabalhos. Atualmente está sendo reformado.

            9) Sala de Assistência - é separado do templo umbandista por uma cortina azul. No local ficam quatro fileiras de cadeiras (totalizando cerca de 21), onde os consulentes assistem às sessões até serem chamados pelos médiuns.

            10) Templo de Serviço - sobre o chão de taco de madeira, somente um tapete verde conduzindo ao altar de Oxalá, situado exatamente no centro do templo. O teto é decorado com fileiras de bandeirolas brancas, por onde o sol passa criando prismas de luz. Nos cantos, altares dedicados aos orixás e entidades: Ogum, Xangô, Yori, Yemanjá, Oxossi e Preto Velho (da esquerda para a direita, no sentido horário). Neste local, só se deve entrar descalço.

            11) Corredor - neste local ficam bancos de madeira, utilizados pelos médiuns enquanto esperam o início dos serviços.

            12) Santuário para iniciados - meu acesso a esta área não foi permitido. Só entram no Santuário os iniciados na Umbanda. Segundo Salvador, "é  área mais bonita do Templo". Junto a este espaço, localiza-se o TRC (Templo de Ritos Comuns).

            13) Banheiro - para uso dos médiuns e da assistência.

            14) Cozinha - para o preparo das infusões e também do cafezinho que é sempre servido antes das sessões.

            15) Depósito - abriga material de limpeza, de decoração e de uso ritualístico (como velas, por exemplo).

            16) Vestiário Feminino - idem vestiário masculino.

            17) Ervatório - neste local ficam armazenados as ervas que serão usadas em banhos e também em defumadores.

As atividades do NEXPP

            Cada uma das duas áreas do Universo Esotérico do NEXPP/SOBENCO, a Espiritual e a Filosófica, ficou encarregada de organizar as atividades da Umbanda. Dessa forma, coube à Espiritual o atendimento no templo umbandista às pessoas interessadas em se consultar com as entidades do NEXPP.

            As sessões aconteciam regularmente às quintas-feiras e sábados, sendo que somente as de quinta eram abertas ao público, oferecendo consultas sem cobrar nenhum tipo de pagamento pelo serviço. Já as de sábado eram voltadas para o "aprimoramento espiritual" dos médiuns, sendo reservados somente para iniciados.

            A escolha de quinta-feira como dia semanal para a realização dos trabalhos de consulta no templo se deu pelo fato desse ser, segundo a Umbanda Integral, o dia reservado a Xangô, o líder espiritual do NEXPP. As atividades começam regularmente às 19.00 horas, com tolerância de chegada dos consulentes até as 20.00 horas, quando os portões são definitivamente fechados. As sessões costumam durar até cerca das 22.00 horas, se estendendo até meia-noite em dias excepcionais, de grande procura.

            Quando o Núcleo Espiritualista viveu seus dias de apogeu, a cada sessão cerca de 40 pessoas chegavam a procurar as entidades que incorporavam nos cerca de 30 médiuns que então atendiam. Segundo Salvador, "a clientela tem de ser proporcional ao número de médiuns, por isso é preciso filtrar sempre o número de pessoas atendidas". Entre os freqüentadores, há um predomínio feminino, mas não de cor ou idade. Quanto à tipificação social, freqüentam o NEXPP domésticas, políticos, engenheiros, trabalhadores manuais, comerciantes, entre outros tipos sociais, sendo que, segundo Salvador, "até padres e pastores costumam aparecer às vezes". Nos últimos meses, a assistência caiu para menos de 20 pessoas por sessão, pois após ser abalado por uma grave crise, o NEXPP passou a contar somente com cinco médiuns. É importante falar um pouco sobre esta crise pois ela abalou não só o funcionamento do NEXPP, como o da própria unidade administrativa, além de gerar conflitos familiares para Salvador.

            Durante cerca de quinze anos, Carlos Salvador pôde se dedicar quase que exclusivamente à tarefa de administrar o Universo Exotérico da SOBENCO, lidando diretamente com a comunidade[24], pois contava com uma espécie de "braço direito" no campo do "Universo Esotérico", um Assessor Geral que cuidava de tudo que era relativo às áreas espiritual e filosófica, chamado Valter José dos Santos[25]. Nesse período, o NEXPP funcionava praticamente todo dia, pois além das sessões das quintas e sábados, ainda eram realizados diversos cursos iniciáticos e pré-iniciáticos. Há cerca de três anos, Valter era viúvo, se apaixonou e casou com a filha mais velha de Salvador[26], o que gerou o desentendimento entre eles.

              "Na verdade, ele era o responsável pelo serviço do Templo e minha filha não era uma iniciada da Casa e Valter só tinha contatos fortuitos e de amizade. No entanto para se aproximar mais da minha filha convenceu-a se iniciar para desenvolver sua mediunidade Espiritual dizendo que a mesma era médium. Com seu ingresso na Ordem ele teve maior liberdade para convencê-la a terminar com um namorado que ela tinha ai conseguiu o seu intento. Pelas leis da doutrina e pelas normas instituidas pelos guias espirituais isso não poderia acontecer, pois segundo a Ordem na Umbanda Integral orienta tacitamente que não pode haver relação amorosa, carnal, entre o responsável, ou seja o médium chefe, e uma iniciada. Ela não era somente uma médium, era uma iniciada, e existe uma grande diferença entre os dois. Um iniciado é um membro da Ordem, tendo portanto uma série de responsabilidades. Por isso, eles tiveram de sair. Em vinte anos, esse foi o nosso maior problema, mas não pensamos em fechar a casa". (Carlos Salvador)

 

            Após a saída de Valter e de Nilda,(Maninha) dos 32 médiuns que trabalhavam no Núcleo, 11 seguiram com Valter, 16 desistiram e somente 5 ficaram trabalhando no NEXPP[27]. Além da área administrativa, Salvador teve de assumir também a coordenação da parte espiritual, mas só teve condições de manter as atividades nas quintas e sábados.

            Mesmo com poucos médiuns, as sessões de quinta-feira continuaram, porém com menos consulentes. Para a realização dos trabalhos, há uma série de preparativos que são feitos ritualmente. Em primeiro lugar, os médiuns têm de chegar mais cedo, para realizarem a preparação do ambiente, com a limpeza geral do Templo. Segundo Dona Maria[28], "o local do trabalho espiritual tem de ser extremamente limpo". Além de prepararem o templo, os médiuns executam também uma preparação própria, fazendo a "firmeza do ambiente", acendendo velas e realizando rituais tanto para os Orixás quanto para os Exus. O público em geral não tem acesso a esta preparação.

            Depois que os consulentes chegam, são encaminhados à Sala de Recepção, também chamada de "Sala dos Passos Perdidos". Lá são recebidos por todos os médiuns, que travam conversas informais com a assistência. Depois de algum tempo, iniciam-se os trabalhos propriamente ditos, com a defumação dos consulentes, da sala de recepção e do templo. Após esse primeiro momento, todos são conduzidos para a Sala de Assistência, que também é defumada com incensos e ervas. Depois da purificação, são realizados cantos e saudações às entidades maiores e à Umbanda, que obedecem sempre à mesma seqüência: primeiro canta-se um ponto para Oxalá; depois há uma saudação à Umbanda; segue-se um ponto cantado para cada linha; há um ponto de saudação ao anjo da guarda; a seguir, um ponto pedindo forças para o altar, um ponto para o dirigente dos trabalhos (sendo quinta, para Xangô da Pedra Preta; aos sábados, para Vovó Maria Conga); depois, conta-se para a entidade que vai trabalhar, que, no caso NEXPP, são os pretos-velhos; depois do ponto de saudação, canta-se um ponto de louvor à entidade que chega. No decorrer dos trabalhos, outros pontos vão sendo cantados, de acordo com as entidades que vão "baixando". Um elementos, chamado de "canoro"[29], vai "tirando" os pontos, cantando-os e acompanhando-os com palmas, no que é seguido pelos outros médiuns.

              "Preferimos trabalhar com os pretos-velhos por serem entidades de possessão de Dona Maria, que é quem conduz os trabalhos no Templo. Esta é a entidade que nos serve melhor, pois procuramos trabalhar aconselhando as pessoas. Não cobramos nada, as consultas não são pagas. Muita gente já foi curada aqui, tenho todas as fichas de registro, já vi muitas pessoas entrando carregadas e sair andando no fim das sessões". (Carlos Salvador)

            Finalizamos os pontos de abertura dos serviços, depois que as entidades já incorporaram nos médiuns, os consulentes vão sendo chamados para serem atendidos. Em primeiro lugar, entram as crianças, para que "encontrem o ambiente ainda descarregado, sem muitas forças negativas".

            Antes dos atendimentos, ainda na "Sala de Recepção", os médiuns procuram fazer uma triagem para separar os que realmente apresentam problemas espirituais dos que trazem problemas de outra ordem, os quais classificamos como Sociais. São eles desemprego, problemas de saúde, falta de dinheiro, por exemplo. Os primeiros são encaminhados para serem atendidos pelos médiuns em transe, enquanto os que apresentam problemas de outras naturezas vão conversar com Salvador, que procura orientá-los no que for possível. Casos passionais só são atendidos em ocasiões raras, mas, em geral, são evitados, pois segundo um dos médiuns, "quase sempre a culpa é da própria pessoa".

              "A formação de nossa casa não nos permite a realização de trabalhos de fundo negativo. As pessoas muitas vezes pedem, mas nós não fazemos. Nosso trabalho se fundamenta na evangelização, cura, doutrinação e desenvolvimento mediúnico para implantação e expansão da Umbanda Integral"[30] (Carlos Salvador)

 

            As curas e os aconselhamentos são os principais trabalhos realizados com os consulentes. As primeiras são feitas de várias formas: através de banhos de erva, defumadores, passes magnéticos, desobsessões[31] (fazer com que cesse a obsessão, que, segundo Salvador, "acontece quando um espírito de uma pessoa que morreu numa situação não muito boa, como um acidente, encosta no médium, que começa a sentir os sintomas que a pessoa sentia antes de fazer a passagem") e mesmo conselhos. Para Salvador, "as pessoas estão tão perdidas que muitas vezes só dar conselhos já resolve o problema".

            Ao final das consultas, os consulentes vão se retirando. Quando todos já saíram, os médiuns realizam a purificação do ambiente, com o encerramento dos trabalhos e a liberação das forças que atuaram, com o canto de outros pontos "de subida".

            No Templo do NEXPP não se usa imagens, nem instrumentos de precussão, não são jamais realizados sacrifícios de animais, nem se trabalha com sangue, objetos cortantes (facas, cacos de vidro, etc.) e tambores. Durante os rituais, trabalha-se com ervas, incensos aromáticos, perfumes, pedras e plantas, entre outros elementos. A preocupação de Salvador de afastar a imagem da Umbanda Integral de qualquer relação com a chamada "magia negra" e mesmo com os cultos afros de um modo geral, como o candomblé, é constante. Neste esforço, ele procura frisar todo o tempo que os trabalhos são feitos no templo, e não em "terreiros" e substitui palavras de origem afro, como "ogã" e "tronqueira"[32], por exemplo, por "canoro" e "Casa de Força dos Guardiões", respectivamente[33].

              "A Umbanda Integral não tem nenhuma correlação com o que popularmente se chama de macumba, que é um termo pejorativo, nem com o candomblé. Principalmente a Umbanda Integral não tem nada a ver com o culto afro. Nós começamos a dar uma nova nomenclatura para as coisas, pois se pretendemos organizar o movimento umbandista, precisamos dar um nome correto. As escolas de samba, por exemplo, se unificaram mais depois que todas passaram a ter o nome de Grêmio Recreativo Escola de Samba fulano de tal. Isso ajuda a unir". (Carlos Salvador)[34]

            A busca pelos afastamento da Umbanda Integral do culto afro poderia, a princípio, parecer uma idiossincrasia de Salvador, pois, em muitos pontos, existem elementos que indicam a presença afro também na Umbanda Integral, como, por exemplo, na própria utilização dos orixás. Mas, segundo ele, embora os orixás que compõem as sete linhas vibratórias da Umbanda Integral sejam também entidades de raízes afro, os significados são diferentes. Esta forma de pensar não é restrita a Salvador, como se pode observar neste trecho extraído da Revista "Umbanda - uma religião brasileira", que circula nacionalmente.

 

              "Geralmente o leigo tem uma idéia mal formada a respeito de vários cultos, os chamados afro-brasileiros. Muitos acham que Umbanda e Candomblé são sinônimos, o que é um grande erro, principalmente para aqueles que estão dentro de alguns destes cultos e quase sempre imaginam ser correntes integradas umas nas outras.

              De fato, há uma diferença gritante entre o Candomblé e a Umbanda, e estas diferenças são potentes e facilmente reconhecíveis:

              Na Umbanda não há sacrifício de animais, seja para louvar Orixá, Guia ou Exu, seja para apaziguar qualquer desmando ocasionando (sic) pelo baixo astral.

              Na Umbanda não há roupas coloridas em profusão (quando há, geralmente dentro da vivência popular, é por motivo de festa, mas mesmo assim de forma muito discreta). e as guias geralmente são menores que as usadas no Candomblé, tendo inclusive funções diferentes."[35]

 

            Mas Salvador procura desviar a Umbanda Integral também do kardecismo, embora a situe mais próxima deste do que dos cultos afros. Segundo ele, os discípulos de kardec trabalham mais com espíritos de pessoas mortas, que se apossam do médium quando encontram ressonância com a sua vibração. Já na umbanda, trabalha-se, segundo ele, com outras categorias de espírito, que são os Orixás, seres da natureza, de nível mais elevado.

            Maria Laura Cavalcanti (1983) analisa as relações entre umbanda e kardecismo dentro das doutrinas espíritas. A autora aponta que a prática de diferenciar as duas correntes é comum aos adeptos de ambas, embora a literatura "especializada" indique que, de certa forma, há um "continuum" entre a umbanda e o kardecismo[36]. Demonstrando a existência, na verdade, de pontos de confluência e também de divergência entre as duas crenças, ela afirma que

              "A relação entre Espiritismo e Umbanda ancora-se em características estruturais dos dois elementos. O eixo de aproximação é a comunicação espiritual, a experiência da Mediunidade, a presença e a força dos Espíritos em ambas as religiões e o papel decisivo atribuídos a estes na compreensão do  mundo humano. (...) Se a mediunidade aproxima, a maneira particular de sua afetivação relacionada ao conjunto de cada um desses sistemas, os diferencia nitidamente. A possessão, entendida como perda de controle do homem sobre suas ações, que passam a ser governadas pela entidade incorporada, é uma possibilidade presente em ambos os sistemas. A atitude com relação a ela, porém, diverge bastante.[37]

 

            Os médiuns que trabalham no templo do NEXPP não passam por nenhum teste de comprovação de sua mediunidade[38]. O que é realizado é um trabalho de "desenvolvimento espiritual", feito sempre aos sábados. Em sessões similares às realizadas nas quintas-feiras, mas sem a participação de não iniciados, os médiuns trabalham seu potencial mediúnico, fazendo orações, cuidando da "firmeza das entidades", aprendendo pontos para serem cantados e uso corretos dos objetos litúrgicos.

            Desde abril passado, as atividades do Templo Umbandista estão suspensas, pois o local está passando por reformas de manutenção e ampliação. A idéia de Salvador é reabrir o templo no dia 12 de outubro, com uma grande festa para as crianças. Até lá, Salvador e Dona Maria pretendem ter conseguido novos médiuns para a realização dos trabalhos de atendimento e consulta[39]. Da mesma forma, estão sendo preparadas apostilas para a reimplantação dos cursos da área filosófica, previstas para começarem em janeiro de 1996. Abertos para iniciados e não-iniciados, os cursos englobam as seguintes etapas[40]:

            - de 7 a 15 anos - JUCE (Juventude Umbandista Cristã da Esperança)

            - de 16 a 21 anos - postulantes (ou pré-iniciaticos). Passam por três degraus:

            1) desenvolvimento da fé - o postulante já usa o uniforme da casa, com determinados símbolos, fazendo um trabalho de relações públicas com os clientes que vêm ao Centro.

            2) desenvolvimento da esperança - ele faz a limpeza interna do templo, já adquire um conhecimento maior dos símbolos da doutrina e já conduz as pessoas para o interior do templo.

            3) desenvolvimento da caridade - começa a participar das aberturas de trabalhos, já cooperando neles.

            - de 21 em diante - iniciáticos. É preciso passar por sete arcanos para se chegar a Sacerdote, sendo que cada arcano dura sete meses. Durante os anos de funcionamento dos cursos, algumas pessoas chegaram até os últimos arcanos (como Dona Maria, que atingiu o quinto arcano), mas não chegou-se a formar sacerdotes. Cada arcano é composto por cerca de dez aulas práticas e dez teóricas, que são ministradas pelo médium chefe, posto atualmente preenchido por Salvador.

A Hierarquia do NEXPP

            As classificações acima (membro da JUCE, postulante, iniciado por arcano e sacerdote) formam a estrutura da hierarquia do Núcleo Espiritualista Xangô da Pedra Preta. As posições ocupadas tanto por Carlos Salvador como Dona Maria, os principais nomes da hierarquia umbandista, estão ordenadas a partir desta lógica.

            Por ser um Sacerdote, Carlos Salvador ocupa o posto mais alto dentro da Hierarquia do NEXPP. Porém, Salvador é o chamado "médium sensitivo", que, apesar de ter contatos espirituais com os Orixás, não tem sua mediunidade incorporante com incorporação de guias[41]. Por isso, apesar de hierarquicamente inferior a Salvador,na prática é Dona Maria quem ocupa o posto principal do Núcleo espiritualista, especialmente após a saída de Valter José dos Santos, que era o médium-chefe.

            Conforme Yvone Maggie aponta em Guerra de Orixá (1975), embora com variações, sempre existirá uma hierarquia nos terreiros umbandistas. No caso estudado por ela, detectou-s a existência de uma dupla hierarquia, dividida nos campos material e espiritual. A hierarquia material seria gerenciada por um presidente, que zelaria pela casa, cuidando de problemas administrativos, como pagamento de contas, consertos e conservação. Este presidente seria auxiliado pela contribuição de "sócios", em geral os próprios médiuns e também pessoas que desejassem ajudar no trabalho de manutenção do terreiro. Já na parte espiritual, um "pai-de-santo" ou uma "mãe-de-santo" ocupariam os papéis mais altos na hierarquia, atuando como um "chefe espiritual do terreiro", devendo zelar pela "mediunidade" e pela "unidade" dos trabalhos. Este chefe espiritual seria auxiliado por médiuns, que se distribuiriam por diversos níveis hierarquicamente definidos[42]. Essas duas hierarquias, porém, não eram estanques, e muitas vezes podiam ser percebidas de modo ambíguo.

              "Embora os membros do grupo empregassem sempre esta classificação em termos de hierarquia espiritual e material, havia uma certa ambigüidade na delimitação das funções de cada um desses postos".[43]

            No caso da SOBENCO, o esquema proposto por Yvone Maggie pareceu funcionar muito bem durante os anos em que Salvador ficou responsável pela parte administrativa e Valter se encarregou da área espiritual. Nesse sentido, Salvador atuava como um "presidente" na hierarquia material, enquanto Valter era o "médium chefe" da hierarquia espiritual.

            Com a crise que se instalou e a dissidência de parte dos médiuns do Núcleo, Salvador passou a concentrar as duas funções.

              "Não gosto muito do termo presidente, prefiro dizer que sou o Assessor Geral da SOBENCO e o médium chefe do Templo. Tenho que me desdobrar." (Carlos Salvador)

            Embora Salvador ocupe, oficialmente, o cargo de médium chefe e Dona Maria esteja hierarquicamente em um nível inferior ao dele, na prática é ela quem realmente ocupa o posto principal do templo umbandista. Dona Maria, além de ser uma rezadeira afamada, recebe diversas entidades, principalmente pretos-velhos, e é a possibilidade de possessão que lhe confere um prestígio maior do que o de Salvador, que não recebe, fazendo com que haja, pelo menos no instante do transe, uma reversão de status.

              "A possessão valoriza a participação individual nos rituais, já que é um fenômeno onde se pode ver, claramente, a intercessão do coletivo com o individual. (...) Logo, a possessão é um fenômeno coletivo, já que é um processo socialmente aceito, no qual as "entidades" que incorporam no médium fazem parte da mitologia e do sistema de representações do grupo. Mas ela é, ao mesmo tempo, a individualização desse coletivo, pois cada médium personifica uma ou várias dessas "entidades" dando a elas uma elaboração pessoal"[44].

            Segundo Patrícia Birman[45], o médium, por ter acesso às forças sobrenaturais, se encontra em uma posição diferenciada, Ele é "um especialista em passagens", transitando entre mundos distintos. Isso se dá não somente no plano espiritual, mas também na esfera cotidiano. Através do processo de possessão, o indivíduo transita também por mundos sociais diferentes, alterando inclusive o papel que desempenha em geral.

            Podemos citar ainda FRY e HOWE (1975), que afirmam:

              "A afiliação religiosa implica não apenas numa aderência a um sistema de crenças, mas também um comportamento com o grupo que sustenta estas crenças. Não é apenas um comprometimento intelectual, mas também social. Ainda que a conversão a uma fé religiosa passa ser entendida e publicamente expressa em termos do relacionamento homem/divindade, também envolve certas modificações no relacionamento homem/homem"[46].

            Dona Maria trabalha com todas as entidades, sendo médium "de incorporação". Embora ela diga que "no templo, primeiro vem Oxalá, depois vem o Carlos e depois venho eu", é ela quem, na prática, canaliza as principais atividades do tempo, inclusive sendo a única pessoa a ter acesso a certas áreas sagradas.

             

 


Última alteração em 05-06-2014 @ 07:24 am

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